"Acho admirável Portugal estar incomodado com um só sujeito [da extrema-direita] mas acho que é assim que se faz mesmo, porque eles começam, em geral, com um só. Eu vi [a eleição de André Ventura], e é um sujeito que lembra o Bolsonaro nesse sentido, de que é um bufão, que parece que não vai dar nada, mas quando você vai ver, é um bufão de quem as pessoas começam a rir, começam a votar, e quando veem, ele chega lá [é eleito] ", comparou Duvivier.

Numa entrevista cedida à agência Lusa, na sua casa no Rio de Janeiro, o comediante, que é um duro crítico de Jair Bolsonaro e do seu Governo, comentou a atualidade política dos dois países, declarando que os políticos da extrema-direita devem ser colocados "no ridículo a que eles pertencem".

"Um cuidado que a sociedade deve ter é de nunca os desprezar [candidatos da extrema-direita], assim como desprezaram muito o Bolsonaro, mas, ao mesmo tempo, não os endeusar, e não levá-los muito a sério, porque isso é propaganda. Para mim, a melhor coisa a fazer, e é o que eu tenho feito com Bolsonaro, é colocá-los no ridículo a que eles pertencem", disse.

Gregório Duvivier acredita que o Brasil tratou, e continua a tratar, o atual chefe de Estado com demasiada "cordialidade", e aconselha Portugal a "dar nome aos bois", e a parar de "fazer vista grossa" ao "fascismo" do partido Chega.

"Acho que parte do problema do Bolsonaro foi essa civilidade com que ele foi tratado, quando na verdade não deram nome aos bois desde o começo. Sim, porque quem odeia a democracia e quer acabar com ela é um fascista, é o nome técnico. (...) Então, sugiro que em Portugal deem nome aos bois, e parem de fazer vista grossa para o fascismo", indicou o artista brasileiro.

Conhecido em Portugal pela sua participação no popular canal 'online' de comédia "Porta dos Fundos", e, mais recentemente, pela apresentação do programa satírico "Greg News", emitido pela rede de televisão HBO, Duvivier usa as plataformas que tem ao seu dispor para criticar o panorama político do Brasil através do humor.

Contudo, esse ativismo acérrimo tem-lhe valido inúmeros processos judiciais, levantados por "membros do atual Governo", com base em piadas ou comentários tecidos pelo humorista. Gregório frisa, no entanto, que até ao momento nunca perdeu nenhum desses processos.

Quem assiste ao trabalho do brasileiro percebe que o humor é a sua arma mais usada para protestar, a única possível para "combater o medo" que o "poder" tenta instaurar, considera

"O humor é uma arma muito poderosa contra o medo"

"Acho que o humor é uma arma muito poderosa contra o medo, tal como diz o português Ricardo Araújo Pereira. As pessoas que querem instaurar o medo, têm elas próprias medo do humor. O humor é sempre um dedo na cara do poder. Este Governo não é diferente, morre de medo dos humoristas, das piadas. Embora o próprio Presidente goste de fazer piada com tudo, passa a vida a processar jornalistas e humoristas", realçou.

"É um sujeito que não sabe lidar com críticas, tal como todo o fascista. Ele [Bolsonaro] é um fascista 'à moda brasileira', ou seja, velado, como tudo no Brasil. É um pouco carnavalizado, que tenta fingir-se de bom moço, de engraçado, mas que na verdade é um psicopata sanguinário, que tenta espalhar o medo sobre a população, mas não consegue. Nem para isso tem talento", realçou Duvivier, tecendo duras críticas ao atual chefe de Estado.

Desde que assumiu a Presidência da República do Brasil, em janeiro passado, Jair Bolsonaro tem efetuado vários cortes, quer financeiros, quer editoriais, no setor cultural, promovendo a censura.

O mandatário admitiu em julho a possibilidade de extinguir a Agência Nacional do Cinema do Brasil (Ancine), caso não a possa usar para impor "filtros" nas produções audiovisuais e, em agosto, acrescentou que desejava um presidente na agência com perfil evangélico.

Em setembro, a Ancine suspendeu o apoio financeiro à participação de realizadores brasileiros em festivais estrangeiros, incluindo em seis festivais portugueses.

Já no mês passado, foi notícia que o banco público Caixa Económica Federal começou a aplicar um sistema de censura prévia a projetos realizados nos seus centros culturais, por todo o Brasil, exigindo pormenores do posicionamento político dos artistas, o seu comportamento nas redes sociais, a par de outras imposições de caráter polémico, sobre as obras em exibição, como "manifestações contra a Caixa e contra Governo".

"É um Governo que tem tentado calar todas as vozes possíveis porque tem sofrido criticas de todos os espetros da população, até dos que o apoiavam. (...) Tem nos artistas e humoristas um inimigo bastante barulhento. Tem sido fundamental fazer essa resistência artística, de um Governo tão triste e tão sem graça, que tenta ser engraçado", defendeu o ator, frisando, porém, que teme a censura.

"Foi uma bênção para o Chico não ter essa assinatura"

Em entrevista à Lusa, Gregório Duvivier elogiou ainda o facto de o Ministério da Cultura de Portugal ter garantido que entregará o Prémio Camões ao compositor e escritor brasileiro Chico Buarque, após Jair Bolsonaro ter dado a entender que não assinará o diploma do artista, que é também um crítico do seu executivo.

"Imaginem, um prémio assinado pelo Bolsonaro desvalorizaria muito a premiação, talvez até deixe de ser um prémio. Foi uma bênção para o Chico não ter essa assinatura. E que bom que o Governo vai entregar o prémio de qualquer jeito. Os portugueses adoram falar mal do Governo, e eu acho isso um sinal de saúde democrática, mas nesse caso eu terei de discordar de vocês", afirmou.

"Dentro do panorama mundial, Portugal é uma ilha de democracia. Tanto o Primeiro-ministro (António Costa), como o Presidente da República (Marcelo Rebelo de Sousa), que são de espetros políticos diferentes, e ambos diferentes do meu, ainda assim acho muito bonito o que aconteceu nos últimos anos, uma convivência democrática (...). Acho muito bonito o exemplo de Portugal para o mundo, especialmente para o Brasil", concluiu o humorista.

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