Lisboa que amanhece só não é um cliché - dos bons, dos literários, mas cliché - quando amanhece mesmo de uma maneira diferente. Pelo menos para quem usa a expressão que dá nome à música de Sérgio Godinho que fala dos corpos cansados que vão para casa e dos ritmos imitados de outra dança. A Lisboa de que vos falo de hoje é mesmo aquela que amanheceu a um domingo depois de mais uma noite da movida dos cais e dos bairros e em que a noite não finge ser criança, pelo contrário, apressa-se a ter idade maior.

Foi nessa Lisboa que partimos do Largo Camões, no Chiado, não sem antes irem chegando em pares, sozinhos ou em grupo os nossos companheiros de jornada para os próximos seis dias. Ainda não eram seis da manhã e a conversa já fluía tão normalmente quando fluíra na noite anterior para os corpos cansados agora a caminho de casa.

Hoje foi o primeiro dia de uma peregrinação que saiu de Lisboa para chegar a Fátima a 11 de maio. Para poder estar em Fátima a 12 de maio, erguer a vela na madrugada de 13 de maio e dizer adeus ao Papa Francisco na missa desse dia. Fátima dos 100 anos, Fátima dos Pastorinhos que serão canonizados, Fátima do amor a Maria.

“A sério que vais?”. “Que lindo”. “Tão bonito”. “Eu tenho uma amiga que também foi”. “A minha mulher vai todos os anos”. “Vai ser uma experiência fantástica”. Sem grande falha de memória, esta é a circunferência de comentários que o compasso traçou nos dias que antecederam a nossa vinda a Fátima. Mais de 130 quilómetros. A pé. Não é nada, há quem faça o dobro, o triplo.

Ainda assim. Não imaginava que tantos já tivessem vindo. Não imaginava que tantos tão novos tivessem vindo. Não imaginava que tantos pensassem vir.

Um hora e pouco de caminho e há braços que esbracejam e levantam a água à frente dos nossos olhos. Ouvem-se gritos de incentivo, há uma inusitada agitação matinal. A surpresa maior são esses movimentos enérgicos e compassados que vemos no meio do Tejo, o Tejo que banha a varanda principal do Parque das Nações, melhor seria dizer da dita Expo 98, do Oceanário ao Pavilhão Atlântico passando pelo Pavilhão de Portugal. São atletas de triatlo, percebemos depois, também eles comprometidos mas com outra superação que sendo física, não é só física.

E nós lá continuamos, o sol fica mais quente, põem-se bonés, armam-se os rostos de óculos de sol. Está quase, alguém diz. Quase o quê? A primeira paragem, vamos parar para o pequeno-almoço lá no fim da Expo. É sempre a Expo, nunca deixa de ser Expo. As conversas dos outros distraem-nos dos pés que ainda não pesam e das pernas que ainda não congelaram. “Deus não faz a obra. Deus ilumina o caminho …”. Mais uns passos, vá, mais um grupo que não é o nosso - não se confundam, tenham atenção, uma peregrina mais experiente alerta - mais uma conversa ao acaso. “Eu sinto-me agora muito melhor, muito mais acompanhada …”.

Pequeno-almoço tomado, energias retomadas, já somos todos mais próximos. Afinal já fizemos dez quilómetros juntos, já atravessámos a noite que se fez dia lado a lado e, sempre importante em Portugal, já partilhámos a mesma mesa.

Antes da segunda etapa da caminhada, também a alma tem de ser alimentada. Porque estamos aqui? O que viemos aqui fazer? O que nos leva até Fátima? É um grupo sem promessas - pelo menos públicas, privadas quem não as tem. É um grupo que peregrina pela salvação das almas, das que mais precisam.

Avé Maria cheia de graça

Bendita sois vós entre as mulheres

Bendito é fruto do vosso ventre

Jesus

À vez. Agora os homens. Agora as mulheres.

O dia é delas - e também deles, como não. Na roda que os juntou à volta de Maria, o padre perguntou. Por quem pedimos hoje. E hoje pedimos pelas mães. É dia da Mãe, das mães e da mãe de todos como Maria é adorada por todos estes peregrinos. Que vão a Fátima do amor a Maria em dia de Mãe.

Entramos em campo aberto. É um caminho novo. Nada de estradas principais. Nada de camiões. Nada de bermas estreitas e de um ar que não alimenta a pureza da caminhada. Estamos em campo aberto, por baixo dos pés temos terra, ervas e capim. Mas também temos papoilas - muitas papoilas que anunciam o maio - e temos um rio que corre, um céu que esmaga e a largueza que admite a conversa além da oração.

