Portugal vive, nos dias que correm, numa “crise” profunda no que concerne ao rugby nacional. Com várias complicações e confusões entre clubes, associações e a Federação, o fracasso no regresso à divisão Championship (a máxima divisão da Rugby Europe, onde participam as congéneres da Geórgia, Roménia, Rússia e outras), a decepção nos 7’s (sem apuramento para o Mundial da variante ou sequer um “bilhete de ida” a Hong Kong), Portugal vive dias algo cinzentos no que concerne à bola oval.

Todavia, existem algumas “luzes” que insistem em manter viva a esperança do rugby em Portugal: o desenvolvimento da formação, o crescimento dos jogadores jovens, o ganho de notoriedade do produto (ou seja, atleta) português. Individualmente há que destacar um par de gerações que estão a dominar o interesse da comunidade rugbística portuguesa, já que nos últimos quatro anos atingiram metas inesquecíveis.

Tudo começou com a vitória frente à Escócia em 2015, algo histórico e quase único para o rugby Nacional.

Impor uma derrota a uma selecção que supostamente estava bem acima, num patamar quase inalcançável, foi um feito notório e que deu outra tónica às selecções de formação nacionais. Curiosamente essa vitória, forçou a uma descida de divisão da Escócia, que esta recusou e que acabou mesmo por sair dos torneios internacionais organizados pela Rugby Europe, formando com a Inglaterra, País de Gales e Irlanda (que defenderam e apoiaram a causa escocesa) outro campeonato europeu, no qual a própria França (apesar de não ter deixado de participar no das Rugby Europe, jogando nas duas frentes) participa, assim como a Itália.

Ou seja, Portugal em tudo o que toca, mexe e destabiliza, neste caso no bom sentido. Desde 2015 até 2017 muito aconteceu e vale a pena “reviver” alguns desses momentos, para o leitor perceber o crescendo desta sinfonia amadora:

- Organização do Mundial “B” (apelidado de Trophy) de Rugby de sub-20, em que Portugal conseguiu garantir o 7.º lugar, com exibições interessantes ante as Fiji e Geórgia, em que José Luís Cabral, Diogo Hasse Ferreira ou Vasco Ribeiro figuravam como os grandes nomes, num elenco comandado por João Pedro Varela e Luís Pissarra;

- Conquista do Bronze no Europeu de sub-18 da Rugby Europe em 2016, frente à Bélgica, após uma excelente participação na fase-de-grupos, onde jogadores como Manuel Cardoso Pinto, João Fezas Vital já se destacavam, numa selecção treinada por Rui Carvoeira;

- Obtenção do 4.º lugar no Europeu Invitacional de sub-18 em França, sendo que os portugueses foram a terceira melhor seleção europeia, uma vez que o torneio recebeu o Japão, Estados Unidos da América e Canadá como convidados especiais;

- Conquista do Ouro no Europeu de sub-20 em 2017, na Roménia, com uma vitória memorável ante a Espanha com um ensaio já nos momentos finais de jogo, “coroando” as gerações de 1997 e 1998 com a honra mais alta de sempre para Portugal em termos de torneios de formação. Ao conquistar este 1.º lugar, Portugal também recebeu o “direito” de participar no próximo Mundial “B”/Trophy a realizar no Uruguai neste Agosto-Setembro.

Olhando bem para esta súmula, Portugal tem dado pinceladas de grandiosidade nas competições internacionais, provando um crescimento sustentado ao nível das suas seleções jovens.

Porém, será que os resultados alcançados entre 2015 e 2017 provêm mais do facto de estarmos perante três ou quatro gerações (1996, 1997, 1998 e 1999) inigualáveis do rugby português, similar às que conquistaram o seu lugar no Mundial de 2007? Ou houve mesmo um crescimento e evolução no rugby de formação, tanto a nível de clubes como selecções?

Luís Pissarra, seleccionador Nacional dos sub-20, falou um pouco sobre esse tema assim como explicou como decorreu toda a preparação, numa pequena entrevista em exclusivo para o SAPO 24.

Uruguai... achas que estamos perante uma seleção que pode fazer História no Mundial Trophy? Sentem-se confiantes e curiosos para ver que tipo de desafios vos vão surgir na competição?

Este grupo já surpreendeu todos anteriormente e vamos partir com muita ambição em que, de acordo com o que definimos, a nossa prestação e classificação vai depender da forma como vamos encarar e terminar o primeiro jogo com os candidatos e anfitriões uruguaios.

