É descrito como um “atlas” ou um “grande tratado” sobre a depressão. O escritor e ensaísta norte-americano Andrew Solomon luta há anos contra a depressão crónica. Saído de um episódio depressivo dramático, lançou-se numa investigação sobre a depressão, da medicina à filosofia, da psicologia à arte. Dela nasceu o livro “O Demónio da Depressão” (2001), um fenómeno de vendas agora editado em Portugal pela Quetzal.

“O Demónio da Depressão” já foi editado em vários países, agora em Portugal. Como vê o livro e a depressão hoje, 15 anos depois do lançamento da edição original?

No ano passado, escrevi um epílogo ao livro que o actualiza. Descreve todos os desenvolvimentos neste campo nos últimos 15 anos. O livro está muito actualizado. Estou muito contente pelo facto de ser editado aqui [em Portugal]. Os factos básicos – o que é a depressão, quais são os seus sinais – não mudaram muito. Nada mudou muito desde que foi descrita por Hipócrates há 2.500 anos. A qualidade de tratamento melhorou um pouco, mas não graças ao desenvolvimento de medicação miraculosa - o que mudou, principalmente, foi a consciência desta condição, a importância de a tratar e a noção de quantas pessoas afecta. Parece-me, por isso, que o livro se tornou mais urgente com a passagem do tempo.

O que descobri nas cartas que recebo desde que o livro foi editado – e recebo dezenas de milhares de cartas todos os anos – é que há um número enorme de pessoas que estão em depressão e não têm um vocabulário para a descrever. Quando estava no ponto mais agudo da depressão também não tinha um vocabulário porque parte de estar deprimido é estar paralisado e silencioso. Com o tempo, encontrei um vocabulário para falar sobre isto. E como estive sempre a gerir a minha depressão mas relativamente bem durante algum tempo, decidi ultrapassar a minha ideia inicial de que era impossível, de que não havia palavras para narrar isto.

Viajou para países como o Cambodja, para testemunhar como lidam as vítimas do regime do Khmer Vermelho; para a Gronelândia, onde viu o isolamento extremo dos Inuit; para o Senegal, onde se fazem rituais para expulsar a depressão.

Parte do objectivo do livro era desmontar a ideia da depressão enquanto doença moderna da classe média ocidental. Quis mostrar que a depressão tem uma existência reconhecível há milhares de anos, que existe não apenas nas sociedades ocidentais, mas em todas as sociedades, no Cambodja, no Senegal, na Gronelândia. É mais frequentemente diagnosticada nas pessoas mais favorecidas, mas é muito subdiagnosticada e comum em povos com menos capacidades materiais.

No Senegal tratam como se fosse algo externo ao corpo. É algo que faz parte de nós ou é algo que desenvolvemos?

A questão sobre se é interna ou externa é muito complicada porque é, na verdade, as duas coisas. Há uma parte da depressão que é como uma doença invasora – desenvolves esta coisa que pode ser tratada medicamente; e, por outro lado, é algo que anda dentro da maioria das pessoas. A depressão resulta essencialmente de uma vulnerabilidade genética ou biológica e de circunstâncias externas que a espoletam.

Gostamos do modelo bacteriano da doença: esta pessoa tem pneumonia e aquela não tem; esta pessoa é seropositiva, aquela não. É impossível dizer: estas pessoas têm depressão, aquelas não. Podemos apenas dizer: nestas pessoas a depressão é tão aguda que parecem necessitar de tratamento e naquelas pessoas parece mais gerível, por isso não necessitam de tratamento. É muito difícil de lidar com essa imprecisão – estás doente ou não estás doente?.

Pessoas que tiveram sentimentos depressivos suaves às vezes presumem o que pessoas com depressões mais severas podem ou devem fazer. “Fiquei muito deprimido depois de perder o meu emprego, mas lidei com isso, trabalhei noutras coisas, tu também deves conseguir fazê-lo”. É fácil não perceber o quão devastadora é a experiência da depressão, o quão isolante e profunda é - e sei-o porque, por vezes, é difícil para mim, apesar de eu próprio ter tido uma depressão tão grave e ter escrito e falado sobre ela. Quando ela volta fico surpreendido outra vez. Não é que sinta que é muito esforço fazer o que o que devia fazer: eu não posso mesmo fazê-lo. E isso é ridículo, consegui-o fazer na semana passada. Quando tens de facto depressão esse sentimento e realidade de paralisia é muito mais poderoso do que alguém que nunca passou por isso possa imaginar.

Muitos dizem que os pobres não têm tempo para se deprimir. No seu livro mostra que isto é um mito absurdo. Os governos estão a fazer o suficiente? Evoluiu-se desde a sua investigação?

Sim, acho que há muito maior consciência da dimensão do problema. Há números: 25% das pessoas em Portugal têm depressão. Quando se sabe disto, pensas: “OK, sinto-me muito sozinho, mas pelos vistos não estou tão sozinho assim”. E os tratamentos estão muito mais disponíveis.

Muitas pessoas sabem destas estatísticas, mas ainda assim gastam muita energia a tentar manter a sua depressão um grande segredo - como se alguém ficasse chocado com a notícia (a maior parte das vezes as pessoas dizem “Claro, já tinha percebido há muito” e em muitos casos "Eu também tive"). A ideia de culpa e responsabilidade… quem quer saber disso? Todos falhamos e desenvolvemos problemas médicos por causa dos nossos falhanços; todos temos forças e evitamos outros problemas por causa das nossas forças. Esta questão de responsabilidade é uma distracção da questão real. Sinto que há imensa depressão e que o estigma reduziu-se um pouco – não tanto como devia.

