“Os doentes estão muito assustados”, já tinham com que se preocupar e agora têm mais este receio, disse à agência Lusa o diretor do Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN), Luís Costa.

O oncologista contou que a última doente que tinha observado “começou a chorar porque estava com medo da covid-19″.

“A senhora tem uma doença grave em estado avançado, que precisa de apoio, precisa de ajuda, e acho que tem muito mais probabilidades de vir a morrer de cancro do que morrer por covid”, lamentou Luís Costa.

Este medo também é transmitido pelos doentes infetados pelo novo coronavírus (SARS-Cov-2) quando são internados no Santa Maria, que além de ter um atendimento específico para estes casos, mantêm as outras atividades assistenciais, mas reduzidas aos doentes oncológicos, às urgências e às cirurgias inadiáveis.

“A maioria dos doentes que recebemos vêm em pânico, com níveis de ansiedade elevadíssimos, porque só o próprio nome covid-19 os deixa completamento em pânico porque associam logo a infeção grave, a morte”, disse à agência Lusa Ana Filipa, enfermeira do Serviço de Medicina II.

Quando são internados, os doentes expressam “ansiedade e medo”, uma preocupação que aumenta quando lhes são explicadas as normas a que vão estar sujeitos, como “estarem confinados a um quarto” e não poderem nem ir à casa de banho, contou.

Para aliviar a carga emocional dos doentes, o centro hospitalar conseguiu angariar ‘tablets’ para fazer videochamadas com a família, o que os põe em contacto com o mundo exterior e faz com que não se sintam tão isolados.

Esta preocupação é extensível aos familiares que todos os dias ligam para o hospital porque que não podem ver o doente durante todo o internamento e receiam não se poder despedir caso este não sobreviva, “o que é muito difícil também para o luto”, contou a enfermeira Ana Filipa.

Mas esta carga emocional também é vivida por quem lida diariamente com estes doentes, como contou a assistente operacional Paula Silva, que teve de mudar todas as rotinas no hospital desde a pandemia, começando pelo fardamento e equipamento que tem de mudar sempre que entra nos quartos e passa “a linha vermelha” traçada no chão que divide o espaço do serviço.

Esse processo exige tal disciplina que em cada parede do serviço está pendurada uma folha A4 com os 10 procedimentos que têm de ser seguido para a “remoção do ‘kit’ de cuidados básicos”.

“O desafio é ter de estar constantemente a mudar de roupa” e permanecer no quarto enquanto o doente toma o pequeno-almoço e faz a sua higiene”, contou Paula Silva.

A agravar esta situação está a saudade que os profissionais sentem da família. “Tenho duas filhas e como o meu marido também está a trabalhar tenho de as manter em casa dos avós, porque embora tenhamos todos os cuidados, temos receio, porque não sabemos se podemos ser portadores de alguma coisa”, lamentou.

“Eu temo por mim, mas também pelos meus pais”, disse, por seu turno, Ana Filipa, acrecentando que, apesar de cumprir todas as indicações em termos de controlo de infeção, “é um descanso não estar na mesma casa que eles, que são um grupo de risco”.

Esta situação é também complicada de gerir para a médica internista Marisa Teixeira da Silva: “Passamos neste momento mais tempo no hospital do que em casa e a maior parte está separada ou isolada dos familiares de maior risco e alguns dos filhos”.

“É muito complicado gerir isso tudo, eles estão com receio por nós e nós também vamos sempre um bocadinho angustiados por pensar que é mais um, dois, três ou quatro dias que vamos ficar sem os ver e sem os poder abraçar, principalmente os filhos (…) alguns ainda muito pequeninos que não compreendem porque é que não os abraçamos”, lamentou a médica.

Para Marisa Teixeira da Silva, os portugueses “têm de ajudar” nesta missão, ficando em casa, para que “ela termine e corra tudo bem para todos”.

“Estas medidas são essenciais ou não conseguimos controlar [a doença] como temos estado a fazer até agora”, dando uma resposta adequada a todos os casos.

Este apelo também é feito pelo oncologista Luís Costa: “As pessoas têm que ser responsáveis, tem que ficar em casa e evitar contagiar outras pessoas” para que se possa “resolver isto de uma vez por todas”.

Dois serviços do Santa Maria transferidos para o Pulido Valente

Os hospitais de dia de Imunoalergologia e de Reumatologia do Santa Maria vão ser transferidos para o Pulido Valente para que os doentes do serviço de Hematologia possam ter “um distanciamento ainda maior” enquanto aguardam pelo tratamento ou consulta.

