Fernando Fernandes. É um nome incontornável nos desportos de combate, a nível nacional e internacional, em especial no Kickboxing. É um dos símbolos do Sporting Clube de Portugal, sendo um dos atletas e treinadores com maior longevidade no clube verde e branco, para onde entrou com 25 anos.

O curriculum fala por si. Como atleta amador foi campeão nacional de Kickboxing em 1990 e 1991 e campeão europeu. Como profissional, foi campeão nacional em 1992, 1993 e 1994, campeão europeu em 1991 e 1993, e Intercontinental e campeão mundial em 1994, sempre na categoria de – 76 kg, este último título conquistado num combate realizado na Nave de Alvalade.

Ao todo, 123 combates, com 84 vitórias das quais 19 por KO, 34 derrotas e 5 empates.

Abraçando desde cedo a carreira de treinador, Mestre com a graduação 5º Dan (cinturão negro) e treinador de 4º grau, é o grande responsável pela escola de formação de Kickboxing no Sporting, autêntica fábrica de campeões.

Não tem o nome no Wikipedia, mas tem página de Facebook. E aos 50 anos escreveu um livro, no qual revisita a sua vida, metade da qual passada em Alvalade, como atleta e treinador numa “das mais antigas modalidades do clube”, conforme faz questão de frisar. E falou com o SAPO 24 sobre o percurso profissional e pessoal e revelou o desejo de voltar ao ringue. Nem que seja por só mais uma vez.

Um livro que estava na gaveta

“O livro foi um objetivo de mais de 20 anos”, assume. “Tem o meu percurso. É a minha vida. Tem artigos médicos, parte física. E no fim, a ligação ao Sporting”, enumera.

O título é sugestivo: “Ser Campeão. No Ringue Como na Vida”. Explica: “Para se atingirem metas e objetivos temos que ser campeões da vida. E o que é isso? É ultrapassar os obstáculos que enfrentas ou tomar as decisões corretas ao longo da vida”.

Numa família onde ninguém estava ligado ao desporto, os desportos de combate desde cedo entraram na vida de Fernando Fernandes. “Sempre quis ser isto, ser campeão, nasce connosco”. Recorda que via filmes do Bruce Lee e “ia para a escadinhas do Duque ver revistas e ler livros de boxe estrangeiros”.

Depois da passagem pelo Karaté, com 13 anos, o Kickboxing entra na sua vida em 1983. Seis anos depois começa efetivamente a fazer competição. E é aqui que entra a aprendizagem com os mestres Carlos Pais, Fernando Jaime e Carlos Ramjanali.

Vivia em Campolide. O Monsanto era um dos seus ginásios. “Levava o carro, levava um saco e estava ali a treinar o dia todo, ao ar livre a fazer o que gostava”, recorda.

Os títulos sucederam-se. Com uma longa carreira, eleger o momento mais alto foi fácil: “Campeão do mundo na nave de Alvalade (1994). E o “dia em que entrei nesta casa”, assume. O mais difícil? “Vários. Quando tive de parar aos 30 anos”, numa altura em que estava “no auge na carreira”, relembra.

A espiritualidade e o lado oriental

A paragem foi um chamamento interior. Ou antes, a falta de chama interior para combater. Dos 30 aos 37 anos canalizou energias para o conhecimento e formação (recuperação, reiki e shiatsu). Preencheram o vazio e “foi também uma necessidade económica”, numa altura em que já tinha nascido o primeiro dos dois filhos.

Diz que na vida nada acontece por acaso. Fala de bem-estar interior, de ajuda e respeito pelo próximo. Parece paradoxal, vindo de alguém que praticou e ensina Kickboxing. “O desporto de combate exige regras e disciplina, ética e educação. Isso é que é o espírito da arte marcial”, sustenta, afastando o cenário de violência gratuita.

