A manhã começou serena em Fátima, com sol e poucas nuvens, mas à medida que se aproximava a hora da chegada do Papa Francisco a agitação e o frenesim foram crescendo. Antes do Papa, chegava ao local o presidente da República, que tal como na noite de ontem voltou a marcar presença, o mesmo acontecendo com o primeiro-ministro, António Costa que chegou descontraído e a acenar a quem se encontrava nas ruas, recebendo alguns aplausos de volta.

Num recinto cheio, hoje foi de facto o dia da lotação esgotada, o primeiro sinal da chegada do Papa foi na sala de imprensa porque correu o rumor que ele passaria por esse espaço. Resultado: jornalistas, sobretudo fotógrafos, apinhados na entrada da tenda que dá para a saída exterior (a outra entrada dá para o recinto do Santuário), um clima de tensão, incluindo das forças de segurança, superior ao normal e alguns curiosos a juntarem-se. No final, nada se passou. “Que patetice”, ouvia-se entre alguns jornalistas após a desmobilização.

Cá fora, tudo a postos. Reencontramos rostos da véspera, muitos não arredaram pé para não perder o espaço ou revezaram-se para cumprir as necessidades básicas que também aparecem durante uma vigília, sejam as de alimentação - o Pingo Doce de Fátima ontem só fechou às 3 da manhã - sejam outras. As bandeiras continuam por lá, as de países, as de peregrinos - hoje é bem visível a do grupo de peregrinos que o SAPO 24 acompanhou ao longo da semana, os Apóstolos de Maria - seja uma bandeira que dificilmente podia ser ignorada e que pedia à Virgem de Fátima liberdade para a Venezuela.

Numa das colunatas do Santuário, António Costa já marca posição, juntar-se-ão também Marcelo Rebelo de Sousa, Assunção Cristas e o ministro do Ambiente, Matos Fernandes.

O que Francisco disse e o que os crentes ouviram
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A chegada do Papa é antecedida de cânticos e da procissão que transporta a imagem da Virgem Maria e dois relicários com as relíquias de Francisco e Jacinta que, poucos minutos depois, serão declarados santos, tornando-se os mais jovens da igreja católica. Com a imagem da Virgem Maria no altar, só falta o Papa e ele chega no horário combinado e cumprimenta à entrada o sacerdote mais idoso de Portugal (padre Joaquim da Cunha com 104 anos). Antes da canonização, o Papa reza em privado junto dos túmulos dos dois pastorinhos e nesse mesmo local paramenta-se com uma estola que lhe é oferecida pelo Santuário de Fátima.

Cabe ao bispo de Leiria, António Marto, ler o pedido ao Papa que antecede a canonização de Francisco e Jacinta, o que faz acompanhado da biografia das duas crianças. Às 10h26 não são mais apenas crianças e pastores a quem a Virgem Maria apareceu na Cova da Iria, mas sim dois novos santos da igreja católica. Ou, como proferiu o Papa Francisco: "Em honra da Santíssima Trindade, para exaltação da fé católica e incremento da vida cristã, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e Nossa, depois de termos longamente refletido, implorado várias vezes o auxílio divino e ouvido o parecer de muitos Irmãos nossos no Episcopado, declaramos e definimos como Santos os Beatos Francisco Marto e Jacinta Marto e inscrevemo-los no Catálogo dos Santos, estabelecendo que, em toda a Igreja, sejam devotamente honrados entre os Santos. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Canonização realizada, o Papa faz uso da sua já proverbial capacidade de relacionar eventos passados - e marcantes - com a contemporaneidade e com a mensagem que pretende passar. “A Virgem Mãe não veio aqui para que A víssemos; para isso teremos a eternidade inteira, naturalmente se formos para o Céu”. Maria veio “lembrar-nos a Luz de Deus que nos habita”. 

Já depois da canonização, um novo momento simbólico e que fica para a História. Aquele em que Lucas, a criança brasileira que esteve na origem da canonização de Francisco e Jacinta, dá um abraço ao Papa Francisco - ou como diz a jornalista da TV Aparecida que está ao nosso lado, “pega no pescoço dele e não quer desgrudar”. Lucas integrou o cortejo do ofertório da missa acompanhado pelos pais e pela irmã.

A missa é realizada na presença estimada de cerca de 500 mil pessoas e muitas comungaram naquela que foi uma exigente logística da eucaristia. Sacerdotes vestidos de branco e munidos de chapéu de chuva branco multiplicaram-se pelo recinto de Fátima de forma a fazer chegar a comunhão ao maior número possível de crentes que quisessem participar.

Antes de sair, o Papa Francisco ainda deu a bênção aos doentes presentes no local, deixando como mensagem aos peregrinos verem nos doentes a presença de Jesus.

As cerimónias aproximam-se do fim. A imagem de Nossa Senhora é transportada de volta à Capelinha das Aparições. A multidão acena. O Papa Francisco entra no Papamóvel. A multidão bate palmas e acena. Correu tudo bem, agora já se pode dizer que sim.

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