"Nunca pertenci a nenhuma organização terrorista. Nunca aderi a essa causa. Sou muçulmano, sim senhor, mas não me revejo nessa situação descrita na acusação. Nunca, nunca", insistiu o acusado, que, apesar de ter residência e um filho a viver em Londres, está a ser julgado em Portugal juntamente com Rómulo Costa, este último preso preventivamente em Portugal desde 2019.

Cassimo Turé, que tem Termo de Identidade e Residência (TIR) como medida de coação no Reino Unido, optara por não prestar declarações no início do julgamento e hoje decidiu depor perante o coletivo de juízes, o qual já marcou as alegações finais do julgamento para 09 de novembro, no Tribunal Criminal de Lisboa, situado no Campus de Justiça.

À semelhança de Rómulo Costa, Cassimo Turé viveu a infância e a adolescência em Massamá, concelho de Sintra, tendo ambos e os respetivos irmãos frequentado a mesma escola, o mesmo bairro e os jogos de futebol na vizinhança. O seu irmão Sadjo Turé foi o primeiro a ir viver para o Reino Unido, viajando, mais tarde, para a Síria, onde alegadamente terá morrido nas fileiras do Daesh.

Também os irmãos de Rómulo Costa - Celso e Edgar - viajaram para a Síria, utilizando países terceiros, tendo a família recebido mais tarde a informação das respetivas mulheres e filhos que ambos morreram na Síria ao lado dos radicais islâmicos.

Durante a audiência de hoje, o presidente do coletivo de juízes confrontou diversas vezes Cassimo Turé com escutas telefónicas em que fala com o irmão (Sadjo Turé) e nas quais o ora arguido recebe diversas instruções e pedidos para falar com determinadas pessoas, que agora diz não saber quem são, não se lembrar ou de não ter questionado o irmão sobre o assunto.

Estas interceções telefónicas, algumas relacionadas com a compra de uma viagem para Istambul para Ahmed (um amigo do irmão Sadjo Turé no Reino Unido), as permanências deste viajante em Lisboa e o facto de Cassimo Turé ter ido buscá-lo ao aeroporto e de o ter acompanhado às embaixadas da Turquia e da Bulgária foram questões que não ficaram devidamente clarificadas, sobretudo devido à falta de conhecimento ou de memória de Cassimo Turé.

Cassimo Turé, que também reside no Reino Unido e que chegou inicialmente a viver na casa do irmão, alegou sempre que Sadjo Turé era uma pessoa muito "reservada", que não lhe contava pormenores da sua vida privada, nem das suas tendências religiosas (se era islâmico moderado ou radical).

Justificou que no Reino Unido passou a viver distante do irmão, falando com ele fortuitamente por telefone e para saber como ele se encontrava. Admitiu ainda que o irmão sempre ajudou a família em Portugal enviando algumas remessas de dinheiro.

O arguido reconheceu que, certa vez, trouxe do Reino Unido um caderno do irmão para entregar a uma outra pessoa em Lisboa, porque Sadjo Turé ficara retido no aeroporto britânico, mas desconhecer o conteúdo do caderno e as razões pelas quais o irmão não foi autorizado a embarcar para Portugal.

À saída do tribunal, Ricardo Serrano Vieira, advogado de Cassimo Turé, reiterou a sua confiança na inocência do seu constituinte, justificando que o seu cliente só foi parar ao banco dos réus deste processo porque o irmão (Sadjo Turé) foi investigado no Reino Unido e viajou para a Síria para combater ao lado dos radicais islâmicos.

Ricardo Serrano Vieira considerou que o arguido respondeu a todas as perguntas e que as respostas dadas são tão válidas como outras quaisquer, cabendo a valoração da prova ao tribunal.

Segundo o advogado, o arguido explicou ao tribunal que "não tinha qualquer relação com os demais arguidos" e insistiu que Cassimo Turé só foi acusado neste processo-crime por ser irmão de alguém que foi investigado no Reino Unido e acabou por ir combater para a Síria.

Em causa neste julgamento estão os crimes de recrutamento, adesão e apoio à organização terrorista Estado Islâmico (EI) e financiamento ao terrorismo.

O caso resultou de uma investigação de cooperação judiciária entre as autoridades portuguesas e britânicas, sendo que o arguido Rómulo Costa nega as acusações de terrorismo, admitindo apenas que falou com os irmãos/guerrilheiros por telefone para apurar se estavam bem e saber informações sobre outros familiares a viver em campos de refugiados.

A acusação entende que todos os arguidos uniram esforços, recrutaram e financiaram de modo próprio o EI, apoiando a ida de cidadãos portugueses e britânicos para a Síria para combaterem ao lado dos jihadistas.

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