Paris, 15 nov (Lusa) - A portuguesa Suzette Fernandes passou o dia de sábado num hospital da região de Paris, "preparado para trabalhar, como se fosse em estado de guerra", a ajudar famílias de vítimas dos atentados de sexta-feira.

Suzette Fernandes, representante dos utentes do hospital Mondor-Chevalier em Créteil, contou à agência Lusa que esteve desde as 10:30 até às 19:00, com cerca de 40 pessoas a prestar apoio logístico e moral na sala junto ao bloco operatório, onde estavam "quatro vítimas em estado muitíssimo grave".

A portuguesa de 55 anos explicou à Lusa que prestou essencialmente "um apoio prático" e que esteve "sobretudo a falar com as pessoas", participando no que reconheceu ser "uma grande onda de solidariedade e participação".

"Estava sozinha, mas tinha o apoio do serviço das urgências. Deram-me um cartão magnético para poder passar, eu entrava, saía e ia buscar o que precisava. A cozinha abriu e cada vez que eu pedia qualquer coisa, traziam-me logo sandes ou fruta ou bebidas. Pedi 30 sandes, pedi bebidas, pedi café, pedi para prepararem uma cama para um miúdo que estava lá a sentir-se mal", descreveu a vice-presidente da associação de doentes neuro-musculares do hospital.

Suzette Fernandes também ajudou a "encontrar quartos para a noite", para os familiares dos feridos, e sublinhou que "o hospital estava muito calmo", com "tudo já preparado para trabalhar, como se fosse em estado de guerra".

A portuguesa, que chegou a França com cinco anos, acrescentou que, ao final do dia, no serviço de urgências, a aconselharam a ver uma psicóloga, porque foi um dia "bastante pesado", em que esteve sozinha com algumas pessoas que tinham os familiares entre a vida e a morte: "Acho bem porque vale mais contar tudo o que vivi, vi e ouvi, do que andar aqui a choramingar em casa", confessou à Lusa.

"Acompanhei a primeira família cuja filha saiu do bloco operatório e foi para os cuidados intensivos da cirurgia. Depois acompanhei as outras famílias. Uma delas, a miúda, estava muito mal, com quatro equipas a operar ao mesmo tempo, com os quatro membros partidos e balas que ela tinha recebido (...). Essa esteve 20 horas no bloco operatório e foi a família que apoiei mais", lembrou, acrescentando que se tratava de uma jogadora de futebol e que estava lá "toda a equipa em peso".

Suzette Fernandes falou também de um caso de um senhor mais idoso, que "estava com a esposa e tiveram de lhe dizer que a esposa tinha falecido", mas com essa família não teve contacto.

Por outro lado, a portuguesa originária do concelho do Sabugal, na Guarda, disse à Lusa ter assistido a uma cena que a fez "ter medo do futuro, porque vai haver muito racismo", e disse que teme que, no hospital, as pessoas de diferentes culturas e religiões "se virem umas contra as outras".

"Passou um casal, ela ia vestida com um véu islâmico. Passaram, toda a gente se calou, e o pai de uma miúda - que é capaz de não sobreviver infelizmente - [disse] 'Havíamos de os matar todos'. Isto magoa. Na altura, uma pessoa até pode pensar como ele, só que, com o recuo, a gente não pode pensar como ele, porque os inocentes não podem pagar pelos que fizeram isso", desabafou.

Esta segunda-feira, "a primeira coisa" que Suzette vai fazer é ir ver as três meninas, que têm todas "entre 20 e 21 anos", e que foram vítimas dos disparos no restaurante "La Belle Équipe", no 11.º bairro de Paris.

CAYB // MAG

Lusa/fim

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