A denúncia contra Temer pelo crime de corrupção passiva enviada pelo Procurador Geral da República ao Supremo Tribunal Federal será remetida ao presidente da câmara dos deputados, Rodrigo Maia - eventual substituto de Michel Temer caso este perca o mandato. Ambos pertencem ao PMDB.

Ao contrário do que aconteceu com diversos pedidos de abertura de processo de impeachment contra a ex-presidente Dilma Rousseff - quando o então presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha, também do PMDB e preso no âmbito do caso Lava Jato, arquivava os pedidos e usava esse poder como moeda de troca até que teve um desentendimento com o governo, viu a sua vida financeira ser esmiuçada pelo Ministério Público Federal e, após muitas ameaças, deu seguimento a um dos processos que culminaria com a queda de Dilma - não há hipótese de se “engavetar” o pedido contra Temer.

O motivo é simples, trata-se de um procedimento penal e o presidente da casa, Rodrigo Maia, não tem o poder de arquivá-lo. Ao receber deverá encaminhá-lo à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) que dará um parecer sobre a abertura do processo. Quando o processo chega à CCJ, o presidente da Comissão define um dos deputados como relator e dá ao presidente Michel Temer dez sessões para se defender contra a denúncia. Segundo os bastidores do Palácio do Planalto, a defesa será apresentada em apenas três sessões, eles querem celeridade no trâmite. Depois disso o relator terá mais cinco sessões para apresentar o seu parecer.

Isso faz da CCJ a atual "zona de guerra" na batalha de Michel Temer para se manter no poder. E é ali que a sua tropa de choque já instalou os “Canhões de Navarone”, prontos a abater qualquer parlamentar que se mova em direção contrária.

A primeira vítima atingida, sem saber de onde saiu a bala, foi o deputado federal por São Paulo, Major Olímpio, titular da CCJ, que falou ao SAPO 24. Olímpio se posiciona contra o governo Michel Temer, e diz a quem queira ouvi-lo não apoiar “bandidagem”. Esse discurso fez dele um alvo a abater. O seu partido, o Solidariedade (SD), que navega entre o apoio ao governo, pois é da base aliada, e um namorisco com a oposição, dependendo do vento que está a soprar, jogou contra.

Candidato cá, candidato lá

O líder do partido SD na Câmara e suplente de Olímpio na CCJ, o deputado Áureo Lídio, tomou o lugar de Olímpio como titular, deu-lhe um autêntico by-pass. Áureo foi eleito pelo Rio de Janeiro, é aliado do deputado Paulinho da Força, que sempre esteve ao lado de Eduardo Cunha, que, por sua vez, é aliado de Michel Temer e juntos derrubaram o governo anterior. Dizem que Cunha, político do mesmo Estado de Áureo, o Rio de Janeiro, muito ligado ao poder, articula mesmo estando preso.

Áureo, que já teve que receber a visita da polícia federal em sua casa com mandado de busca e apreensão, é um deputado muito ligado à família. Como não conseguiu ir além da primeira volta nas eleições de 2017 para prefeito de sua cidade, Duque de Caxias, apoiou o candidato que saiu vencedor. Sua mãe, sua mulher e sua irmã ganharam cargos importantes naquela administração. Atitude que mostra muito de seu perfil generoso. Major Olímpio também disputou a primeira volta das eleições na sua cidade, São Paulo - a maior do país e onde fez sua carreira militar. Assim como Áureo, não conseguiu seguir para a segunda volta. Olímpio não empregou mãe, irmã nem esposa. Isso também diz algo sobre seu perfil, o que talvez ajude a entender o motivo de ter sido 'tirado de campo' na CCJ.

Olímpio falou com exclusividade, diretamente de Brasília, a capital federal, ao SAPO 24 e declarou a sua profunda decepção com o comando do seu partido – o SD nega ter cedido à manobra engendrada pela 'tropa de choque' presidencial, mas basta ver a data da efetivação da troca para somar dois mais dois. Para Olímpio, o risco da manobra na CCJ sair vitoriosa é grande, “mas no plenário Temer não ganha! O parlamentar que for lá e disser no microfone que Michel Temer não cometeu nenhum crime, vai ser julgado pela população. E as eleições estão aí. Seria tentar fazer a defesa do indefensável. Os parlamentares estarão de olho na voz das ruas, temerosos. O povo brasileiro está a acompanhar a pari passu tudo o que acontece na política nacional. Pergunte o nome dos onze jogadores da seleção brasileira de futebol e ninguém saberá, mas os nomes dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal todo mundo sabe, as barbaridades são acompanhadas diariamente”.

O deputado, que agora tornou-se suplente na CCJ, só poderá votar caso um dos titulares falte à sessão. Soube dessa mudança pela imprensa e isso deixou-o mais furioso ainda: “o corno é sempre o último a saber da traição”, afirmou. A seu ver, o partido, comandado pelo deputado Paulinho da Força, amigo de Cunha e de Temer, não teve consideração para com ele. “Ninguém do meu partido, nestas últimas 48 horas, entrou em contato comigo para explicar a mudança”. Deixar a legenda já é uma opção a ser estudada “não tenho como confiar na legenda. Se o Temer continuar, como eu teria espaço para disputar uma eleição se o partido estará fechado com Temer?”

