Já não percebo estes miúdos das cidades pequenas que malbaratam a síndrome da histeria das cidades pequenas. Eu cresci numa cidade pequena, e soube reagir de forma condigna (excitação, boca escancarada, respiração suspensa) todas as vezes que ouvi o nome do meu recôndito município ser mencionado na televisão. Normalmente eram notícias de incêndios, às vezes sobre uma rampa onde passava o rally, e ocasionalmente servíamos de referência a rábulas do Herman José – de forma aleatória e caricatural – enquanto cidade concorrente aos Jogos Sem Fronteiras (coisa que, lamentavelmente, nunca aconteceu, ou eu teria reagido com as condignas boca escancarada e respiração suspensa). Até hoje, sempre que escuto o nome da minha terra natal sinto que não me abandonou o reflexo condicionado; tem salivação insuficiente para ser pavloviano, mas faz-me levantar as orelhas como qualquer cão eslavo.

Não evito sentir o mesmo por Portugal. É como outra cidade pequena. Outro sítio recôndito por quem não contenho milissegundos de excitação; basta falarem de nós lá nas grandes cidades. Então porque é que andamos tão pacatos agora que um italo-americano conceituado fez um filme em torno de personagens portuguesas? Não é que eu estivesse à espera duma multidão na Alameda a receber o Scorsese com cânticos e bandeiras nacionais, mas a verdade é que o filme em questão foi assumido pelo cineasta como o seu projecto mais desejado em 30 anos. Onde é que anda a nossa euforia com isto? Noticiou-se muito, publicitou-se razoavelmente, debate-se e analisa-se o filme até mais do que o habitual; mas onde é que anda essa grande euforia dos pequeninos? Não anda, e ainda bem.

Andrew Garfield é o actor principal de “Silêncio” no papel do Padre Rodrigues, nome tão português que até à Amália pertenceu. Não deixa de ser curioso (curiosidade de cidade pequena) que o filme pretenda ser falado em inglês de Portugal. A acção passa-se no séc. XVII, quando o idioma luso era uma língua franca, neste caso por intermédio do comércio mas ainda mais pela marca dos missionários portugueses. “Silêncio” é um filme americano que repete o que os filmes americanos fazem praticamente desde a invenção do cinema sonoro: apropria-se de histórias passadas em línguas estrangeiras e reconta-as em inglês. Numa estratégia celebrada na série “‘Allo ‘Allo!” (embora sem o propósito cómico) o inglês de “Silêncio” é falado com sotaque da língua que pretende simular, e há por isso um arrastar latino na anglofonia dos actores que interpretam portugueses. Andrew Garfield, cuja pronúncia natural é britânica, interpreta um guião em inglês-americano com suposta prolação portuguesa. Confusos? E, por coincidência, na primeira vez que reparei em Garfield (no filme “A Rede Social” de 2010), estava o mesmo actor britânico a interpretar um brasileiro com sotaque americano. A língua de Camões e de Machado de Assis em gloriosa falta de comparência. Ninguém vai à Alameda festejar.

Vou deixar-me levar pelas coincidentes repetições na carreira de Andrew Garfield. Dois filmes em 2016, e em ambos interpreta uma pessoa ultra-religiosa posta em ambientes adversos à sua religiosidade. Tanto em “Hacksaw Ridge” como neste “Silêncio”, os personagens de Garfield levam o espírito de sacrifício ao extremo; em ambas as fitas são invadidos pela dúvida, em ambas procuram quebrar o silêncio de Deus. A prática como cumprimento da Fé, e a prática para o cumprimento da Fé são duas ténues diferenças entre o Garfield do filme de Mel Gibson e o Garfield do filme de Scorsese – embora sendo ambos os realizadores católicos, não evitam as subtilezas e cisões centenárias entre o cristianismo protestante do personagem Desmond Doss do “Hacksaw Ridge”, e o cristianismo romano do padre jesuíta Rodrigues de “Silêncio”. Nos dois patenteia-se a imitação de Cristo: no soldado esta surge como uma inevitabilidade prática da sua Fé; no padre surge como uma reprodução mais literal, sacrificial e transubstancial. Nos dois, o silêncio é encarado com impaciência necessária, como prova de fogo para a humilhação. Com grande humildade virá grande poder, e com grande poder vem grande responsabilidade – não esquecemos que antes de apresentar-se como Desmond Doss e Sebastião Rodrigues, Garfield foi Peter Parker, o Fantástico Homem-Aranha. Isto de ser uma pessoa especial a querer consertar um mundo adverso é tão característico à carreira de Garfield como a sua propensão para o português não falado. 

