Nova Iorque não dorme. Lisboa não descansa. Lisboa tem muito, Lisboa acontece, Lisboa faz e desenvencilha-se. Pela calçada até ao rio penso nas palavras que aqui vou deixar. Guardo-as como minhas, pelo menos para já.

Desço ruelas, descubro caminhos. Deparo-me com novos rostos, imagino paisagens. O trajeto nunca é igual. Beber uma cerveja no Bairro Alto é estar na diagonal e ter uma ligeira dor nas costas. O passeio é desnivelado e está escorregadio. Tens escoliose? Bebe no Cais do Sodré. Lisboa tem opção. Lisboa é opção. Lisboa está nos tops e tem topos. Onde não há corrimão de metal há quem te avise: “Cuidado, vá devagar” — exclama o merceeiro.

Gosto de ver os turistas a gostar. Adoro ver gente de fora a contemplar. Orgulho-me da simpatia da cidade. Gente boa e recomendável. Do Castelo até à Sé dás atenção à pedra da calçada. Tão nossa. Só nossa. Do miradouro até ao rio vai um longo caminho de pensamentos. E há quem pense e pergunte: “onde se vê um bom pôr-do-sol?”. Caramba, perguntas difíceis. Há tantos. No topo o Sol bate na cara e o gelo bate no copo. “Sunset” é estrangeiro mas Lisboa tem. Lisboa tem tudo. Passa por cá.

Lisboa é tão única porque ouvimos o barulho das sombras, vemos o pormenor da calçada e cheiramos o que vem de casa. As árvores mais altas vigiam-te o largo, tomam conta do que é teu. Do que é nosso. Do que te foi dado, do que tu tens que cuidar. Cada passo que dás é mais um bocado que Lisboa te dá a conhecer. Entras, sais, desvias-te, passas por cima. Lisboa corre mas tu tens tempo. Há tempo para tudo. Precisas dele para os azulejos, para os restaurantes, para todos os cantinhos. Os da cidade e o do Avillez. Lisboa é tasca e é gourmet. Mas espera, hoje a própria tasca pode ser gourmet. Lisboa cruza conceitos. Há espaço para o terraço onde estendes a roupa molhada e espaço para terraço com gente com a roupa já seca e casual-chique.

Há quem pegue na guitarra e comece a farra mas também há quem sossegue e quem se entregue. Trânsito? É uma realidade. Mas e a quantidade de paragens que o nosso cérebro tem e ninguém apita? Aceitemos. Lisboa é mais que isso. Lisboa é elétrica. Lisboa tem elétrico. Lá vai ele. Todos os dias na mesma direção. A caminho do inesperado. O mais antigo da cidade que traz de volta a felicidade longínqua dos passageiros. A chuva também bate nas janelas. O Sol despede-se com um último suspiro tímido por entre as árvores. Para aqui e ali. Sobem uns e descem outros. As crianças gostam de se empoleirar. Ah, o elétrico de Lisboa. Chego a apanhar quem toque e cante lá por dentro. Fado vadio mas vivo e recomendado. Espetáculos em andamento e histórias em movimento. O meu lugar fica por lá, aquecido por outro com histórias diferentes. Desvenda Lisboa antiga e traduz o valor aos novos que chegam. Línguas e costumes misturam-se. Obrigado pela boleia.

O que beber? Onde beber? O que ver e ouvir? Onde estar? Não precisas das revistas nem dos jornais. Há quem te diga, há quem saiba de cor. Não garantimos é que sejam sucintos. Gostamos de falar. Lisboa tem gente. A nossa gente. O empregado que diz “bom dia” enquanto passa o pano por baixo da bandeja; o senhor do Quiosque que já sabe o que fumas e o que lês; o mecânico que te avisa “eiiish oh amigo, isto está complicado”, ou o sapateiro que te pergunta “mas quanto calças?”. Bem-haja, Lisboa castiça, chica-esperta. Bem-haja alfacinha.

Lisboa, cidade onde gostam de tornar coisas grandes em pequenas, pois poderemos sempre comer um arrozinho com um bifinho e uma sopinha. Ou dar uma voltinha pelas lojinhas comprando sempre qualquer coisinha. Não sem antes provar uma ou duas ginjinhas.

Lisboa tem arte e noite. E arte que se cruza com a noite. Lisboa completa-se a si própria. Aquela que caiu também se levantou. Lisboa sobe e desce, como bem mostrou Eugénio de Andrade em “Até Amanhã”, “e degraus e degraus até ao rio…”. Lisboa tem vista para o mundo. Paro agora para descansar no banco de jardim. Puxo do papel para deixar cá as palavras. Têm que ser partilhadas. Porque Lisboa já não é só para nós…

Gonçalo Câmara é locutor e coordenador de programas da Cidade FM. Apresenta o programa da manhã da rádio mais jovem do Grupo Media Capital Rádios. É autor do livro “JÁ DIZIA O OUTRO”; um livro de sátira social da geração mais nova com crónicas soltas. É também autor de vários textos já publicados online. Rádio e Imprensa serão sempre as suas maiores motivações. A sua vida irá mover-se entre palavras. Sejam elas escritas ou faladas.

A Minha Terra é uma rubrica especial do SAPO 24 em que várias pessoas são convidadas a falar da sua terra, "à boleia" das eleições autárquicas do próximo dia 1 de outubro de 2017.