Bom dia! - Bom dia. Repetimos vezes e vezes e não são demais. Ciclistas de trilho matinal cruzam-se connosco, uma e outra e outra vez. Todos ou quase todos nos cumprimentam. Todos parecem felizes por nos verem, respeitosos com a nossa caminhada. A nossa que, depois daquele bom dia, é também um pouco a deles. Mais tarde, quase a chegar a Alverca, e em trilho bem mais urbano as buzinas substituem o bom dia mas o espírito é o mesmo.

Nossa Senhora do Rosário. Salvai Portugal. Salvai o mundo inteiro. Dai-nos paz.

“O senhor padre já está a pedir por França, vês”, sussurra-me a minha companheira de viagem. Por França? Sim, pelo mundo inteiro hoje é por França. Vamos assim.

Uns quilómetros mais e o sol despede-se de abril e torna-se um verdadeiro sol de maio. Felizmente que houve quem lhe adivinhasse as intenções e no meio do campo aberto, entre o rio e as papoilas, lá está quem fez sua a peregrinação dos outros - há água, há maçãs e, quão maravilhoso isto pode ser, há alperces. Da época.

É simples, é bom, é semi-doce como convém e quase faz esquecer mazelas, que já as há. a perna que prende, a bolha que teima, a unha que se calhar vai cair - sim, eu não sabia que caiam unhas nas peregrinações mas caem e não são poucas.

O padre Carlos não precisa que lhe confessemos mazelas. Adivinha-as. E distrai-nos. Lá conta que em 1978 ou 1979 pôs-se um dia ao caminho de Barcelos com destino a Fátima. Sozinho. Se tantos iam, pensou, porque não vou eu. No primeiro dia andou 70 quilómetros dos 300 que tinha pela frente. No segundo foram uns 30 ou 40. E ficou tão cansado que achou que ficava por ali, em São João da Madeira. Mas não, outros vieram e a caminhada ficou menos sozinha e em Coimbra até logrou encontrar quem lhe oferecesse o palheiro mais confortável do mundo.

As dores passam. Os quilómetros passam. A oração ajuda, afiança. “Rezais e descansais”, recorda.

Mais tarde vamos ouvi-lo na missa realizada na igreja da Póvoa de Santa Iria falar de quem suporta a dor com sofrimento. Quem o faz tem a Graça de Deus. Uma audiência de pouco mais de 30 ouve as suas palavras. Há quem tenha a graça de ouvir e de se esquecer. Do cansaço. Da subida a pique debaixo do sol. Da sede. Daquela teimosa sensação que afinal não estamos assim tão mais perto de Fátima.

“O nosso destino é uma meta, uma chegada. Enquanto não chegarmos ao encontro com Deus somos sempre peregrinos”, diz o Padre Carlos no púlpito de onde fala quando não está de viola em riste cantando e pedindo que cantem com ele.

É um padre bem-disposto. Que canta, que ri, que não se importa de ser homem.

E mezinhas?

Também as tem. Lá atrás, quando aquela dor fina teimava em travar as pernas que queriam andar e chegar à meta, não a final, mas a seguinte, ele falou-nos das couves. Mais concretamente da couve galega que esmagada lhe garantiram ser boa para curar as dores do cansaço. Ele próprio experimentou naquele calcanhar que tanto trabalho lhe deu e não se deu mal.

“Tanta gente peregrina e eu não faço nada?”, interroga-se o padre como se consigo falasse antes de com todos os outros. As respostas são de cada um, mas aquele carro que se cruzou connosco há muitos quilómetros, deveria andar atrás da mesma interrogação. Dos vidros abertos em domingo de maio ouvimos claramente I have become confortably numb.

Nós não viemos ver a anestesia. Viemos, disse o padre Carlos na Lisboa que amanhece, ver o sofrimento. Na realidade, viemos fazer parte dele, porque depois de um dia de caminho percorrido que não haja dúvidas que há sofrimento. Mas há tudo o resto também. Há camaradagem, estranhamente instantânea só porque estamos juntos no mesmo caminho. Porque estamos juntos no mesmo caminho. Há partilha - do que se precisa e do que se necessita. Há cuidado.

Tudo o resto faz esquecer do sofrimento. Não sempre - mas quando se obtém essa graça. É uma graça não pensar com o corpo e precisamos que ele nos doa para que o saibamos. Não foi por acaso que antes de partirmos, o padre Carlos deixou a recomendação: “Façam-se valentes!".

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