Uma terça-feira, num dia normal, seria uma noite descansada para o tapete cor-de-rosa da rua Nova de Carvalho, no Cais do Sodré. Mas um dia de Web Summit não é um dia normal em Lisboa. Há sempre coisas a acontecer, mesmo fora do Parque das Nações. O ecossistema está fervilhar e a noite não é mais calma. Muito menos para um empreendedor que tem na Night Summit a oportunidade de fazer contatos, trocar impressões ou até fechar negócios num ambiente informal.

O SAPO 24 chegou ao Cais do Sodré pouco depois das 21h00 de terça-feira acompanhado de dois jovens empreendedores: Francisco Coutinho, de 21 anos, e Bárbara Barbosa, de 18. Para eles o dia era de felicidade e merecia ser comemorado, tinham lançado a sua aplicação 24 horas antes e o dia no stand da Web Summit tinha sido um sucesso. Em um dia a WikiNight, uma aplicação que agrega informação sobre os melhores ‘spots’ para se sair à noite na cidade de Lisboa e conjuga as saídas com descontos, conseguiu mais de 100 utilizadores e 15 parcerias com bares e discotecas da capital.

créditos: MadreMedia/DR

Chegávamos juntos e aguardávamos um grupo de pessoas que tinha passado pela banca deles e que ficou fã do conceito e aceitou embarcar numa saída guiada.

Ele, que já deixou os estudos, depois de ter feito um curso na área da Multimédia, e que já tem a sua própria empresa, uma agência de publicidade, e ela, que estuda economia, sentiram que faltava uma plataforma que agregasse toda a informação sobre a vida noturna. Estava tudo muito disperso, dizem. “Isto está a ser desenvolvido há 5 anos. Quando finalmente definimos o conceito um business angel [dos Estados Unidos] investiu em nós quando éramos só uma ideia”, conta-nos Francisco. O valor? “O suficiente para fazer a app”, diz-nos Bárbara.

Passado algum tempo o grupo começa a formar-se, ainda que incompleto. Sem grandes rodeios, Estefania Delgado, da FlatFit App, diz-nos que passou pelo stand da WikiNight, gostou da ideia e decidiu ir ao final do dia ir beber um copo com eles.

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Mas se o conceito de ir beber um copo e falar de modelos de negócio, de públicos, de falhas e elogios pode parecer natural a uns, para outros é a primeira vez, como é o caso de Christopher Kelly, CEO da AdYoYo, que também se juntou ao grupo. “Estou a gostar muito. É a primeira vez que estou num registo destes e é incrível o número de amigos que eu já conheci, são pessoas com quem posso fazer networking durante muito tempo”, observou.

“Na Dinamarca só conseguimos falar uns com os outros quando estamos bêbedos”

Por cá, o conceito em que se baseia a Night Summit pode não ser comum, mas no norte da Europa Yonas Alizadeh e Raziel Benitez garantem-nos que não é assim. Encontramos os dois membros da Hellow, uma startup que desenvolveu uma aplicação onde podemos encontrar pessoas em nosso redor e convidá-las para alguma atividade de lazer, como ir dar uma corrida, jogar à bola ou simplesmente beber um café, entre bares à procura de uma bebida. “Na Dinamarca só conseguimos falar uns com os outros quando estamos bêbedos. É por isso que nos sentimos confortáveis com álcool nas nossas mãos”, diz-nos Yonas, de mãos vazias.

Raziel não podia concordar mais, é como se estivesse a “jogar em casa”. “Isto é um excelente conceito, porque na Dinamarca fazemos muito isto. É muito informal porque tu queres conhecer uma pessoa antes de trabalhar com ela. Para nós é como estar em casa”. A única diferença é que se estivéssemos lá estariam todos a tremer de frio", confessa-nos entre sorrisos.

É tudo sobre networking

Mas nem só os empreendedores saem à rua nesta Night Summit. Yevhen Doloshytskyy é voluntário pela primeira vez na cimeira, mas esta não é a sua primeira noite deste evento.

