"Enquanto os outros museus terão o que qualquer museu tem, este tem exatamente aquilo que nos identifica. É a cultura dos nossos antepassados que se procura traduzir aqui", disse à agência Lusa Lídia Góes Ferreira, diretora do museu, situado na vila da Ribeira Brava, zona oeste da Madeira.

Inaugurado em 1996, o Museu Etnográfico da Madeira ocupa um edifício do século XVIII, que era casa solarenga de gente rica e, depois, no século XIX, foi transformado em unidade industrial, com a instalação de um engenho de cana-de-açúcar e dois moinhos para cereais. Entretanto, caiu no abandono, vindo a ser recuperado pelo governo regional na década de 1990.

A exposição permanente contempla alguns dos ciclos produtivos/extrativos que marcaram o povo madeirense: a pesca, o linho, os cereais e a vitivinicultura. Ao mesmo tempo, apresenta a reconstituição de uma mercearia tradicional e de dois espaços domésticos (uma cozinha e um quarto de dormir, com todos os objetos típicos das casas madeirenses abastadas do século XIX).

O museu tem vindo a enriquecer o acervo ao longo dos anos, mas, durante um certo período, viu-se forçado a travar a política de aquisições por falta de espaço.

"A coleção começou a crescer e ficámos condicionados, mas agora dispomos de um novo espaço de reservas", explicou Lídia Góes Ferreira, realçando que até são feitas doações particulares, pois "começa-se a ver a etnografia como algo de valor".

Inicialmente, o número de visitantes estrangeiros era diminuto, já que os circuitos turísticos habituais apontam para uma paragem de apenas 15 minutos na Ribeira Brava.

"Sofremos com o problema da descentralização", afirmou Lídia Góes Ferreira, sublinhando que, após um esforço de divulgação junto dos agentes turísticos, a situação alterou-se ligeiramente. No entanto, o grande público continua a ser madeirense.

"Apesar da crise, tivemos um aumento, de 2013 para 2014, de três mil visitantes, dos quais 500 foram estrangeiros", salientou, lembrando que o país está a ser percorrido por uma "onda muito grande" de interesse por tradições e etnografia, numa espécie regresso às origens.

Lídia Góes Ferreira considerou, contudo, que o aumento do número de visitantes prende-se essencialmente com a política de exposições temporárias, as parcerias com escolas e outras atividades culturais e sociais promovidas pela instituição, como o 'atelier' de ocupação de tempos livres ou a horta pedagógica no jardim.

"Isso faz com que os locais voltem repetidas vezes ao museu", sublinhou.

A "viagem" ao passado começa na sala da pesca, com destaque para as coloridas embarcações de Câmara de Lobos e as esculturas em osso de baleia do Caniçal. Segue, depois, para o universo rural do linho, onde uma artesã trabalha diariamente ao tear, mostrando como se componham antigamente os tecidos.

Mais adiante, há uma sala dedicada aos transportes, onde se destacam os carros de bois, que circularam no Funchal até aos anos 80. Daqui, avança para os cereais, expondo dois moinhos de água e uma sala de moenda. Por fim, chega-se o ciclo do vinho, onde estão em evidência dois lagares: um de fuso, tradicional da Madeira, outro de cocho, mais comum no Porto Santo.

"Já temos muitos visitantes estrangeiros, mas o público madeirense é o que mais nos procura. Desde que o museu abriu, até hoje, não posso de maneira nenhuma me queixar de 'em casa de ferreiro, [ter] espeto de pau'", disse Lídia Góes Ferreira.

DYC // PMC

Lusa/Fim

Newsletter

As notí­cias não escolhem hora, mas o seu tempo é precioso. O SAPO 24 leva ao seu email a informação que realmente importa comentada pelos nossos cronistas.

Notificações

Porque as noticias não escolhem hora e o seu tempo é precioso.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.