O torneio surge na pior altura possível para os nossos jogadores, uma vez que estamos perante uma fase de completa off-season, em que não temos equipas para competir/jogar, em que os atletas têm muitas "tentações", mas que nos fizeram ver o quanto estes jogadores querem este objetivo. Isto obrigou-nos a ter uma estratégia e abordagem ligeiramente diferente nos treinos para recriar um ambiente de competição e jogo!

Os desafios no Uruguai... estamos à espera que apareçam e foi para isso mesmo que nos preparámos, para a adversidade, ambiente diferente, longe de casa e 3 semanas juntos em competição! Somos privilegiados por poder viver este ambiente e este torneio!

Foi difícil o processo de escolha, já que passaram para um grupo inicial de 40 e no final só 26 tiveram direito ao bilhete dourado? A equipa técnica sentiu-se satisfeita no final de quase dois meses de preparação?

Esta foi a parte mais difícil de todas! Para fazer o primeiro corte para 35 jogadores, não tenho dúvida que foi mais difícil do que as escolhas para o Campeonato da Europa. E quando tivemos de fechar o grupo final foi muito duro.

Foi muito duro para nós, treinadores, comunicar as escolhas. Foi muito duro para os que ficaram para trás desta vez e mesmo para os que vão... Somos um grupo unido em que existe grande proximidade entre todos. Mas não tenho dúvida de que os que ficam em Portugal vão vibrar e apoiar o grupo com grande intensidade!

A nossa preparação, tendo em conta a situação financeira da Federação Portuguesa de Rugby, em que tivemos algumas limitações no planeamento, foi bastante positiva. Tivemos um período de treino meramente físico, posteriormente tivemos 3 semanas de estágio, no CAR, em que trabalhámos muito e bem a componente física e táctica. Terminámos a preparação como grupo alargado com um estágio no Algarve, em Silves, que culminou com uma visita ao Browns para estar com o Gloucester, que correu muito bem e sei que foi crucial para este grupo! Aproveito para deixar um agradecimento meu, do staff e dos jogadores à Câmara Municipal de Silves e ao Silves FC, na sua pessoa o Exmo. Presidente Tiago Leal pela ajuda, apoio e contribuição na nossa preparação.

A única grande lacuna foi a impossibilidade de realizar jogos de treino com equipas desconhecidas. Jogamos muito entre nós, mas claramente não é a mesma coisa!

Para um público geral que desconhece os nossos adversários ou a qualidade dos mesmos, o que podes dizer e como facilmente podemos explicar a importância deste torneio para as cores Nacionais?

Este torneio é uma referência da World Rugby e é considerado como muito importante para o rugby mundial, é o campeonato do mundo B, uma vez que o World Rugby U20 Championship é o campeonato A e só estão presentes 12 equipas.

Os nossos adversários estão muito habituados a esta competição uma vez que são presença assídua nos últimos anos. O Uruguai, para além de anfitrião, tem tido prestações de top-3 no torneio, Fiji desceu do Championship há 3 anos e não conseguiu subir novamente (dá para ver o elevado nível das equipas que competem neste torneio) e ainda Hong Kong que, apesar de não ter resultados de relevo na competição, está presente em todas as edições.

São estas competições onde queremos colocar os nossos atletas para que se desenvolvam num ambiente altamente competitivo e tragam experiência e ritmo para a serem opção para a selecção sénior.

Pensas que Portugal deu um salto qualitativo na sua formação de novos atletas? Estas gerações são para continuar a elevar o orgulho nacional e a alcançar novos patamares, que nos fogem a algum tempo?

Esta questão já a debatemos antes do Campeonato da Europa na Roménia e é um problema de fundo do rugby português. Nós competimos na cara das potências do rugby, nestes escalões, mas quando os nossos adversários crescem e evoluem, nós acabamos por ficar para trás.

Este grupo vem de um processo de desenvolvimento das selecções jovens já desde há cerca de 3-4 anos, passando pelas várias seleções e vivendo fortes competições... Isso permite, associado ao nível a que já estão a jogar nos nossos clubes, que estejam preparados para este tipo de competições exigentes e tenham sucesso. Acho crucial manter a atividade internacional, de nível para os escalões mais jovens, de modo a que se possam preparar os futuros Lobos.

Como antigo internacional por Portugal, que chegou a jogar num Mundial de rugby, o que podes dizer aos teus atletas em relação a esse sentimento? O nervosismo está ofuscado pela vossa vontade de ir lançar o jogo à Lobos?