“Sendo o Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte [CHULN], nomeadamente o Hospital Santa Maria, um centro de covid-19”, as “partes não covid-19” estão a fazer algumas alterações para uma maior segurança dos doentes, disse à agência Lusa a enfermeira Ortélia Dias, gestora do centro ambulatório do Hospital de Dia.

Uma dessas alterações passa por transferir os serviços de Imunoalergologia e de Reumatologia para o Pulido Valente, o hospital “não covid-19” do CHULN, para criar “um espaço ainda maior” para os “imensos doentes” que continuam a deslocar-se todos os dias ao Hospital de Dia de Hematologia, porque “não podem prescindir de fazer o seu ciclo de quimioterapia”.

A medida visa que os doentes tenham o distanciamento necessário enquanto esperam na sala pelo tratamento para prevenir um eventual contágio pelo novo coronavírus (SARS-Cov-2).

Outro “passo importante” foi a realização de uma zaragatoa de despiste à covid-19 antes de o doente iniciar o tratamento de quimioterapia.

“Todas as medidas estão a ser tomadas, fazendo os possíveis e os impossíveis, porque também temos muita gente em casa, e estamos a trabalhar muito rápido para que tudo seja feito com toda a segurança e prevenção para os doentes”, frisou a enfermeira.

Situado no piso um do Santa Maria, o Hospital de Dia de Hematologia, que recebe cerca de 1.300 novos doentes por ano, é dos poucos serviços onde ainda se observam doentes a aguardar pacientemente pela consulta no corredor ou na sala de espera.

Todos usam máscaras e alguns também luvas como forma de proteção contra a covid-19, o nome da doença causada pelo novo coronavírus que obrigou os hospitais e reorganizarem-se para reduzir ao máximo a presença dos doentes nas suas unidades.

“Tentámos reduzir ao máximo o número de consultas, todos os tratamentos que não tivessem necessidade de serem efetuados, que no nosso caso são poucos, porque a maioria dos nossos doentes são crónicos ou oncológicos que necessitam de determinadas terapêuticas para viver”, disse Ortélia Dias.

No caso dos hospitais de dia, houve apenas uma redução global da atividade de “25 a 30%”.

No Serviço de Endocrinologia vive-se uma realidade diferente. As consultas presenciais deram lugar às teleconsultas para evitar que os doentes sejam expostos “desnecessariamente a eventuais infeções”, disse à Lusa a diretora do serviço, Maria João Bugalho.

“Tivemos que nos adaptar à nova realidade”, disse a endocrinologista, contando que os médicos telefonam agora aos doentes para assegurar que “está tudo bem”, que “têm receitas e continuam a cumprir regularmente a medicação”.

No contexto atual “é fácil que os doentes releguem para segundo plano a sua doença”, disse, destacando o caso da diabetes.

Os doentes às vezes reconhecem que não estão a fazer o que os médicos propõem porque os medicamentos acabaram ou porque estão com receio de perder o emprego ou estão a trabalhar em casa com os filhos.

“Têm de adaptar-se a uma série de coisas de novo e relegam a sua situação para um segundo plano”, lamentou a diretora do serviço, que antes da pandemia realizava cerca de 3.000 consultas por mês.

O papel dos médicos é sensibilizá-los para “a necessidade, agora maior do que noutra altura, de fazerem autovigilância e tomarem regularmente a medicação”, para evitar a infeção, uma vez que são uma população de maior risco se a doença estiver descontrolada.

Por outro lado, os doentes não de devem sentir “inseguros, nem desprotegidos”, porque os médicos continuam no hospital e há circuitos diferenciados para dar condições de segurança.

“A sala de espera do centro de ambulatório está praticamente vazia, os tempos de espera são muito curtos para evitar a permanência naquele espaço e, portanto, em caso de absoluta necessidade, eles poderão procurar-nos”, apontou.

Em Portugal, segundo o balanço de quarta-feira da Direção-Geral da Saúde, registaram-se 380 mortes, mais 35 do que na véspera (+10,1%), e 13.141 casos de infeções confirmadas, o que representa um aumento de 699 em relação a terça-feira (+5,6%).

O país, onde os primeiros casos confirmados foram registados no dia 02 de março, encontra-se em estado de emergência desde as 00:00 de 19 de março e até ao final do dia 17 de abril, depois do prolongamento aprovado na quinta-feira na Assembleia da República.

 * Helena Neves (texto), Mário Cruz (fotos) e Franque Silva (vídeo), da Agência Lusa

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