Antes de todas as intervenções no ilb, sozinho ou partilhando palco com outros escritores, Luiz Ruffato ergueu, de pé, uma bandeira vermelha com a frase “Lula Livre” a letras brancas. Assumiu à Lusa que vai continuar a fazê-lo até o antigo presidente do Brasil “ser libertado.”

“Não é que eu ache ou deixe de achar que o Lula teve alguma participação no golpe. Não sei se teve. Penso que não, mas não tenho a certeza porque ele não foi julgado. Quando eu levanto a minha bandeira é porque quero questionar a eleição de Bolsonaro e a prisão do Lula”, revelou em entrevista.

“Faço uma separação muito grande entre a minha produção literária e a minha intervenção intelectual. Não que os meus livros não sejam políticos, são totalmente políticos, mas acho que não têm essa função de combate, mas sim de reflexão. É oferecer uma reflexão ao leitor a partir da visão de um homem. O meu papel intelectual é este que me trouxe cá”, acrescentou.

Luiz Ruffato editou, em setembro do ano passado, no Brasil, o livro “O Verão Tardio”, o seu sexto romance, que propõe uma reflexão sobre uma sociedade em que as classes sociais romperam o diálogo.

“A busca do diálogo é sempre importante, ele é fundamental para qualquer sociedade, o problema é quando estás disponível para dialogar, mas ninguém está disposto a dialogar contigo. Curiosamente ‘O Verão Tardio’, que foi escrito antes desta polarização no Brasil, acaba por tratar precisamente isso, a absoluta falta de diálogo entre as classes sociais, a absoluta falta de um ‘norte’ comum”, relatou o escritor brasileiro, acrescentando que o país atravessa “uma situação muito complicada”, encontrando-se “num beco sem saída”.

Ruffato confessa-se triste com o facto de a sociedade brasileira rejeitar a forma do governo Bolsonaro, mas não o seu conteúdo.

“É muito claro pela votação no Bolsonaro. Apesar do discurso dele homofóbico, sexista, racista, classista, as pessoas votaram nele. É uma opção muito clara. Segundo porque, recentemente, saiu uma pesquisa que mostrava o aumento da rejeição do Bolsonaro (…), mas logo a seguir saiu outra dizendo que Sérgio Moro tem uma grande aprovação da sociedade brasileira”, explicou.

Ainda assim, o autor de “Eles Eram Muitos Cavalos” (Quadrante Edições, 2006), “Estive em Lisboa e Lembrei-me de Ti” (Quetzal Edições, 2010) e “De Mim já Nem se Lembra” (Tinta-da-China, 2012), tenta sempre intervir com humor.

“Quando estamos numa situação que não tem graça, o humor também é uma forma de tentar romper esses espaços de opressão e repressão. São como suspiros, porque a situação é muito complicada. Pessoalmente não vejo saída porque o Bolsonaro foi eleito, ainda que eu questione a forma em como ele foi eleito, e vai cumprir os quatro anos de mandato. E, se não cumprir, quem assume o poder é o vice-presidente, que é um general, e que pensa exatamente da mesma maneira que ele”, assumiu.

Luiz Ruffato já está a preparar o próximo livro, “uma discussão sobre a inviabilidade do Brasil como nação”.

O escritor estará na feira do livro de Frankfurt, em outubro, mas antes vai passar alguns dias a Portugal, onde vive um dos filhos.

“Tenho uma paixão por Portugal, por vários motivos. Pela comida, pela bebida, pelas pessoas. É uma maneira de eu me refazer, porque o mercado português é muito superior ao brasileiro na oferta de títulos, por incrível que pareça. Sempre vou e tenho problemas com a bagagem com a quantidade de livros que compro”, admitiu, entre risos.

“Conheço sítios que muitos portugueses desconhecem, por exemplo, Piódão. Há sempre gente que fica admirada por eu ir a sítios desses. Agora quero conhecer o Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira”, contou.

A 19.ª edição do Festival Internacional de Literatura de Berlim (ilb) termina este sábado, dia 21 de setembro.

*Por Joana Sousa Dias/Lusa

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