Reparámos que tem um Ad Blocker ativo.

A informação tem valor. Considere apoiar este projeto desligando o seu Ad Blocker.

Pode também apoiar-nos subscrevendo a nossa ou seguindo-nos nas redes sociais Facebook, Instagram e Twitter.

Reparámos que tem um Ad Blocker ativo.

A informação tem valor. Considere apoiar este projeto desligando o seu Ad Blocker.

Pode também apoiar-nos subscrevendo a nossa ou seguindo-nos nas redes sociais Facebook, Instagram e Twitter.

Raramente me dedico a questões da política, menos ainda de politiquice, aquela espuma dos dias que alimenta e destrói egos, enche páginas, não enriquece o conhecimento ou favorece a tomada de decisão. Como em outras áreas da nossa vida, também a política envolve sentimentos, emoções, crenças e paixões, pelo que supõe uma certa altercação em pólos opostos. As pessoas acreditam no que acreditam e eu acredito numa boa discussão de ideias, nas quais as partes dirimem argumentos. Mesmo que nenhum vença, ganha quem estiver a ouvir. Não é o que habitualmente acontece e menos será o que pode acontecer quando a apresentação de um candidato motiva comentários que se baseiam no seu aspecto físico. Piora um pouco quando essa discussão depende de fotografias que não favorecem esse mesmo candidato. Acontece ser mulher. Também acontece no masculino, com as caricaturas nos jornais ou os bonecos do Contra-Informação. Ninguém escapa à caricatura. Mas não somos todos humoristas ou caricaturistas pelo que, brincar com os kiwis de Assunção Cristas é uma piada demasiado fácil, especialmente quando a fotografia que acompanha o comentário é da candidata à Câmara Municipal de Lisboa, Teresa Leal Coelho, com um vestido às bolas (não às bolinhas) vermelhas. Fácil. Demasiado fácil.

Pensemos ao contrário: o que esperavam estas candidatas ao fazerem escolhas objectivamente arrojadas e não consensuais? Nada. Não esperavam nada. Esperavam ser notadas?...

Sabemos que esta será a abordagem óbvia para combater uma imagem conservadora. Talvez por isso, a opinião pública tenha reparado em cada uma delas pelas piores razões. Porque essa mesma opinião pública parece não conseguir entender a diferença na associação que se faz entre um vestido e a competência de quem o veste, relacionando directamente essa capacidade à roupa que o indivíduo escolhe usar. Errado.

A política é o contexto da seriedade, sobriedade e da imagem de confiança. É seguramente mais difícil confiar em bolas ou kiwis e estas senhoras — ou as suas consultoras de imagem — deveriam sabê-lo. Contudo, a questão não é simples ou unânime. O comentário fácil atinge mais as mulheres e são também elas quem mais arrisca.

O eco em torno dos sapatos de Teresa May não tem equivalente masculino, independentemente do número de fatos, sapatos ou gravatas que um líder de Estado possa ter. Para um político, e para nós que o avaliamos, a questão da roupa não é um tema — não pode ser — mas continua a sê-lo para as mulheres, mesmo quando a solução é assumir uma certa invisibilidade, do ponto de vista da imagem pessoal, como faz Angela Merkel. Também isso é motivo de comentário, novamente negativo.

Em Amesterdão, por exemplo, a ideia de individualidade, liberdade pessoal e aceitação é aparentemente maior do que entre nós. Contudo, acabei de saber que os problemas são iguais. Ao longo da minha vida profissional andei sempre entre contextos diferentes e dei por mim a mudar de roupa em função das diferentes situações em que me encontrava, muitas vezes para tornar o meu aspecto mais formal. Supostamente mais profissional. E descobri que a percepção aqui é a mesma: precisamos de um par de saltos altos porque assim se espera, de um casaco formal porque qualquer outra opção não é bem vista. Acabamos por vestir algo que rapidamente pode ser transformado num look formal e que, ainda mais rapidamente, volta a ser aquilo com que nos sentimos "nós". E confortáveis. Ela, que me contou isto, vai ser operada aos pés, resultado de 30 anos a usar saltos. É isto que queremos para nós? Não é. Queremos sentirmos-nos bem, ser reconhecidas pelas competências profissionais e não por aquilo que a nossa roupa pode transmitir. Aplica-se a eles, também, reféns da gravata e das cores monocromáticas.

Não se espera da política uma relação directa com estrelas de cinema ou televisão e se uma figura masculina pode ser tão ou mais popular do que qualquer pop star, a associação não se cria através de poses em revistas. A eles, raramente acontecem coisas (fotografias) destas porque não abandonam o conforto do azul e dos cinzas, dando cor à sua imagem com gravatas lisas em diversas tonalidades. Boring, after all. 

Do que li sobre o tema há seguramente temas mais relevantes para a discussão do que as pernas que se destacam na fotografia ou um vestido protagonista. Aconteceu a ambas e a culpa não é das pernas, apenas uma opção (intenção) de quem fotografou e outra de quem publicou. Falar da roupa de um candidato ou candidata é equivalente à altura de alguns dos protagonistas da política nacional - muito baixa -  e equivale a zero para a nossa informação.

Paula Cordeiro é, entre outras actividades consideradas (mais) sérias, autora do Urbanista, um híbrido digital que é também uma aplicação para smartphones. Baseado em episódios diários, o Urbanista é um projecto para restaurar a auto-confiança perdida e denunciar o preconceito social. Na verdade, os vários preconceitos sociais (raça, género, orientação sexual e outros difíceis de catalogar), embrulhados num estilo de vida saudável, urbano e divertido.