Para Temer, ganhar a batalha na CCJ é, pelo que explica o deputado Olímpio, mais fácil do que no plenário. “Na CCJ são poucos parlamentares e o poder de fogo dos canhões é grande. No plenário a coisa muda. Lá a tropa de choque de Temer teria que usar muita bala, muitos cargos, muita mala. Mas ainda assim, se passar na Câmara, ainda tem o Supremo Tribunal Federal que não deixará isso passar em branco”. Entretanto, ainda segundo Olímpio, os deputados da base aliada estão a pressionar os dirigentes e líderes dos seus partidos para que desembarquem desse navio que está a fundar. Parece que a batalha será intensa.

"Temos que mudar essa ideia de que uma pessoa é admirada por ser honesta, isso tem que ser premissa."

Na leitura do deputado, a 'tropa de choque' só terá sucesso se não houver uma movimentação intensa da oposição. “Quero vê-los colocar 172 deputados ao microfone a afirmar que Michel Temer não deve ser processado, diante de tantas evidências sobre os crimes praticados”. Será uma verdadeira batalha.

No filme inglês Os Canhões de Navarone, baseado no romance de Alistair MacLean, os nazis posicionam na ilha de Navarone dois canhões gigantescos, controlados por radares modernos, a impedir a passagem dos navios ingleses com dois mil soldados exaustos e indefesos, que corriam o risco de serem exterminados por um ataque programado pela força alemã. A única maneira de evitar a tragédia era uma ação tida como impossível pelos ingleses: destruir os canhões que dominavam o Mar Egeu. Não daria para ir ao corpo a corpo, teria que ser uma ação cirúrgica, estrategicamente pensada.

Para a oposição e grande parte da opinião pública no Brasil, a vida está a imitar a arte. A 'tropa de choque' de Temer com seus canhões em ação, prontos a exterminar qualquer possibilidade de opinião contrária, qualquer voto que se oponha ao plano de permanência no poder. Está a lutar a ferro e fogo para manter o território conquistado. Só que este filme não é ficção, e haverá de acabar em breve, só ainda não sabemos como. As tropas da oposição ainda não mostraram as suas armas. Em Navarone os aliados se deram bem e derrotaram os alemães. Mas era Navarone.

Questionado sobre se acredita que o Brasil é um caso de polícia, Olímpio diz que infelizmente sim. “Quando você liga o rádio logo cedo, fica à espera para saber qual o escândalo criminoso que será divulgado naquele dia. Quando imaginávamos que quem mandava no submundo criminoso da política brasileira era Marcelo Odebrecht, veio o Joesley (Batista, dono da JBS) e ficou parecendo que os crimes da Odebrecht eram pequenos, e não são!"

"Mas qual será o próximo passo quando avançarem as investigações sobre o Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), sobre os Fundos de Pensão, os Ministérios, as Estatais, a Caixa Económica Federal, o Banco do Brasil e os Governos dos Estados?”.

"O campeão de votos [nas eleições de 2018] eu não sei se será o branco ou o nulo. Mas a somatória dos dois será um massacre."

Olímpio cita os crimes praticados por ícones do PSDB de São Paulo: venho denunciando há anos os desvios criminosos nas licitações do Metro de São Paulo, da Companhia de Transportes (CPTM) para os quais pedi CPI a apontar os crimes praticados. O (José) Serra recebeu R$ 5 milhões numa tacada só, o (governador Geraldo) Alckmin diz ‘não fiz nada’. Ele já foi identificado como o ‘santo’ nas planilhas da Odebrecht. Seu cunhado recebeu R$ 11 milhões do dinheiro da propina.”

O senhor vê saída para essa crise de confiança? “Sim, estou esperançoso. Nós estamos hoje com três ex-governadores na cadeia, o ex vice-governador do Distrito Federal, que era chefe do gabinete de Temer está na cadeia. Tantos outros terão o mesmo fim. Pela minha formação militar, aprendi que ladrão não tem posicionamento político. Não interessa se é de direita, esquerda ou centro, ladrão é ladrão e para ele o rigor da lei. Temos que mudar essa ideia de que uma pessoa é admirada por ser honesta, isso tem que ser premissa. Esse nível de impunidade está com os dias contados”.

Sobre as eleições de 2018, o que o tem a dizer? “Eu te afirmo que as eleições do ano quem vão dar uma guinada nisso tudo. O campeão de votos eu não sei se será o branco ou o nulo. Mas a somatória dos dois será um massacre. Brasileiro é obrigado a votar, quem não vota paga multa. Já ouvi eleitor dizer – não o meu, modéstia à parte – que vai pagar multa, mas não vota mais. Isso é triste para a nossa democracia. Eu quero que o voto se fortaleça e que a representatividade cresça em todas as áreas para que o debate gere resultado positivo para a população. A discordância, as ideias diferentes geram novas perspectivas. É preciso que o eleitor compareça às urnas e eleja pessoas em quem realmente confia. Ainda haveremos de ter orgulho do nosso país por ter tido a coragem de desnudar esses crimes e passar nossa política a limpo”.

Major Olímpio. Foi ele quem entrou na cerimónia de posse do Lula, quando Dilma tentou dar-lhe foro privilegiado, e gritou VERGONHA! A audácia valeu-lhe um tapa de uma apoiante da presidente e assessora do PT.