Seis pessoas foram suspensas dos respetivos cargos, na sua maioria de publicações reconhecidas dos media em França, por terem participado de um grupo fechado no Facebook chamado Ligue du LOL. O grupo, que se crê ter tido cerca de 30 membros, espalhava memes pornográficos nas redes sociais. Isto é, os membros do grupo adulteravam fotografias de mulheres com o ímpeto de as humilhar para se divertir, de acordo com o The Guardian.

Um meme é algo que na Internet opera como um verdadeiro fenómeno, e que permite, de forma sucinta, exprimir uma ideia; por norma, surge através da criação, manipulação ou reutilização de uma piada, imagem ou até uma expressão/vídeo.

O grupo surgiu com o propósito dos membros partilharem entre si as imagens adulteradas por brincadeira. Porém, aquilo que começou por ser visto apenas por um grupo restrito, acabou espalhado na Internet, nomeadamente no Twitter. O grupo, nas palavras do seu criador, "degenerou". Certo é que a atividade, em muitos casos a visar colegas de profissão, durou anos. E, em alguns casos, as vítimas estavam a par da identidade de alguns dos autores dos memes — que publicavam nas suas redes sociais com os nomes verdadeiros —, mas tiveram receio de abordar publicamente sobre o assunto.

O criador do Ligue du LOL é Vincent Glad. Glad trabalhava para o jornal francês Libération e foi suspenso esta segunda-feira depois da publicação ter dado conta do grupo por ele criado durante um exercício de verificação de factos (fact-check) sobre o mesmo. Também um dos editores principais da edição online do Libération, Alexandre Hervaud, e David Doucet, editor de uma revista digital de cultura e música, a Les Inrockuptibles, vulgo Les Inrocks, foram alvo de ações disciplinares. Porém, existem outros nomes, como Christophe Carron, editor da versão online francesa da revista Slate, que admitiu fazer parte o grupo, mas negou ter causado problemas "sociais ou profissionais" a qualquer pessoa, assim como nega qualquer assédio.

O diretor do The Libération, Laurent Joffrin, já anunciou uma investigação interna. "Não temos nada a esconder", disse, citado pelo The Guardian.

"Criei um monstro que escapou"

Num pedido de desculpas publicado na sua conta pessoal no Twitter, Vincent Glad afirmou ter "criado um monstro que escapou". "O objetivo do grupo não era assediar mulheres, era apenas entreter-nos. Mas, subitamente, a maneira de nos entreter tornou-se muito problemática sem darmos conta. Pensámos que toda a gente que se expunha na Internet, num blogue, numa conta do Twitter ou noutro lado qualquer, merecia ser ridicularizada", revelou em comunicado. No entanto, disse não ter noção de que aquilo que tinha criado podia "tornar-se num inferno para as pessoas visadas", concluiu.

Alexandre Hervaud, editor do The Libération, também emitiu um longo pedido de desculpas no mesmo tom que o membro fundador. Hervaud revelou que os seus tweet’s foram "condescendentes" quando o escândalo se tornou público na sexta-feira, dia 9. Assim como afirmou que a Ligue du LOL nunca direcionou, de forma coordenada e com alvos específicos, qualquer campanha de ódio. "Não serve [esta desculpa] para minimizar ou negar as provas. O espírito permanente de escárnio e cinismo do grupo influenciou, de forma óbvia, as ações de certos membros, mais concretamente aqueles protegidos pelo anonimato". Por fim, confidenciou que alguns testemunhos de vítimas "literalmente o deixaram com estômago às voltas".

Uma das vítimas, Florence Porcel, admitiu que tinha sido humilhada quando um membro do grupo a chamou com o falso pretexto de uma proposta profissional, tento gravado a conversa. "Quando a gravação foi tornada pública chorei de vergonha, humilhação e medo durante três dias. Não queria sair [à rua]", revelou.

Porcel admitiu também que a sua imagem foi utilizada numa "fotomontagem pornográfica muito degradante" e que esse era o método escolhido pelo grupo para atacar os seus alvos. Num tweet, David Doucet, editor de uma revista Les Inrockuptibles, admitiu ter-se feito passado por um recruta que iria conduzir uma entrevista de trabalho para "uma televisão" e de ter chamado Porcel para a mesma. "Peço desculpa", escreveu.

Para Mélanie Wanga, criadora dos podcast Le Tchip e Quoi de meuf, os membros do grupo estão a ter, finalmente, aquilo que merecem. "Imaginem ser uma jovem mulher, negra e jornalista a falar sobre de temas raciais e apartheid e ter este material partilhado por 20 dos teus colegas", disse, citada pelo The Guardian.

Existem mais vítimas, umas no anonimato, outras públicas. Uma das vítimas anónimas disse que "aqueles rapazes pensavam que estavam a fazer piadas, mas estavam a arruinar as nossas vidas".

Sobre este assunto, o governo francês, através do responsável do secretário de Estado encarregue dos Assuntos Digitais, Mounir Mahjoubi, descreveu os homens por detrás deste grupo de Facebook como sendo um grupo de "perdedores" [losers]. "É um grupo de homens com o poder de fazer pouco das outras pessoas. Só que a ridicularização tem um efeito na vida real", disse.

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