“O ano passado era sempre no Bairro Alto. Estive lá todos os dias. Não era voluntário, simplesmente fui lá conhecer malta, conheci dois fundadores de uma micro-empresa norte-americana que fazia satélites para a NASA. Conhecer esta malta é incrível. A malta da Microsoft e da Google, ter a oportunidade de falar com eles…”, conta-nos.

Foi também à procura de contatos, de reforçar o seu networking, que Doloshytskyy se voluntariou para auxiliar na Web Summit. Confessa que recebe mais cartões de empresas do que faz contatos, mas isso não o desmotiva. “É a teoria do 1 em 100. Algum há de resultar”, diz confiante.

“Mas o ano passado não colecionei assim tantos [cartões] porque estava um pouco tímido nessa parte. Agora, a parte do voluntariado e de te colocares à vontade, é atirares-te para os tubarões”, sublinha.

Cerveja ou vinho, eis a questão

Vilija Buteniene é CEO da Huedash, uma empresa que detém uma plataforma de compra e venda de roupa baseada em selfies da Lituânia, ainda que sediada em Londres. Buteniene vem acompanhada pela Product Manager da empresa, Igne Butene que, entre a conversa, nos diz que a sua colega de trabalho e amiga é uma assumida fã de cerveja. “Já experimentou quase 200 cervejas diferentes só este ano”, diz-nos. A pergunta ecoou do nosso lado: “Quantas?”.

“190 para ser precisa”, diz-nos Vilija, enquanto consulta numa aplicação o seu registo de 2017. A cerveja portuguesa entrou agora para a longa lista, mas não encaixa a 100% nos seus requisitos. “É boa, mas é muito leve. Gosto dela mais forte”, confessa-nos a lituanesa.

Mas se há quem procure cerveja, há quem reclame por vinho. “Falta aqui um bocadinho um vinho do Porto, ou um vinho mesmo, mas percebo que a cerveja seja mais universal”, diz-nos Yevhen.
Raziel Benitez não podia concordar mais, ainda por cima num país com a tradição vínicola portuguesa. “Um amigo meu até me pediu para lhe levar uma garrada de vinho verde português. Agora aqui à noite vou ter de me ficar pelos cocktails”.

O seu colega da Hellow estava mais conformado. “Eu provei uma Sagres e é boa e barata”, disse Yonas.

Um robô que nos separa

Quando o grupo finalmente se juntou aos dois jovens empreendedores da WikiNight seguimos para o primeiro, por defeito, da lista de bares disponíveis na aplicação: o The Couch na rua do Alecrim. “Eles vão gostar. É um sítio novo e sem a confusão da rua cor-de-rosa”, diz-nos Bárbara.

Passando a ponte sobre a rua Nova de Carvalho o cor-de-rosa parece um mito, dada a quantidade de gente que ali se juntou e que lotou o espaço numa noite de terça-feira.

Chegados ao destino, copos foram pedidos e servidos, e a conversa ficou no registo de sempre de uma Night Summit. Mas o SAPO 24 depressa saiu do 'sofá' aliciado pelo convite de entrar num bar com uma convidada muito especial: Sophia. Sim, o robô.

créditos: MadreMedia/DR

Na rua de São Paulo, ainda no Cais do Sodré, entrámos no Stupido onde decorria uma festa promovida pela Web Summit. No centro do bar, as atenções não se desviavam da atração principal: Sophia, num modo de descanso, em que já não trocava palavras com ninguém, mas sorria e rodava a cabeça para as fotografias e selfies que se iam sucedendo.

As pessoas, curiosas com o primeiro robô no mundo a obter cidadania, faziam fila para o retrato e para falar com a banca da empresa que a desenvolveu, a SingularityNET. Nós perguntamos se era possível beber um copo com a Sophia, mas ficámos a saber que os robôs ainda não bebem cerveja.