Tem alertado também para os perigos do isolamento nas sociedades modernas. As redes sociais dão-nos a ilusão de amizade, de amor?

Há uma instituição de solidariedade dedicada aos problemas de saúde mental, nos Estados Unidos, que colocou num anúncio uma foto de um adolescente sentado em frente a um computador e a frase "Cinco mil amigos do Facebook e ninguém com quem falar". Penso que a intimidade que existe ao falar com alguém pessoalmente é diferente da intimidade que existe ao comunicar com alguém através de um ecrã.

Houve um estudo recente com crianças de liceu que confessaram ter receio de que quando chegassem à universidade teriam de falar mais pessoalmente com as pessoas e menos através de um ecrã. Essa decadência da interacção humana genuína é uma tragédia inacreditável.

Define a depressão como a imperfeição no amor. Mas ela acontece a pessoas que amam e são amadas, como foi o seu caso.

Uma das qualidades essenciais que os seres humanos têm é um espectro de humor. A capacidade de se sentir alegre, zangado, esperançoso, ansioso. A experiência do amor requer uma grande quantidade de emoções negativas ou dolorosas de modo a ser verdadeira. Se tu amas a tua mulher e dizes "Bem, se ela morrer encontrarei outra mulher” não será amor como o conhecemos. O amor contém esta antecipação da perda, esse medo dos sentimentos negativos que virão da devastação de uma relação que falha ou de um amor que muda.

Antes de nos sentarmos, vi que tinha uma mensagem do meu pai no telefone. Ele tem 88 anos, estou sempre preocupado por que é que ligou a uma hora estranha (vou ver o que se passa no fim desta entrevista). Isso é parte do que o amor é. A depressão clínica grave representa uma disfunção desse espectro de humor.

Quando falo de depressão como a falha no amor, o que quero dizer é que o amor é a coisa que todos queremos, é a coisa mais profunda, importante e alegre, mas ao estarmos disponíveis para o amor também nos disponibilizamos para uma grande dose de dor.

E sem amor não é possível sair de uma depressão?

A depressão é frequentemente um problema de não sentir nada e, porém, ao mesmo tempo está ligada aos sentimentos mais intensos que podemos ter. O amor é uma parte muito importante do tratamento de depressão. Quando analiso pessoas deprimidas que tiveram melhorias, um dos padrões que detecto é que são, regra geral, as pessoas que têm amor nas suas vidas. Sabem que há algo, uma vida do outro lado, quando saírem da depressão. Enquanto as pessoas que não são amadas, têm mais dificuldade em saber qual é o objectivo de sair da depressão. O amor não vai fazer a depressão ir-se embora, mas vai dar mais energia para tentar lutar contra ela.

A perda de qualquer sentimento, essa sensação de nulidade e de vazio, a noção de que perdeste, não a felicidade, mas a vitalidade, definem muito a depressão grave. Por vezes, saber que há amor pode ser um sustento e levar as pessoas a pensar: "Não sinto amor agora, mas sei que ele existe, tenho que continuar a tentar.”

No livro refere a importância de haver uma pessoa por perto. Se não for no quarto do doente, que seja no quarto ao lado.

Sim. Como a depressão é uma doença de solidão (sentes-te tão sozinho quando estás deprimido…), quando estás de facto sozinho não há nenhuma barreira entre ti e o completo desespero. Já se tiveres alguém que te está a prestar muita atenção, por vezes é cansativo, irritante (só queres estar sozinho porque sentes que não te consegues relacionar com ninguém), mas a realidade é que quanto mais isolado estás mais a depressão aumenta.

O que diria às pessoas que têm pessoas de quem gostam profundamente deprimidas é: não desapareça. É quando toda a gente desaparece que a depressão escala e escala até um ponto de ruptura.

Diz que a depressão faz parte de si, é indissociável de quem é hoje. Passou por ela e investigou profundamente sobre ela. Chegou a brincar com a situação classificando-se como um “depressivo profissional”. O que o move? Por que razão não foge de uma matéria que lhe causou tanta dor?

Acredito essencialmente que o conhecimento é poder. As pessoas que passaram por depressão fecham-se - sentem que foi horrível e não querem voltar a pensar nisso. Como toda a gente que sofre de depressão, não é improvável que haja um novo episódio de depressão. E quando isso acontecer vão ter um medo completo porque destrói a história que construíram para eles próprios: “Lidei com a depressão e venci-a". Penso que as pessoas têm mais resiliência quando dizem: “Odiei passar por isto, não quero que volte a acontecer, mas é parte da história de quem eu sou e preciso de compreender o mais possível”. Isso dar-me-á a resiliência, não para evitar uma nova depressão, mas para ser capaz de dizer "Isto é parte da minha vida, ultrapassei no passado, vou ultrapassar de novo. Ainda sou eu mesmo, eu mesmo com depressão, é parte do que sou."

Sinto que pensar nisto tornou a depressão menos assustadora. Tive um episódio depressivo ligeiro no Verão - agora, com os tratamentos que faço, não tenho os episódios graves que são o centro deste livro - e foi muito desagradável. Mas pensei: "Oh, sim, isto outra vez, sei o que é isto", enquanto na primeira vez em que aconteceu pensei: “Estou a dissolver-me, não sou eu próprio! O me que que está acontecer? Não consigo viver assim.”

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