“As duas coisas, populismo e imigração, coincidem em dar cada vez mais importância aos partidos de direita, que nós já não temos coragem de chamar ‘fascistas’ e, por isso, dizemos populista, que é um sinónimo atualizado, mas que é a forma moderna de fascismo”, afirmou Raffaele Simone, em declarações à agência Lusa.

O linguista e filósofo italiano, que falava à margem das Conferências do Estoril, considerou que “são fenómenos que não terão solução” no imediato, perante a falta de unidade demonstrada pela União Europeia.

“Creio que o populismo é um problema, mas que não tem solução, porque é a forma moderna de participação popular e de expressão dos sentimentos do povo”, notou Raffaele Simone, de 73 anos.

O professor emérito de linguística da Universidade de Roma Tre, em Roma, salientou que os políticos usam os meios de comunicação para exibir a sua eloquência, vida privada e apelar aos gostos do povo, receando por isso que o populismo “se difundirá cada vez mais”.

“Pensávamos que Berlusconi era o ‘top’ máximo do populismo, mas vimos que Trump, sem conhecer o pobre Berlusconi, está exatamente nos mesmos moldes, com elementos mais fortes e numa outra escala”, frisou.

O filósofo, que se tem dedicado nas últimas décadas a analisar e a pensar sobre a teoria política, sublinhou que “a imigração é um fenómeno historicamente imparável, parcialmente criado pela Europa, que constitui uma resposta do mundo pobre ao mundo rico”, que obtém proveito da exploração dos seus recursos.

No entanto, Raffaele Simone vincou que o atual fenómeno migratório é maioritariamente constituído por homens jovens, que tendem a procurar constituir família e a procriar, e que “além disso são muçulmanos”, professando uma religião que não é exatamente idêntica à dos cidadãos europeus.

“Estes são aspetos que se podem classificar muito facilmente como discriminação”, admitiu o professor, deixando, no entanto, o aviso de que, perante o atual fenómeno migratório, “a democracia está muito ameaçada”.

Para Raffaele Simone, há dez anos ninguém podia imaginar que os atuais fluxos migratórios, que existem desde há séculos, iam “tomar uma forma tão massiva e tão dramática”, tanto de África como da Ásia, e que se encontram na Grécia e em Itália.

“O papel dos políticos neste momento é mais importante e delicado do que nunca, não só porque têm de tomar decisões, mas também porque têm de preparar as populações, que estão totalmente impreparadas, e a resposta dos impreparados normalmente é o repúdio”, disse.

O pensador que apontou um caminho pessimista para o futuro da esquerda, notou não conhecer o caso português, mas concedeu que se a atual solução governativa portuguesa, de um Governo socialista apoiado por comunistas e Bloco de Esquerda, se apresentar como “relativamente estável” então os portugueses serão “afortunados”.

Já em relação ao cenário político italiano, Raffaele Simone não escondeu que atravessa um “momento fatal” e a “situação mais feia” que já viu em toda a sua vida.

No painel “Diálogo Global: Migração e Democracia”, no Centro de Congressos do Estoril, Raffaele Simone debateu com Kenan Malik, os desafios do crescente aumento dos discursos xenófobos e nacionalistas na Europa.

O escritor de origem indiana, especialista em multiculturalismo, avisou para os riscos da imigração serem olhados como “o único problema” da sociedade e da imagem da Europa estar sob o cerco dos migrantes.

As Conferências do Estoril, com uma periodicidade bianual, são organizadas desde 2009 pela Câmara de Cascais e a quinta edição decorre até quarta-feira, sob o tema do desafio da “Migração Global”.

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