Não tenho dúvida que a pressão de jogar um Mundial, para mais do outro lado do oceano, está na cabeça de todos os atletas e tem sido precisamente para essa pressão que temos treinado e vivido.

Temos dito aos jogadores para desfrutarem de todos os momentos que estamos juntos, desde os treinos, aos momentos sociais e mesmo nas situações difíceis temos de tirar prazer porque são sensações que podem não se tornar a repetir! Se estivermos preparados para o pior, tudo o que vier será gerido com outra tranquilidade.

Quanto ao nosso jogo vai permanecer ao nível que já nos viram fazer!

João Peleteiro 2017

Ao fim de dois meses de preparação, Luís Pissarra auxiliado por António Aguilar (ambas lendas do rugby português) seleccionaram os seus 26 jogadores de quase um grupo de 40 atletas que vão desde o Norte ao Sul de Portugal, não esquecendo dos jogadores que estão a jogar fora de portas.

Para além dos selecionadores nacionais: Luís Pissarra e António Aguilar, a equipa técnica que seguirá com a seleção nacional sub-20 de rugby para o Uruguai conta ainda com José Paixão (Vídeo-Analista e Fisioterapeuta), Francisco Moreira (Médico), Paulo Vital (Fisioterapeuta) e Carlos Polainas (Team Manager).

"Alcateia" como nomes fortes 

Numa seleção muito similar à que participou no Europeu na Roménia, Portugal garante desde logo uma equipa unida, consolidada, “pesada”, altamente dinâmica e com automatismos que podem garantir uma boa prestação em terras uruguaias. Sem mencionar as expressões Estrelas ou Astros, uma vez que nesta Alcateia todos são Alphas, aqui ficam alguns dos nomes fortes que vão representar as cores lusas no Uruguai:

José Luís Cabral
Posição: Centro (nº12/13)
Idade: 20 anos
Clube: GD Direito
Pontos Fortes: Perfuração no ataque, capacidade de explorar a linha de vantagem, intensidade e ritmo alto de jogo

José Luís Cabral é um dos novos produtos da excelente formação do GD Direito. É um problema de largas proporções para a defesa adversária, já que na maioria das vezes que agarra na oval imprime uma explosão e velocidade tão alta que cria sérias dificuldades para o imobilizar na primeira placagem. A boa técnica de corrida, o excelente ritmo que imprime e a super intensidade que implementa, fazem-no um dos Ases da seleção de sub-20 de Portugal.

Nuno Mascarenhas
Posição: Talonador
Idade: 20 anos
Clube: GDS Cascais
Pontos Fortes: Liderança na formação ordenada, trabalhador no ruck e placagem “agressiva”

Nuno Mascarenhas foi um dos corajosos portugueses que no Europeu de sub-20 arriscou uma placagem às pernas da avançada romena precipitando os seus adversários a perderem a oval no contacto. Ou seja, Mascarenhas é dos jogadores que leva mais à letra a expressão placar até não poder mais, colocando o seu corpo em risco para garantir a bola para Portugal. Dotado de uma inspiradora força na formação ordenada, Nuno Mascarenhas é um trabalhador minucioso no ruck e o tipo de talonador (isto é, o n.º 2 na camisola) que Portugal precisa.

Vasco Ribeiro
Posição: Centro (nº12/13)
Idade: 20 anos
Pontos Fortes: Placagem, leitura defensiva, portador de bola infalível
Clube: AEIS Agronomia
Dados relevantes: Estreou-se no Circuito Mundial de 7’s com 18 anos, numa altura em que já era atleta da equipa sénior de um dos clubes principais em Portugal. Foi considerado pela Federação Portuguesa de Rugby e pelo Fair Play como o melhor jogador da Divisão de Honra.

Vasco Ribeiro é, como José Luís Cabral ou Nuno Mascarenhas, uma força da natureza, com uma capacidade de manietar as equipas adversárias e de impor uma rigorosa e intensa defesa que mete em sentido todos aqueles que se arriscam a entrar no centro. Com um palmarés invejável, é um dos jogadores que melhor carrega a oval, que encontra o espaço e faz a diferença no contacto, algo pouco comum para os portugueses em termos de jogos internacionais.

