Na passada terça-feira, na primeira semifinal do Festival Eurovisão da Canção, o mundo inteiro colocou os olhos em Salvador Sobral. Muito por culpa de “Amar Pelos Dois”, canção que praticamente deixou de ser da irmã, Luísa, para passar a ser sua - e nossa. Mas não só. Olharam-no porque se intrigaram – e continuam a intrigar – com este jovem português, com a sua voz e os seus maneirismos, com a sua rápida ascensão para um patamar de real fama. Fama essa em que Sobral se envolveu de um momento para o outro, ele que no início deste mesmo ano com ela não sonhava.

Viajemos no calendário - e não é preciso voltar muito atrás, como à edição dos Ídolos onde o ouvimos pela primeira vez. Em fevereiro deste ano, a notícia de que a RTP havia convidado 16 compositores contemporâneos para criar canções propositadamente para o Festival da Canção, e por conseguinte para a Eurovisão, foi recebida com algum agrado. A “modernidade” poderia, eventualmente, dar um novo fôlego a um festival que muitos viam como balofo, mais preocupado em debitar fórmulas pop que em enfatizar, de forma real, esse lado de “canção”. Nomes como Rita Redshoes, Samuel Úria ou noiserv arriscaram, mas a vitória caberia a Luísa Sobral e ao irmão, Salvador, que na grande final obteve o maior número de pontos por parte do júri e ficou em segundo no televoto nacional, totalizando 22 pontos.

Ainda assim, a escolha nunca pareceu ser consensual. Muito se disse, muito se comentou. A discussão em torno do conceito de canção 'festivaleira' ou 'eurovisiva' dominou os dias que se seguiram, primeiro na semifinal e depois na grande final do Festival da Canção. Nuno Markl, um dos membros do júri do Festival deste ano, causou alguma polémica ao afirmar que «Kiev [cidade que este ano acolhe a Eurovisão] é a modos que secundária desde que mais pessoas tenham ficado a conhecer o tremendo talento do Salvador Sobral». A publicação, na sua conta do Facebook, dias depois de Salvador passar à final do Festival da Canção, valeu-lhe uma enxurrada de críticas nas redes sociais, por alegado favorecimento de um concorrente em relação aos demais.

Mas tudo mudou assim que sopraram os ventos vindos de fora. Rapidamente, Salvador Sobral foi apontado pelas principais casas de apostas europeias, e por muito do público afeto à Eurovisão, como um sério candidato à vitória final. À data, Portugal é o país mais pesquisado no Google entre todos os países participantes no festival, e passou para 1.º lugar nas apostas.

A Salvadormania não tardou a apoderar-se do público português, sob a égide da velha máxima de Fernando Pessoa: «primeiro estranha-se, depois entranha-se». Aquele jovem aparentemente desajeitado, de cantar manso e olhar vago, tornou-se numa das grandes figuras pop do Portugal do séc. XXI. Jornais “de fora”, como o The Sun  ("a voz de um anjo") ou o El País ("um milagre"), teceram-lhe louvores. Por cá, as aparições mediáticas foram crescendo exponencialmente.

Nada que parecesse afetar, verdadeiramente, Salvador. Em entrevista ao SAPO 24, o próprio garantiu não pensar sequer na vitória no concurso. O objetivo, dizia, era «levar a canção e passar uma mensagem bonita». Foi o que fez, na passada terça-feira. No pensamento de muitos ficou o momento em que a audiência presente em Kiev ergue bem alto os seus telemóveis, em silêncio, hipnotizada pela magia de “Amar Pelos Dois”. Tão hipnotizada quanto o próprio intérprete.

A voz de "Amar pelos Dois" encanta e "canta como se toda a música dependesse dele”, roubando as palavras a Miguel Esteves Cardoso, que lhe dedicou, no final do mês de março, a sua crónica semanal para o jornal Público. Em português. Na primeira semifinal da Eurovisão, num grupo de 18 canções, com exceção da sua, todas eram em inglês. E foi na língua de Camões que agradeceu, no final da sua atuação. Um "muito obrigada" que mal se fez ouvir entre palmas, numa das maiores ovações da noite.

Depois de ver garantida a sua passagem, Salvador afirmou, pela primeira vez, à RTP, que gostaria de vencer a Eurovisão. «Agora estou com vontade de ver até onde isto vai», disse. Estamos todos.

A grande final acontece este sábado e, sete anos depois, Portugal está lá. Tendo lugar no Centro Internacional de Exposições de Kiev, será disputada por representantes de 26 países. Bulgária, Bielorrússia, Croácia, Hungria, Dinamarca, Israel, Roménia, Noruega, Holanda, Áustria, Moldávia, Azerbeijão, Grécia, Suécia, Polónia, Arménia, Austrália, Chipre, Bélgica, os ‘Cinco Grandes’ (França, Alemanha, Itália, Espanha e Reino Unido) e o país anfitrião (Ucrânia) vão ser os adversários de Portugal. "Amar pelos Dois" ouvir-se-á na primeira parte da cerimónia.

Pode acompanhar a cerimónia através da emissão da RTP, em direto, a partir das 20h00, com comentários de Nuno Galopim e José Carlos Malato.

Este ano assinala-se a 62.ª edição do concurso, no qual Portugal participou a primeira vez em 1964, tendo entretanto falhado cinco edições (em 1970, 2000, 2002, 2013 e 2016). A melhor classificação portuguesa num Festival da Eurovisão foi obtida por Lúcia Moniz, em 1996, com a música “O meu coração não tem cor”, tendo esta sido também a última vez que Portugal ocupou um lugar no top 10.

Recorde a atuação de Salvador Sobral na semi-final da Eurovisão: