"A reação australiana à invasão indonésia de Timor Português foi influenciada pelo seu interesse nos campos petrolíferos de Timor Gap. A Austrália tinha um interesse multibilionário em que a Indonésia ocupasse Timor Português", refere o texto.

O livro, "Atravessar a linha - A História secreta da Austrália no Mar de Timor", da académica australiana Kim McGrath indica que "os fortes interesses nos recursos de petróleo e gás do Mar de Timor foram mantidos secretos do público australiano" e dos principais aliados.

"A maioria dos australianos não faz a mínima ideia do que ocorreu. Timor-Leste é um dos nossos vizinhos mais próximos e a conduta do Governo relativamente a Timor tem sido absolutamente vergonhosa", disse McGrath, em entrevista à Lusa.

"Se os australianos soubessem as motivações que levaram à cumplicidade do nosso Governo com a história terrível dos 24 anos de ocupação de Timor-Leste ficariam horrorizados. Por isso, o Governo fez este esforço para tapar a narrativa da questão do petróleo", sustentou.

Segundo a investigadora, nas últimas décadas o Governo australiano "tem estado com mestria a criar uma história alternativa que excluiu ou pelo menos diluiu os interesses australianos nas águas ricas em petróleo do Mar de Timor".

O livro, que se baseia em milhares de documentos oficiais do Governo australiano e de outras fontes, sugere que os australianos têm dados há 50 anos que comprovavam as riquezas petrolíferas e de gás natural na zona entre Timor-Leste e a Austrália, inclusive em zonas que estão do lado que os timorenses - e Portugal e a Indonésia antes deles - reivindicam ser seu.

Só desde 2005, segundo o livro, a Austrália recolheu 1,4 mil milhões de dólares de campos petrolíferos na zona administrada conjuntamente com Timor-Leste, "mais 100% dos benefícios de outras zonas que Timor-Leste reivindica ser suas" e ainda "benefícios de 'downstream' no valor de 25 mil milhões de dólares através da unidade de LNG da ConocoPhillips em Darwin".

Reivindica ainda direitos sobre o campo do Greater Sunrise, cujo futuro - quer no que toca a partilha de recursos, quer na modalidade de exploração (um gasoduto para Darwin ou um para Timor-Leste) - é um dos aspetos que está agora a ser negociado entre Timor-Leste e a Austrália no âmbito de uma comissão de conciliação da ONU.

O livro, editado na Austrália, sugere que em 1963 a administração norte-americana de John F. Kennedy tentou pressionar a Austrália para que, em conjunto, pressionassem o então regime português de Salazar a melhorar as condições de vida dos timorenses e, depois, a permitir que tivesse, 10 anos depois uma oportunidade de autodeterminação.

"Se a Austrália tivesse apoiado a proposta de Kennedy e conseguisse convencer o regime de Salazar que era do interesse de Portugal permitir um voto de autodeterminação, os timorenses teriam votado sob supervisão da ONU em 1973", escreveu McGrath.

"Mas este cenário ameaçava o crescente interesse da Austrália nas potenciais riquezas petrolíferas do Mar de Timor. Politicamente seria mais fácil para a Austrália exercer os seus direitos a 30 milhas da costa de um poder colonial fascista e impopular do que negar esses recursos a um vizinho potencialmente independente, recentemente libertado e desesperadamente pobre", acrescentou.

Daí que, progressivamente, a Austrália tenha vindo a assentar as suas reivindicações na definição das fronteiras ao longo do que considera ser a sua bacia continental, que vai muito mais além da linha mediana entre os dois países defendida por Timor-Leste.

Um esforço que levou Camberra a recusar negociar com Portugal sobre fronteiras marítimas para Timor-Leste - Lisboa já defendia a linha mediana - mesmo quando Portugal quis o diálogo antes de, em janeiro de 1974, conceder uma primeira licença de exploração à norte-americana Oceanic Exploration.

McGrath disse ainda que quando em junho de 1974 a empresa Woodside confirmou a riqueza do campo Greater Sunrise, o Governo deu instruções "para encobrir a descoberta".

Kim McGrath insiste que os documentos mostram que Camberra acreditava que se Timor-Leste fosse integrado na Indonésia, a "Indonésia aceitaria fechar as fronteiras marítimas" dando a Camberra lucros "multibilionários".

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