Não foi a primeira vez que a Escola de São Gonçalo em Torres Vedras, uma escola pública que possui um Clube de Robótica, participou no RoboCup, o maior evento competitivo de robótica a nível mundial. A primeira participação conta já com 10 anos, foi em 2007, e já foram várias as vezes que se sagraram campeões mundiais em diversas modalidades. Este ano, foram 13 os jovens que se dirigiram ao Japão.

O Clube de Robótica do Agrupamento de Escolas de São Gonçalo conta com cerca de 50 alunos, sete professores e uma psicóloga, que acompanham os alunos na representação do clube, tanto em Portugal, como no estrangeiro. E não se pense que isto ocupa tempo de aulas. É o tempo de cada um que está em jogo, para que levem o nome da escola e do clube aos tops da robótica. E, podia dizer o ditado, quem faz robôs por gosto não cansa.

Este ano, a São Gonçalo levou a representação de Portugal ao evento com três equipas, nas modalidades de On Stage, com alunos entre os 11 aos 14 anos, Soccer Lightweight League [Futebol robótico], também dos 11 aos 14 anos, e Rescue Line [Busca e Salvamento], com participantes entre os 11 e os 19 anos. E foram campeões mundiais nas três modalidades.

Antes de regressarem a Portugal, a 3 de agosto, os alunos portugueses que se sagraram campeões mundiais da robótica falaram com o SAPO 24.

Robôs que funcionam autonomamente em situações de catástrofe

Duarte Silva é o participante mais velho da equipa do Agrupamento de Escolas de São Gonçalo. Com 19 anos, é a última vez que participa na categoria de Rescue Line, por ter atingido o limite de idade. É o capitão da equipa STORM, constituída por cinco elementos, e, este ano, o campeonato foi uma dupla celebração: além de trazer um prémio para casa, fez anos no último dia da final.

Quanto à prova que superaram, esta simula a existência de uma catástrofe. "O robô tem de passar por uma pista acidentada, posteriormente descobrir uma sala de evacuação onde tem de recolher as vítimas e colocá-las a salvo numa plataforma. A pista é constituída por uma linha preta com vários obstáculos, intersecções, espaços sem linha e lombas, para dificultar a tarefa do robô de encontrar o local onde estão as vítimas. O objetivo da prova é, então, descobrir a sala de evacuação, com o menor número de erros possível, ultrapassar os diferentes obstáculos e, por fim, recolher as vítimas, colocando-as a salvo, ganhando pontos em cada um destes passos. Tudo isto tem de ser feito autonomamente, na medida em que apenas podemos ligar um interruptor no início da prova e o robô tem de ser autónomo a fazer a pista, ultrapassando todos obstáculos e salvando todas as vítimas", explica Duarte.

Duarte, que começou no Clube em 2011, participou pela primeira vez em campeonatos do mundo no final desse ano letivo, em 2012. Mas como é que chegou até aos robôs? "Sou uma pessoa muito competitiva e a ideia de lutar por um troféu sempre me entusiasmou bastante. Para além disso, decidi para mim mesmo que era a área da programação que queria para o meu futuro, e por isso a robótica era uma grande oportunidade para desenvolver essa vertente", diz.

Ir ao Japão foi, para o aluno, uma experiência enriquecedora. "É uma cultura completamente diferente da nossa, e conviver e aprender com isso é sempre bom para a nossa vida e para o nosso futuro. Para além disso, vim ao Japão focado naquilo que era mais importante para mim… ser campeão mundial. E o facto de ter conseguido esse meu objetivo faz desta experiência uma das melhores da minha vida, sem dúvida!".

Num campeonato desta magnitude, há sempre coisas que marcam. Duarte não hesita quando confrontado com a questão. "Sem dúvida o momento em que me apercebi que nos tínhamos sagrado campeões do mundo. Sensação ainda mais emotiva, por ter acontecido no último segundo da última prova, precisamente no meu dia de anos. Inesquecível!", refere.

E se os robôs souberem jogar à bola e entreter pessoas?

