É uma personagem incontornável da história da humanidade. Mas foi por outro nome de mulher, “Aparecida”, que a pesquisa de Rodrigo Alvarez começou. Dedicou três anos de estudo a uma santa adorada no Brasil, dando origem a um primeiro livro, em 2014. Foi essa pesquisa que o conduziu a uma investigação sobre Maria, com a intenção de dedicar alguns capítulos a esta personagem bíblica. Não podia estar mais enganado.

“Ao fazer a pesquisa percebi que três ou quatro capítulos seria muito pouco, até quase desrespeitoso para com o nome de Maria, falar da história dela em tão pouco tempo”, explicou em entrevista ao SAPO 24. Com material suficiente para construir um novo livro, “foi como se tirasse uma costela de Aparecida para fazer o Maria”.

E o que nos espera ao longo de 31 capítulos são 31 histórias que nos fazem embarcar numa viagem à vida daquela que é “a” personagem feminina mais importante da igreja católica. “Eu escolhi os momentos que eu entendi como chave na vida de Maria. E quando estamos a falar de biografia, eu entendo-a como um sentido amplo. Como Maria é uma personagem da humanidade, a biografia não se restringe apenas aos anos em que ela viveu: faz-se durante a sua vida e depois da sua vida porque a história continua a ser construída depois”, disse o autor.

O facto de viver em Jerusalém não só aguçou a curiosidade do escritor como “me deu uma posição privilegiada para poder escrever. Porque para além de fazer a pesquisa, eu estava a ver e a entender, a entender a geografia. Também faz parte da história”.

Ums história que também tem amor, traição, polémica

Como personagem envolta em mistério, nesta biografia não faltam os ingredientes de um bom romance: amor, traição, polémica. Sim, Maria também está envolvida em polémicas e isso transparece na construção do mosaico, por vezes contraditório, que resultou neste livro. Mas a principal intenção de Rodrigo Alvarez não foi incendiar dogmas, mas sim escrever de forma clara e objetiva, condições essenciais para quem faz do jornalismo o seu dia a dia.

Capa do LIvro Maria, de Rodrigo ALvarez“Eu não quero vender uma verdade”, justificou, até porque, como jornalista, Rodrigo quis tratar os factos como eles são: com as dúvidas que foram existindo ao longo dos séculos a par dos elementos que chegaram aos dias de hoje, uma vez que neste caso, não há verdades absolutas. “Eu dou no livro elementos para cada um chegar à sua verdade”, acrescentou, até porque “eu diria que há muita gente que tenta comprovar teses. E nesse campo é muito complicado, hoje, dois mil anos depois”.

Não sendo fácil escrever sobre um tema que não deixa ninguém indiferente, acima de tudo Rodrigo Alvarez quis respeitar a fé e ressalva que todo o livro foi escrito com respeito. “Isso é a chave para não cair em problemas”. A aceitação do livro foi tal que houve elementos da igreja católica brasileira a recomendar o livro. O sucesso no Brasil fala por si: há mais de sete meses que Maria – A biografia da mulher que deu à luz Cristo, dividindo a História em antes e depois está na lista dos livros mais vendidos no país.

O livro chegou agora a Portugal pela mão da Porto Editora. Dividido em 31 capítulos, agrupados em três momentos – "A vida de Maria", "Theotokos, a mãe de Deus" e "Maria do Mundo" – conta aquilo que é possível saber-se sobre a história de Maria ao longo do tempo. Sabe, por exemplo, que os pais de Maria se chamavam Ana e Joaquim? Na verdade, não se sabe. Mas é o que é geralmente aceite.

Se os Evangelhos são o nosso ponto de referência de muitas destas histórias, os mesmos “deixaram lacunas muito grandes que os primeiros cristãos correram para preencher e perceberam inclusive que não era só com Jesus que havia devoção quando começou a haver lentamente uma devoção a Maria. Então essas lacunas só foram preenchidas ao longo dos séculos”.

Para Rodrigo é simples perceber porquê: “Naquele momento (Maria) não era ainda considerada mãe de Deus. Os primeiros cristãos ainda estavam muito ocupados em provar a crença deles de que Jesus era o Messias. E o papel da mãe na construção da ideia de Messias não era relevante”.

Maria no mundo

Se a mãe de Jesus foi ganhando importância e influência ao longo dos séculos, sendo o culto mariano de grande peso em todo o mundo, também em Portugal há uma história com a “Nossa Senhora”. Fátima é hoje um importante local de culto, e um dos mencionados no livro a par de Lourdes, Guadalupe ou Aparecida.

“É incrível como Fátima tem uma relação com o Brasil, hoje. Eu sou brasileiro e cresci a ouvir falar de Fátima. É uma aparição muito contemporânea nossa, muito recente”, explicou Rodrigo Alvarez, acrescentando que “no Brasil a devoção a Fátima é muito grande. Então antes de vir a Portugal eu já tenho contacto com a devoção a Fátima. Várias pessoas, depois deste livro no Brasil me disseram: ‘escreve um livro inteiro sobre Fátima. Temos curiosidade, assim como Aparecida, sobre Fátima’”.

Fátima foi mais um elemento que ajudou a compreender a importância que a figura de Maria tem no mundo. “Eu acho muito curioso como, havendo ou não comunicação direta entre os povos, a devoção a Maria é estrondosa, é fortíssima. E isso só se explica porque a força de Maria como personagem histórica, como mulher, como símbolo, é universal”, acrescentou.

As histórias da mãe de Jesus

Maria era virgem. Esta é a primeira informação que nos é dada sobre esta mulher. Mas manteve-se virgem até ao fim dos seus dias?

Sabia que há escritos que envolvem Maria num suposto adultério? E que há apenas seis falas de Maria em toda a Bíblia? Levantando um bocadinho o véu, são estes alguns dos temas que fazem parte de Maria.

“Não estou preocupado em chocar e não estou preocupado em não chocar porque eu acho que se há um acontecimento e ele é relevante precisa de ser mencionado no livro. Se eu tenho a pretensão de contar o que houve de importante sobre Maria eu preciso dizer. E também as dúvidas que existiram também”, defendeu Rodrigo Alvarez, acrescentando que “entendo a biografia de Maria como algo que continua a ser vivido”.

O autor explicou ainda que “um dos grandes motivos para eu ter escrito o livro é pensar que a devoção é tão grande e a ignorância sobre o tema também que faz falta que se estude e se diga o que é, porque as pessoas vão querer conhecer”.

“Eu terminei o livro com uma convicção maior do tamanho de Maria na nossa história. A importância que ela tem, mesmo para quem não é cristão, mesmo para um judeu, um muçulmano, um ateu, é impossível ignorar a sua existência. Ela está em tudo o que se fala sobre mulher e sobre ser mãe, ela é símbolo do que é ser mãe”, concluiu.

Newsletter

As notí­cias não escolhem hora, mas o seu tempo é precioso. O SAPO 24 leva ao seu email a informação que realmente importa comentada pelos nossos cronistas.

Notificações

Porque as noticias não escolhem hora e o seu tempo é precioso.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.