Assume-se como disciplinador. E exige respeito a todos. “Na minha postura e conduta, mentalmente respeito as pessoas. E como tal exijo. Não admito que não haja respeito”, sublinha, relembrando que já expulsou alunos por esse motivo.

Diz que “nunca” utilizou a força para resolver qualquer problema. “A energia que emano, no olhar, mostra que sou uma pessoa que não tenho problemas e mostra uma segurança e confiança. Daí vem o respeito”, avança.

A “calma” foi-lhe transmitida por uma das pessoas mais importantes na sua vida (Francisco Pereira Ferraz) com quem aprendeu o autodomínio, a confiança, ioga e filosofia oriental. E que percentagem dentro de si representa o lado Oriental? “Muita”, diz prontamente.

À imagem de Rocky Balboa. Um regresso aos ringues aos 37 anos

Depois de uma hibernação, mais uma vez o chamamento interior. No caso concreto para voltar aos ringues e combates. Foi o que fez depois de “ouvir a minha voz interior como os grandes mestres ouvem”, explica.

“Ganhar aos 37 anos e combater até aos 45 não é para todos”, sublinha. Por isso, diz que há quem “me compare com o Rocky”, sorri.

créditos: DR

Sempre foi mais defensivo. “Para ser campeão temos que ter uma boa defesa”, uma teoria que pode ser retirada da conhecida frase: “o melhor ataque é a melhor defesa”.

Assume ser igualmente defensivo na vida. “Para não sofrermos e não sermos surpreendidos tem de haver uma certa neutralidade, frieza”, revela, reconhecendo ser “uma pessoa fria, não emotiva”.

A morte da mulher

Nesta viagem da vida era inevitável falar da mulher. Baixa a guarda, quase que chora ao recordar a faixa que no ano passado foi mostrada na superior sul durante um jogo de futebol com a inscrição “força campeão FF, estamos consigo”. Referia-se à morte da mulher de um dos símbolos do Sporting Clube de Portugal e Prémio Stromp (1994).

“Tinha 49 anos. Conheci-a com 19, foram 31 anos de vida. E temos dois filhos, de 21 e 19 anos”, conta recordando-a. “A minha mulher sempre me ajudou”, admite.

“Foram 8 meses em que me preparei para a morte dela”. Como? “A espiritualidade prepara-me para a dor”, reconhece. Mas não só. Através da sua crença na vida para além da morte, por vezes “sinto a sua presença”, desvenda.

O sonho de regressar ao ringue no pavilhão João Rocha

Fernando Fernandes tem muitos lemas de vida. Um deles é, seguramente, “viver o dia a dia, ser útil e fazer o que me dá prazer e gosto”, refere. Sente-se um “privilegiado”.

Dedicou a vida a fazer campeões, campeões da vida, árbitros e dirigentes. E sente-se realizado. E o livro foi mais um passo nessa realização pessoal. “Pessoa, treinador e atleta está tudo interligado. Sou um móvel com várias gavetas”, gesticula.

Se na Nave de Alvalade (obra do então presidente João Rocha em que por baixo da então da nova bancada do antigo estádio José de Alvalade treinavam e jogavam as modalidades “amadoras”), conheceu grandes êxitos, agora que o clube leonino tem uma casa nova, obra do atual presidente, Bruno de Carvalho, Fernando Fernandes, revela um desejo. “Gostava de voltar e fazer um combate no pavilhão João Rocha”. Ou, se não for possível de ali, pelo menos, ver combates da “sua” modalidade.

A enorme vontade de combater e voltar ao ringue aos 50 anos é bem medida. Tudo pode acontecer até ao final do ano. É tudo uma questão de voz interior. Como os grandes mestres. “E a minha voz diz para ir, sem medo”, anuncia.

“Só faço o que sei e só vou onde posso. Se sentir que posso subir as escadinhas e passar por debaixo da corda, faço. A idade não conta. Só tenho de estar bem fisicamente”, finaliza.