Manuel Picão Eusébio
Posição: 2ª Linha / Asa
Idade: 20 anos
Clube: A. Académica de Coimbra
Pontos Fortes: Placagem, agressividade na formação ordenada, estratega no ataque
Dados relevantes: Somou a sua primeira internacionalização pelos Lobos em 2017, coroando a exibição com um ensaio, isto aos 19 anos de idade.

É um dos jogadores que tem estado sempre ao serviço da Seleção, tendo passado pelos sub-17, 18 e agora 20 de Portugal. Capacitado de um espírito de sacrifício enorme, uma fome intensa pela posse de bola e um dos melhores atletas no breakdown, Picão tem sido um dos nomes mais fortes da Académica de Coimbra e que está na senda de Gonçalo Uva e outros 2.ªs linhas que marcaram o rugby português.

Estes são apenas de alguns dos vários nomes fortes que irão representar Portugal no Uruguai a partir de dia 29 de Agosto, capitaneados por António Vidinha (um dos capitães mais emblemáticos das seleções nacionais) e João Bernardo Melo.

No Uruguai para ficar na história?

Portugal tem boas possibilidades de fazer história neste Campeonato do Mundo “B”. Porquê?

São cinco os fatores a ter em conta: consolidação de grupo, preparação e organização, confluência de gerações, experiência internacional e conhecimento dos adversários.

Em relação à primeira é preciso ficar a saber que estes jogadores jogam já há bastante tempo juntos, apresentando-se só com mínimas trocas nos últimos três anos. Isto ajuda a construir não só uma equipa, mas um grupo ou, se quisermos, uma “família”, que estará mais ligada e mais predisposta a sacrificar-se. Ter o mesmo grupo rotinado e habituado a jogar junto acaba por abrir outro patamar para esta seleção nacional, muito ao jeito do que aconteceu no futebol com (e pedimos desculpa pela comparação) o FC Barcelona ou a seleção espanhola nos últimos anos.

Isto torna mais fácil a transição para o segundo fator: a preparação e organização. Os quase 40 jogadores convocados para os trabalhos da Seleção Nacional iniciaram a preparação no princípio de Julho, prescindindo de parte das suas férias para treinarem e melhorarem vários aspetos individuais, principalmente na condição física. Portugal está quase sempre atrás das principais seleções (ou mesmo com as secundárias) no que toca ao “tamanho e altura”, algo que nos precipitou para más decisões nos últimos 10 anos, forçando os atletas a ficarem “maiores e fortes” mas menos capazes de fugir ao contacto e menos ágeis na linha de vantagem. Todavia, os jogadores desta seleção de sub-20 mantiveram os seus traços de velocidade e técnica de corrida quase intactos (melhorando-os até), crescendo gradual e sustentadamente a nível físico, o que permite aguentar melhor o contacto (algo que já foi possível verificar nos jogos contra Roménia ou Espanha, por exemplo).

A organização, que não tendo sido primorosa por claras dificuldades financeiras, não deixou de ser boa, potenciou esta combinação de gerações a trabalhar com afinco, tendo terminado com um estágio em Silves, jogando com o Gloucester no campo do Brown’s Vilamoura, algo que auxilia na preparação para o Mundial.

A combinação de gerações tem sido uma das chaves de sucesso, já que o tal grupo unido e que se conhece há vários anos, foi “agraciado” por ter, na sua maioria, jogadores competentes, capazes e com capacidade de evoluir a cada ano que passa. O que queremos dizer é que estas gerações de 1997 e 1998 são quase “únicas” no Universo do rugby português, uma vez que vários dos nomes que compõe os 26 atuam nas equipas principais dos seus clubes, algo que garante uma experiência maior e os obriga a trabalhar de forma mais árdua e intensa. Um exemplo disso, foi a vitória do CDUL no Campeonato Nacional de 2016/2017, conseguida com um ensaio vitorioso de Jorge Abecassis, um dos jogadores mais multifacetados deste elenco.

Ora, a experiência na Divisão de Honra ou Primeira Divisão permite que os jogadores cresçam de uma forma mais veloz, como se fosse um catalisador mais avançado e os que coloca sobre uma pressão mais alta do aquela que sentiriam se estivessem a jogar num escalão de sub-21/20. Para além disso, Portugal tem cerca de oito internacionais seniores nesta seleção de sub-20, o que traz outro arcabouço para dentro do campo. A capacidade de enfrentarem situações de maior pressão é, sem dúvida alguma, maior e mais competente, aguentando-se firmes nos momentos decisivos de um jogo.

