Foi ele, forcado das Caldas mas nascido em Monsaraz, que nos meteu a ideia de ir pegar um touro. "É um bezerro, nem chega a ser um touro, não há que ter medo", dizia para convencer os rapazes da turma. Era, se bem recordo, a garraiada de Agronomia, no Campo Pequeno. Ele é que sabia, e ficámos dependentes da sua sabedoria e uso das práticas taurinas. Ele ia na frente, a gente de ajudas.

Nortenho pouco entendido destas coisas que mais se usam na lezíria ou no montado, garanto que só não disse que não porque tive a péssima ideia de contar a perspectiva de aventura a uma menina, que ficou embevecida com a hipótese de me ver na arena da tourada. Aos 20 anos não se promete coragem e fica-se nas covas. Não fica bem, e lá se ia a namorada.

Correu bem, aquilo para o José João era manteiga. O bicho é bem maior quando se está nas trincheiras, e as olheiras negras dos moços de forcados engendrados à pressa denotavam o receio de quem nunca se viu em tal alhada. Olhei para a bancada, e lá estava ela. Subiu o camarote, não lhe vi saia bordada.

O José João morreu uma semana depois, numa pega de caras em Albufeira. Touro corrido (que já participou em touradas, por isso avisado), disse-se na altura. Nunca foi provado. Foi a primeira e única corrida da minha vida. Isso e as saudades do José João, que era o melhor de todos nós.

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Amanhã, a tragédia é bem outra. Na arena do Campo Pequeno quem vai morrer é Violetta Valéry, "La Traviata". Como sempre que a ópera de Verdi, inspirada no drama de Alexandre Dumas, é levada à cena num qualquer palco por esse mundo fora. Amanhã a arena centenária, remodelada faz agora dez anos, estreia-se numa produção desta arte e tamanho, se exceptuarmos a cantata "Carmina Burana" de há uns anos atrás. Trazida pela empresa de espectáculos UAU (ler Uau!), que há tempos colabora com o Campo Pequeno, a ópera será interpretada pela Orquestra Filarmonica del Mediterrâno, com sede em Valência. Hoje poderá ser vista no Porto, no Coliseu.

Porque o Campo Pequeno? "Há os grandes espectáculos de massas, que podem ir, por exemplo, para o Pavilhão Atlântico, e depois os de menor audiência, para salas de 600 a 1000 espectadores; no caso desta ópera, queríamos um palco intermédio, função que o Campo Pequeno cumpre, pois contamos com 4.500 espectadores", frisa Rita Duarte, directora de Comunicação da UAU.

Porque o Campo Pequeno, onde já só se fazem 13 a 16 touradas por ano, mudou de têmpera. Na década que agora se comemora, por lá passaram 744 espectáculos, que contaram com a presença de 2,4 milhões de espectadores e visitantes. Nas touradas, os números são menores. Cerca de 744 mil espectadores, para 174 corridas. Mas ainda assim consistentes, dizem os responsáveis pela praça. É que depois de uma manifesta crise de audiências, comum aliás a todos os tipos de espectáculo durante a crise económica, no ano de 2015 já se assistiu a uma retoma, ligeira, de 1,8%.

As obras efectuadas neste recinto, inaugurado em 1892 depois do abate da arena do Campo de Santana, vetusta e perigosa, permitiram valências várias. De uma sala onde se lidavam touros, passou-se hoje a ter um centro comercial que, em dez anos, teve 34 milhões de visitantes, efectuando um volume de transacções de 259 milhões de euros, segundo dados fornecidos pela empresa. As salas de cinema contam já com um acumulado de 2,1 milhões de espectadores e só em viaturas no parque de estacionamento subterrâneo albergou 4,4 milhões.

O museu, inaugurado em Junho de 2015, teve até agora 15 mil visitantes, que se vão habituando a incluir no roteiro de visitas a Lisboa a praça do Campo Pequeno. Na maioria são estrangeiros, e se à partida se poderia pensar que os espanhóis lideravam por largos números, a verdade é que são os franceses quem mais se interessa pela arte e história ligada aos touros. Aliás, curiosamente, a França foi o primeiro país a certificar com o estatuto de património cultural as actividades tauromáticas. Em Espanha, esse país de contrastes, as touradas vão desde protegidas por lei - em Castela, La Mancha, Leão, País Basco ou Comunidade Valenciana - até à proibição, como no caso das Canárias e, em parte, da Catalunha, que neste momento aguarda uma decisão do Tribunal Constitucional sobre o assunto.

