À distancia, e vistos os últimos (largos...) anos, não apetece nada desiludir. Mas também não adianta fingir uma realidade que ganha estacas no chão por onde andamos: a esmagadora maioria daqueles que agora festejam o acesso ao ensino superior serão os mesmos que, daqui a uns anos, engrossam listas. Ou de desempregados, ou de trabalhadores precários, ou pura e simplesmente de pessoas que estudaram para ter uma profissão mas ganham a vida noutra atividade, menos qualificada e pior remunerada.

Aos olhos de muitos leitores, estou a debitar um lugar-comum – mas a primeira vez que me confrontei com esta realidade não era de todo um dado adquirido. Passou-se entre o século XX e o XXI, algures por 1999, e a empresa que dirigia, e de onde editava para o Diário de Notícias o suplemento DNA, precisava com urgência de uma secretária que substituísse a Carmo, que era basicamente o “carro-chefe” de toda aquela mini-estrutura, e estava à beira de ser mãe. A sucessão não era fácil porque, mais do que uma secretária, precisávamos de uma multifacetada produtora que fosse capaz de simultaneamente dialogar com o mais egocêntrico dos fotógrafos ou com o call-center da EPAL, passando pelos colaboradores regulares do suplemento ou os fornecedores de fotografias avulsas (ainda havia disso...).

O anuncio pago no “Público” já indiciava essa ideia, mas na verdade pedia um/a “assistente editorial” para um jornal. Foi publicado um ou dois dias, não mais (era aquele tempo - lembram-se? - em que os jornais vendiam para cima de 50 mil exemplares e tinham tempo de vida diária....). Teve mais de 800 respostas. Currículos de advogados, engenheiros, médicos, professores, jornalistas, foi avassaladora a resposta e assustadora a minha reação. Imaginava pessoas a queimar pestanas, para se tornarem advogados ou engenheiros, confrontarem-se agora com a contingência de aceitarem secretariar um jornal. Havia cartas de gente dos 20 aos 60 anos. Sem querer, era uma imagem do estado do país.

E não foram precisos dez anos para esse retrato se espelhar no Portugal que hoje temos – ou não temos. Com ou sem crise. Com Troika ou com o sorriso otimista de António Costa. Tanto faz.

O nosso “tecido empresarial” – expressão irritante que tanto se usa – não parece sensível a estes 44.914 jovens que acabam de entrar no ensino superior, como sucedeu com as dezenas de milhares dos anos anteriores. Querem estágios gratuitos e mão-de-obra barata. Querem ganhar sem investir, ou pagar dívidas explorando quem podem.

E é olhando esta triste realidade que, envergonhado (porque sou português), assisto à euforia da entrada na faculdade como se de um salvo-conduto para a vida se tratasse – sabendo que, na maioria dos casos, é apenas mais uma forma de adiar o duro “encontro” com a realidade que leva muitos para o estrangeiro, e outros tantos para profissões distantes do sonho deste dia em que chegaram à universidade.

Triste será se, um destes dias, concluirmos factualmente que a Academia é apenas um complemento ao “Gap Year” que entretanto se tornou moda. Ou seja: que as novas gerações, com ferramentas nunca antes sonhadas, e conhecimentos avançados, está condenada a ser como as dos seus bisavôs. Com um pouco mais de desalento.

A ver, a ler, a ouvir...
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