"Em Portugal, temos um problema gravíssimo: não há listagens [de peças de arte vindas das antigas colónias] nem em relação aos museus, nem aos arquivos. Muitos destes objetos estão nas reservas, nem sequer estão expostos. Podem ser 10 mil, 50 mil ou 80 mil. Os próprios diretores dos museus não sabem", afirmou o ex-curador da Fundação Gulbenkian, em declarações à agência Lusa, defendendo que esta deverá ser "uma tarefa prioritária" dos próximos governos.

O investigador, ex-curador da Culturgest, esteve hoje na delegação da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, onde falou sobre a problemática da descolonização dos museus, coincidindo com o dia em que foram parcialmente conhecidas as conclusões do relatório, pedido pelo Presidente de França, Emmanuel Macron, sobre a restituição de coleções de arte africana existentes em França.

O relatório, pedido à historiadora de arte francesa Bénédicte Savoy, do Collège de France, e ao economista senegalês Felwine Sarr, autor do livro "Afrotopia", defende a devolução generalizada tanto das obras trazidas, como as provenientes de missões científicas ou doações das administrações coloniais, adiantou o jornal Le Figaro.

Para António Pinto Ribeiro, a devolução das peças é urgente, mas deve ser feita de forma ordenada.

"As peças devem ser reclamadas pelos Estados, não pessoas particulares. Há que ver os critérios da legitimidade de como as obras chegaram à Europa. É preciso analisar se uma determinada peça faz parte do património essencial de um país ou de uma tribo. E há ainda a questão dos arquivos coloniais. Devem ser dados os originais ou cópias digitalizadas?", questionou o investigador português.

Pinto Ribeiro explicou por que considera que "ou os museus são pós-colonialistas ou não existem", mostrando o que entende serem bons e maus exemplos, das práticas de como os museus em todo o mundo lidam com o seu passado colonial.

O museu etnológico francês Quai Branly, conhecido pela sua grande coleção de peças provenientes de África, Ásia e Américas, foi considerado pelo português como "anestesiante" e representante da relação da França com "um certo colonialismo".

Já o novo Museu Africano, que abrirá portas em Bruxelas no dia 09 de dezembro, foi apontado como um "bom exemplo", pois "contará a sua história como museu colonial". Este museu belga foi anteriormente conhecido como o Museu Real do Congo e a nova exposição vai contextualizar os seus objetos.

Questionado sobre a intenção do presidente da Câmara de Lisboa de pretender criar um Museu das Descobertas, António Pinto Ribeiro considerou esta pretensão de Fernando Medina como "um lapso".

"Eu sou um dos grandes opositores a esse museu, que nasceu de um lapso e que não se vai fazer. Não há dinheiro, não há peças e, o mais importante para mim, é preciso demonstrar que houve, efetivamente, objetos das Descobertas. É preciso saber o que resta do outro lado", disse o académico, que dirigiu o programa de cultura contemporânea "Próximo Futuro", para a Gulbenkian, de 2009 a 2015.

Esta conferência na delegação da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris faz parte do ciclo "Atlas des mots e des images des dé-colonisations", coordenado por Maria Benedita Basto e Teresa Castro.

Na quarta-feira, o especialista português em colonialismo Sousa Ribeiro, investigador do Centro de Estudos Sociais, docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, considerou "urgente" a realização de um inventário dos bens coloniais existentes nos museus portugueses e propôs uma restituição dos que foram "pilhados".

Em entrevista à agência Lusa, o professor catedrático, que participou na conferência, sobre o património e a memória colonial "Responsabilidades Coloniais, Legados e Perspetivas", no Goethe Institut, em Lisboa, disse que "não há uma solução genérica para a restituição dos bens". "Cada caso é um caso".

Sousa Ribeiro deu também como exemplo o Museu Africano, que a Bélgica vai abrir em dezembro, perto da capital, Bruxelas, no qual muitas coleções coloniais "vão ser apresentadas num conceito diferente daquele em que são expostas nos museus etnográficos, ou seja, introduzindo precisamente a questão da origem das peças”.

A base para o processo de restituição, porém, é sempre o inventário, daí que este deve começar o quanto antes, diz.

Em Lisboa, o Padrão dos Descobrimentos inaugura no próximo dia 25 uma exposição coordenada por António Camões Gouveia, que tem como ponto de partida um “exercício científico-museológico” cujo o desafio é “contar África e não a visão que de África tiveram os portugueses”.

(Notícia atualizada às 08:27)

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