"Nas últimas semanas, muitas pessoas têm invocado a Constituição, especialmente nas declarações políticas, nos jornais de Díli e no Facebook, para servir a sua conveniência ou interesses particulares e partidários", afirmou hoje Francisco Guterres Lu-Olo, em Suai, no sul de Timor-Leste.

"Compreendo essas tentativas, mas o Presidente da República não pode proceder da mesma maneira. Quando tomei posse como Chefe de Estado assumi o compromisso de cumprir e fazer cumprir a Constituição e - para cumprir a Constituição - tenho de interpretar os seus artigos ao serviço do interesse nacional, não do interesse de nenhum partido, nem do governo e nem da oposição", afirmou.

Francisco Guterres Lu-Olo falava em Suai, a 171 quilómetros sudoeste de Díli, onde hoje decorreram as comemorações oficiais do 42º aniversário da proclamação da independência de Timor-Leste, uma "conquista de todos os cidadãos do país".

As cerimónias decorreram num momento de grande tensão política em Timor-Leste, depois de a oposição, maioritária no parlamento, ter rejeitado o programa do Governo uma primeira vez e ter apresentado uma moção de censura que deve ser debatida no inicio de dezembro.

Se a moção for aprovada - o mais provável - o Governo cai e Lu-Olo terá de escolher entre uma nova solução governativa no atual cenário parlamentar ou eleições antecipadas.

"É importante que todos, sem exceção, tenhamos contenção e respeito quando invocamos a Constituição, para protegê-la e defendê-la, enquanto guia do Estado e do povo em direção a esse destino coletivo da Pátria", disse Lu-Olo.

"A Constituição, enquanto lei fundamental que nos une, não deve ser invocada com ligeireza, conforme a conveniência particular dos partidos, nem deve ser usada nunca como instrumento de divisão", afirmou ainda.

Num discurso carregado de referências históricas e aos líderes históricos do país, que fizeram a luta pela independência e contra a ocupação indonésia, dentro e fora de Timor-Leste, Lu-Olo disse que os timorenses gozam hoje dos frutos da liberdade.

"Os irmãos e irmãs que em 1975 ousaram levantar-se e levantar alto a dignidade dos timorenses deram voz à esperança do povo pequeno e sofredor desta terra amada. Temos de honrar a esperança do povo - e a vontade dos cidadãos de fazerem um futuro melhor, uma vida melhor - num país melhor", afirmou.

"O Estado tem de atuar com maior equilíbrio e com maior Justiça. Apelo a todos para não desiludirmos a esperança, nem desperdiçarmos a oportunidade do povo, com lutas inúteis que não trazem vantagem ao povo. Apelo à unidade em prol de objetivos comuns, mas com princípios e valores", considerou.

Perante algumas das principais figuras do Estado, líderes religiosos, representantes do corpo diplomático e da sociedade civil timorense, Lu-Olo homenageou os que lutaram, dentro e fora de Timor-Leste, para alcançar a independência, proclamada em 1975 e restaurada em maio de 2002.

"Curvo-me perante a memória dos heróis e mártires de 1975 e de todos os que se sacrificaram, deram a vida ou sofreram nos 24 anos da luta. Curvo-me perante a memória dos muito saudosos Nicolau Lobato, Francisco Xavier do Amaral, Nino Konis Santana e de toda a direção da luta", disse.

"Saúdo a grandeza de caráter e a firmeza de todos os líderes de 1975, incluindo os meus queridos irmãos Mari Alkatiri e José Ramos-Horta, que Deus quis que permanecessem ao nosso lado, ajudando a guiar-nos e a levar o país para a frente", afirmou, relembrando o papel que assumiram, na frente externa, "cumprindo instruções" de Nicolau Lobato e, mais tarde, de Xanana Gusmão.

"Saúdo do fundo do coração o meu irmão Kay Rala Xanana Gusmão, que sucedeu com muito brilho a Nicolau Lobato. Saúdo ainda Ma'Huno Bulerek Karataiano e Nino Konis Santana. E o meu irmão Taur Matan Ruak, que lhe sucedeu no Comando das FALINTIL", disse o chefe de Estado.

ASP // FPA

Lusa/Fim