Sabe-se que "a depressão é uma epidemia silenciosa que afeta milhões de pessoas em todo o mundo". Em muitos casos "os tratamentos padrão proporcionam alívio", mas há muitos doentes, "conhecidos como aqueles com depressão resistente ao tratamento (DRT)", para quem "o caminho para a remissão está repleto de tratamentos falhados e perda de esperança".

Albino Oliveira-Maia, diretor da Unidade de Neuropsiquiatria da Fundação Champalimaud, explica em comunicado que "a DRT é definida como a persistência de sintomas depressivos apesar da prescrição adequada (dose/duração) de pelo menos dois medicamentos antidepressivos diferentes". Assim, "apesar das repetidas tentativas terapêuticas, os sintomas depressivos destes doentes permanecem".

Para estes casos, a Fundação Champalimaud apresenta o "spray nasal de escetamina" como "uma nova esperança para a depressão resistente a tratamento", segundo o estudo publicado pelo New England Journal of Medicine.

Este spray nasal, desenvolvido pela farmacêutica Janssen — uma empresa da Johnson & Johnson —, tem uma "formulação que demonstrou eficácia superior em vários ensaios clínicos, comparativamente com placebos. Também obteve aprovações da FDA, nos EUA, e da EMA, na Europa".

Todavia, poderia questionar-se se "haveria mesmo a necessidade de outro medicamento, no já sobrelotado mercado de antidepressivos, e de um novo estudo sobre a escetamina-SN", um antidepressivo de ação rápida.

Oliveira-Maia, coordenador nacional do estudo em Portugal, dá a resposta. "Embora existam muitos tratamentos disponíveis para a depressão, há uma escassez de opções de medicamentos adaptados para a DRT. Além disso, para orientar os médicos e os doentes na sua tomada de decisões, e para serem adotadas pelas companhias de seguros de saúde e pelos governos, os fabricantes de medicamentos precisam de demonstrar uma vantagem inequívoca sobre as modalidades de tratamento existentes, sublinhando assim a relevância deste estudo".

O que foi comparado neste estudo?

De acordo com a Fundação Champalimaud, esta investigação permitiu um "frente a frente" entre duas substâncias: escetamina e quetiapina.

"O estudo comparou a escetamina-SN com a quetiapina-LP oral, um antipsicótico atípico originalmente autorizado para o tratamento de doenças como a esquizofrenia, mas cada vez mais utilizado, e com a aprovação de agências reguladoras, como tratamento adjuvante para episódios de depressão de difícil tratamento", é explicado.

"A quetiapina é atualmente um dos poucos medicamentos alternativos complementares, aprovados para doentes com quadro clínico depressivo major e resposta inadequada ao tratamento antidepressivo contínuo", refere ainda Oliveira-Maia.

Foram examinados, no estudo internacional, "mais de 800 doentes, tendo um número superior a 600 preenchido os rigorosos critérios de elegibilidade para DRT que foram posteriormente incluídos" na investigação. Os participantes foram divididos em dois grupos, de acordo com as substâncias administradas: "um grupo auto administrou a quetiapina-LP em casa, enquanto o outro recebeu a escetamina-SN em ambiente hospitalar supervisionado".  Simultaneamente, ambos os grupos continuaram com o seu mais recente plano de tratamento antidepressivo, com medicamentos antidepressivos convencionais.

Linhas de apoio emocional e prevenção de suicídio

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"O estudo durou 32 semanas, um período superior ao dos ensaios típicos", afirma Oliveira-Maia. "Isso permitiu-nos avaliar os resultados do tratamento a curto e longo prazo. Durante todo esse tempo, monitorizámos de perto as respostas dos participantes, os efeitos colaterais e a eficácia geral dos medicamentos".

"O nosso objetivo era verificar se os doentes que tomavam a escetamina-SN tinham maior probabilidade de alcançar a remissão – correspondendo essencialmente à eliminação dos sintomas – às oito semanas, em comparação com aqueles que tomavam a quetiapina-LP. Entre aqueles que alcançaram esta remissão aos dois meses, procurámos determinar os efeitos da continuação do tratamento na prevenção de uma recaída, em ambos os grupos, até à conclusão do ensaio às 32 semanas", aprofunda.

Quais os resultados?

Segundo o estudo, após oito semanas, "notavelmente, 27,1% dos doentes que tomaram a escetamina-SN alcançaram a remissão, em comparação com 17,6% do grupo que tomou a quetiapina XR, com ambos a continuar a sua medicação com antidepressivos convencionais".

Se estes resultados já mereciam destaque, "os dados de longo prazo foram ainda mais reveladores". "Se este ensaio tivesse sido concluído às oito semanas, os resultados seriam bastante interessantes, mas não incríveis. No entanto, os dados às 32 semanas contam uma história diferente". Nesse momento, "quase metade dos doentes que seguiram com o tratamento com a escetamina-SN – incluindo aqueles que não estavam em remissão na semana oito – alcançaram a remissão, ou seja, os sintomas da doença diminuíram substancialmente ou desapareceram. Em contraste, apenas um terço daqueles que continuaram com a quetiapina-LP atingiram este estado".

Além da eficácia terapêutica foi também necessário avaliar os parâmetros de segurança destas opções de tratamento, sendo que ambas "registaram taxas muito baixas de eventos adversos graves, como mortalidade ou ideação suicida". Porém, "ao examinar os efeitos colaterais menos graves, o grupo de doentes que administrou a escetamina-SN apresentou uma maior frequência de manifestações quando comparada com o grupo da quetiapina-LP".

"Isso era algo já antecipado, dadas as propriedades dissociativas da escetamina", diz Oliveira-Maia. "Curiosamente, a taxa de doentes que pararam o tratamento devido aos efeitos colaterais foi na verdade menor para a escetamina-SN do que para a quetiapina-LP, o que sugere que, embora no papel a escetamina-SN possa ter mais efeitos adversos, aqueles causados pela quetiapina foram menos toleráveis".

Qual o futuro deste tratamento?

"O verdadeiro desafio agora passa da investigação para a política. O impacto da escetamina-SN só pode ser concretizado se os doentes tiverem acesso imediato à mesma", aponta Albino Oliveira-Maia. "São necessárias pesquisas contínuas e um persistente trabalho de defesa das mesmas para assegurar que os tratamentos chegam aos doentes que deles precisam".

Contudo, depois das conclusões do estudo, o otimismo impera.  "Os nossos esforços de investigação futuros visam identificar marcadores preditivos para a capacidade de resposta ao tratamento. Além disso, queremos investigar formas de melhorar e manter as taxas de remissão, incluindo o papel potencial da psicoterapia".

Mas fica novamente o alerta: "o progresso científico deve ser acompanhado de medidas políticas pró-ativas e de ações governamentais concretas".