Voltemos a Scorsese. Não li o livro que inspirou a sua última longa-metragem, mas li meia dúzia de críticas a “Silêncio” antes de ir vê-la. Uma reduzia o filme a qualquer coisa como “The Revenant, mas com falta de acção”, o que por despeito me fez imediatamente gostar de “Silêncio”. “The Revenant” é uma obra típica de Iñarritu: sem grande empenho em ter propósito, mas com empenho tremendo em aparentar um propósito elevado qualquer; belíssimos slideshows e elaborados números de circo onde a acção é tudo. Se “Silêncio” não era nada disto, então a probabilidade de ser cinema era muito grande.

Martin Scorsese caiu no patamar desses dignos cineastas que não têm filmes verdadeiramente maus. E digo “caiu” de propósito, porque já se esperou muito mais de Scorsese do que ser só um desses cineastas dignos: sem grandes fracassos mas ao qual começam a escassear triunfos. Odeiem-me mais um bocadinho (não há espécie mais odiada do que os pseudo-críticos de cinema que ofendem gostos comuns) pois sou da opinião que Marty não tem um único grande filme nos últimos 20 anos – a primeira metade de “Gangues de Nova Iorque” e o feliz remake “Entre Inimigos” (mais fiel a um cânone scorseseano do que ao material original) serão excepções à minha sentença. É um realizador inteligentíssimo, cinéfilo insuperável, e nome inquestionável na história do cinema, mas a regularidade com que fazia grandes obras e filmes inovadores parece ter dado lugar a uma autofagia que o limita a filmes bonzinhos e insuperações. De tanto se alimentar dos próprios pés, perdeu a antiga mobilidade com que galgava degraus de pódios.

“Silêncio” podia configurar-se como a redenção de Marty, não só por ser um projecto de muita vontade, mas ainda mais por ser vontade acumulada desde um período em que Scorsese estava em forma. Quase me conquistou só por parecer uma variação de “A Desaparecida” - o western do John Ford que, semana sim, semana não, considero o maior filme de sempre. Mas é também por intermédio de Ford, e de uma imensa nuvem de heróis do cinema, que pressenti outro deslize de Scorsese. Deslize espiritual.

Ao mesmo tempo que a religião se foi tornando proscrita na cultura ocidental, no cinema ela tornou-se o elemento mais enriquecedor – seja no subtexto, na citação, na simbologia, na libertação ou na restrição. Ford, Dreyer, Bergman, Bresson, ou o próprio Scorsese para encerrar uma lista imensa de vultos, são indissociáveis da religiosidade inerente aos seus filmes. Não se trata (quase nunca) de proselitismo, antes do uso de recursos que, estilística, narrativa, referência, visual e espiritualmente podem ser insuperáveis. Onde Martin me pareceu agora falhar foi ao apostar no trunfo mais fraco: já fora bem sucedido a enriquecer os filmes com espiritualidade, usando elementos cinematográficos para aludir implicitamente à sua religiosidade; em “Silêncio” parece ficar-se pela abundância de símbolos religiosos explícitos para aludir ao seu cinema. Ao fazê-lo tão alarvemente, retira reflexão genuína à espiritualidade, e filma como quem se recicla, não se renova. Outra falha - também ela com religiosidade e cinema a não se compensarem - está no excesso de competência de Scorsese. “Silêncio” é um filme extraordinariamente bem filmado, superiormente desprovido de música, mas que tenta conciliar na estética aquilo que é inconciliável no espírito da história. Procura amalgamar a emotividade religiosa dos mestres ocidentais com o ascetismo de realizadores japoneses, exactamente num contexto em que esse universo é inconciliável, em que tal casamento se diz estéril. Marty é um escravo da cinefilia, até da que remete para si próprio, e não soube escapar à batedeira quando se exigia centrifugador. Não soube calar-se, mesmo quando fez silêncio.

Scorsese não é um Dreyer. Andrew Garfield não é um falante de português. “Silêncio” não é um Livro de Job. Portugal não é uma cidade pequena. Então porque é que eu continuo de orelhas levantadas?

SÍTIOS CERTOS, LUGARES CERTOS E O RESTO 

A primeira adaptação cinematográfica do livro “Silêncio” de Shusaku Endo é japonesa e data de 1971. Já aqui (e mais inexplicavelmente) o português era inglês.

O pedaço da História luso-nipónica que inspirou Shusaku Endo a escrever “Silêncio”, é também o pedaço que inspirou o filme “Os Olhos da Ásia” de João Mário Grilo. Mas o romance do japonês serviu igualmente de base para muito do filme português. É ir conferir ao Nimas no dia 6.