Exemplo disso foi o jogo contra a Roménia em Março do ano passado e é fácil de contar a história ao leitor. Portugal defendia uma formação ordenada (ou seja, aquele momento em que oito jogadores de cada lado encaixam-se e disputam o poder da oval) nos seus últimos 5 metros, com os romenos (a equipa da casa) a um ensaio de darem a volta ao resultado. A seleção nacional de sub-20 aguentou por duas vezes o encaixe dos romenos e, num momento de grande confusão, forçou os seus adversários a cometerem um erro que permitiu ao árbitro dar por terminado o encontro e carimbar a ida à final do Europeu que acabariam por ganhar. Os jogadores lusos pareciam irredutíveis, frios e desprovidos de emoção nesses minutos, aguentando 10 minutos de tentativas romenas que deram em nada mais que um avant (quando um jogador que segura a bola deixa-a cair para a frente).

João Peleteiro 2017

Os adversários dos Lobos

A experiência internacional, por sua vez, abre a possibilidade de conhecer os adversários, saber as suas valências e, sobretudo, fraquezas. Portugal vai desafiar as Fiji, Uruguai e Hong Kong na fase-de-grupos, todos eles adversários que já fizeram parte do nosso cardápio de jogos internacionais de formação nos últimos três anos.

Os fijianos são a força absoluta, onde a velocidade estonteante é só ultrapassada pela vontade de desafiar as Leis da Física: a selecção das Fiji gosta de fazer malabarismos e “truques” com a bola nas mãos. Contudo, são indisciplinados, não apresentam uma organização de jogo tão lúcida e, perante momentos de maior pressão e adversidade, tendem a quebrar. Para além disso, o momento atual não é positivo para o rugby fijiano, uma vez que apesar da seleção nacional sénior se ter apurado para o próximo Mundial, o desporto no país apresenta diversas dificuldades económicas.

A equipa da casa, o Uruguai, é uma seleção muito similar à portuguesa, altamente sagaz na defesa e teimosa no contacto… Insistem em carregar a oval até conseguirem “partir” os seus adversários. Com um maul poderoso (é um tipo de jogada em que os jogadores da equipa atacante formam uma espécie de “comboio” com a bola a ser carregada pelo último jogador, ficando a defesa incumbida de pará-los no lugar de forma legal) e uma avançada pesada, os uruguaios costumam criar dificuldades a Portugal. Porém, a falta de criação de novos padrões e estratégias de jogo têm estagnado o rugby dos teros (alcunha para os uruguaios no rugby), o que abre espaço a erros no jogo ao largo e na discussão pela bola no chão (que no rugby se chama de breakdown).

Por fim, Hong Kong. Uma seleção em crescimento, com bons ativos mas ainda bem longe de ser uma seleção difícil, tendo a particularidade de ser uma equipa composta por uma mescla de jogadores de origem chinesa com alguns filhos de antigos militares que vivem nessa região administrativa da China. Rugby duro, mas pouco veloz, que quebra quando precisam de criar soluções, tendo dificuldades no que toca à pressão e intensidade.

Observando todos estes pormenores, detalhes e “estudos”, Portugal tem boas possibilidades de fazer história no Uruguai, bastando para isso que se mantenha fiel ao que já conseguiu fazer, trazendo para jogo as suas capacidades, não inventando “ideias” em cima do jogo e mostrando que há novas preciosidades da modalidade com vontade de superar, se possível, o que fizemos em Maio de 2007, quando conseguimos conquistar a nossa passagem para o Mundial de Rugby desse mesmo ano em França. Coincidentemente, foi no Uruguai que esse feito foi alcançado.

Será que após 10 anos de glorificações, desilusões e aspirações, Portugal voltará a inscrever o seu nome nos pergaminhos da World Rugby (a entidade que gere toda a actividade do rugby no Mundo)?

Os Lobos entram em campo dia 29 frente à equipa da casa (em Montevideo), jogando depois com as Fiji e Hong Kong, nos dias 2 e 6 de Setembro, na cidade de Maldonado.

Fair Play é um projecto digital que se dedica à análise, opinião e acompanhamento de diversas ligas de futebol e de várias modalidades desportivas. Fundado em 1 de Agosto de 2016, o Fair Play é mais que um web site desportivo. É um espaço colaborativo, promotor da discussão em torno da actualidade desportiva.

Francisco Isaac é editor de Rugby para o Fair Play, Rugby World Magazine e Portal do Rugby. Crédito da foto de destaque: João Peleteiro.