Há séculos que a tourada anda envolta em polémica. D. José I, que a apreciava, proibiu-a em Salvaterra de Magos, depois da morte do Conde de Arcos, filho do velho Marquês de Marialva, que aos setenta anos, emocionado, ainda havia de matar o touro que lhe tirou o primogénito. Fez-se a vontade do Marquês de Pombal, que não gostava nada de tauromaquia. Já no reinado de D. Maria II houve uma nova tentativa de proibicionismo. Durou nove meses porque o povo, revoltado, trocou as voltas à rainha.

Sobre os touros de morte, é outra conversa. Foram banidos das praças portuguesas em 1928, sobrevivendo hoje em dia, por decreto recente que apenas plasmou a tradição que então andava arredada da lei, em Barrancos e em Monsaraz. Proibições em Viana do Castelo, por exemplo, levantaram polémica que está longe de ser diluída na sociedade portuguesa. Mas a verdade é que, com excepção dos distritos de Braga e Vila Real e da região autónoma da Madeira, há espectáculos tauromáquicos em todo o território nacional.

Chega a esta altura e faz-se uma declaração de interesses. Quem aí em cima assina gosta de touradas. Vê nisso arte, bravura, cultura e tradição. E portugalidade, já que para ver touros de morte basta atravessar a fronteira. A tourada à portuguesa é, aliás, a única no mundo onde não se mata o touro na arena, permitindo uma sorte que ninguém mais pratica – a pega de caras.

Ainda se tentou exportá-la, sendo famosas as digressões de grupos de forcados no México, já lá vão uns anos. Reza a história que muitos espectadores não acreditavam que aquilo fosse possível, e foram mesmo tocar nos forcados para ver se eram de carne e osso, como eles. Na Indonésia – onde se terão levado a cabo as touradas com mais espectadores na História - foram idolatrados e passaram mesmo por semi-deuses. Mas a verdade é que, com excepção de uma ou outra visita ao México e alguma corrida no sul de França, quem quiser ver uma pega tem de vir à terra portuguesa.

Um estudo de opinião sobre touradas efectuado recentemente pela Eurosondagem, abrangendo todo o país, mostrou que 32,7% dos entrevistados são aficionados, gostam ou apreciam actividades com touros, 20,6% são indiferentes às touradas, 32,8% não são aficionados mas não são contra as touradas, e 11% são contra as actividades com touros. Ainda, 59,3% dos portugueses acham que as touradas contribuem para uma boa imagem do país no estrangeiro e 75% afirmam que as touradas são importantes, ou têm alguma importância, para a economia e turismo; finalmente, 65,3% acha que seria muito grave o desaparecimento da tradição taurina.

Hoje em dia, só já há touros bravos nas ganadarias de Portugal, Espanha, França e alguns países da América Latina. Outrora existente em toda a Europa, norte de África e Médio Oriente – de onde será, provavelmente, originário – a sua extinção deveu-se, em boa parte à falta de uso. "Ninguém está para criar um animal que dá como retorno, em carcaça, uns 200 quilos, quando pode ter outro, que custa metade do preço a criar e que no abate traz 600 ou 700 quilos de carne", afirma Helder Milheiro, da Protoiro, uma associação consagrada a defender as práticas tauromáquicas e a preservação do touro bravo.

"Sem touradas não há touros bravos", afirma o mesmo responsável. Defensor de uma ética e de uma cultura - para além da tradição - ligada à festa brava, Hélder Milheiro sustenta ainda "as novas formas de comunicação que vão ser necessárias para explicar à população tudo o que está ligado ao touro, desde o seu nascimento até à lide". Conservador e até elitista, "o mundo da tauromaquia esqueceu-se de comunicar", sustenta; uma prática que terá de ser completamente invertida.

Por quanto tempo mais vamos poder ver, em liberdade, um animal que conta com quase 30 mil metros quadrados de espaço para viver, quando a norma europeia de criação de bovinos permite que os seus "primos" tenham apenas nove metros? Que vivam quatro ou cinco anos com condições que mais nenhum animal tem, quando as vacas e bois mansos não passam, geralmente, para além dos dois? Isto, obviamente, se após saírem da praça foram para abate, o que não é nada evidente. Os ganadeiros gostam de guardar, para sementais, os animais que, na lide, demonstraram maior bravura. Ainda ontem vi um, de 14 anos, que de cobridor já nada tinha, mas que ainda gostava de ir á manjedoura que o seu tratador de sempre lhe prepara todos os dias.

E há uma economia culinária "gourmet" que tem sido um pouco desleixada; mas isso está a mudar, e na Protoiro, como na sociedade que gere o Campo Pequeno, o assunto está bem assente. Não vai é ser barato comer um bife de touro bravo.

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"Ó Zé João, tu dizes toiro? É touro, pá!". E assim ficávamos, entre o nortenho que agarrou a forma erudita do Latim, e o alentejano que se ficou pela popular. Mas é tudo a mesma coisa. Até sempre!