José Melícias é o capitão da equipa AESG3 de Soccer Lightweight League. O aluno de 13 anos, que transitou agora para o 8º ano de escolaridade e conta já com três participações em mundiais - China, Alemanha e Japão - chegou ao clube de robótica em 2015, tendo sido sempre fascinado pela robótica.

Numa equipa constituída por três elementos, cada um tem uma função específica. José é o responsável pelo hardware, Gonçalo pelo software e Francisco é responsável pela estratégia do jogo. A prova parece simples: "consiste num jogo entre duas equipas, cada uma com dois robôs - um atacante e um guarda-redes, e o objetivo do jogo é marcar golos na baliza da outra equipa".

Na sua terceira participação num mundial, José continua a sentir o mesmo entusiasmo de sempre. "Gostei muito desta competição porque é muito emocionante pôr os nossos robôs a competir contra os das outras equipas e ver quais é que funcionam melhor. Também gostei da experiência de ser capitão de equipa e tomar as decisões relativas à mesma", explica.

Contudo, há uma coisa que não vai mesmo esquecer. "O momento mais marcante foi a entrega de prémios porque foi aí que soube a classificação que tinha obtido", refere.

Se estes robôs futebolistas captam facilmente o olhar, o que dizer da modalidade On Stage. David Antunes é o capitão da equipa Smart Robot, tem 14 anos e, como José, também é a sua terceira participação no RoboCup. Com ele tem Rafael, de 12 anos, e Eleonor, de 11. Na prova, o desafio é "uma apresentação em palco sobre um projeto com uma componente robótica, criativa e de entretenimento".

David chegou ao Clube há quatro anos, por "culpa" do irmão. "Ele já andava na Robótica e gostei muito de ver as suas provas", refere.

E nem só de robôs se fez o Japão. Conhecer a cultura japonesa é sempre uma mais valia para os jovens que, apesar de tudo, não escondem o entusiasmo pelo que os levou ao país. "Aprendemos muito [no campeonato]. Tivemos oportunidade de conhecer outras formas de trabalhar, de construir e programar robôs para enfrentar os diferentes desafios".

Tal como a José, o final do campeonato foi o que mais marcou David. O final de uma prova é, também, o reconhecer de um esforço de equipa, ao longo de todo o ano. Equipa essa que é acompanhada por professores que dão o seu tempo para levar longe os "miúdos dos robôs".

O Ministério da Educação, em nota à imprensa, saudou "o trabalho desenvolvido pelos professores, coordenados por Jaime Rei, e pelos alunos, no desenvolvimento do interesse dos jovens pela Ciência e Tecnologia, com destaque para as áreas da computação, eletrónica e mecânica, promovendo assim a interação entre as áreas disciplinares da física, matemática, informática, mecânica, línguas estrangeiras, entre outras". É também realçada a importância da iniciativa para a promoção do espírito crítico e da criatividade dos envolvidos.

Jaime Rei é professor no Agrupamento de escolas São Gonçalo desde 2004, tendo o Clube de Robótica surgido em 2007, e falou também com o SAPO 24 sobre este projeto.

"É uma realização pessoal poder contribuir para a formação dos alunos a nível científico e tecnológico, proporcionando atividades que estimulem a curiosidade e o gosto em investigar e saber fazer. Mais do que os resultados, que apenas são consequência do trabalho desenvolvido, considero essencial o interesse, a autonomia, o trabalho colaborativo, o raciocínio lógico-abstrato, a resolução de problemas e a criatividade desenvolvidos neste projeto, competências essenciais para o seu futuro", refere o professor.

Mas esta não é uma tarefa fácil. "A falta de tempo, de recurso físicos e materiais" são as maiores dificuldades. "Embora tenhamos o apoio da Câmara Municipal de Torres Vedras, sentimos também algumas dificuldades financeiras para as deslocações a campeonatos e/ou outros eventos, sendo, na maior parte das vezes, os próprios encarregados de educação a suportar as despesas". Contudo, o que importa é não desistir para que o Clube de Robótica continue a dar cartas pelo mundo. E que bem se têm comportado estes campeões.