Hora de almoço. No quartel dos Bombeiros Voluntários de Lisboa, no Chiado, Emanuel, bombeiro há 17 anos, desdobra-se para conseguir atender todas as chamadas que chegam aqui. Não está fácil. Os telefones não param de tocar com perguntas de civis que querem saber como podem ajudar.

As únicas notícias que não chegam com a regularidade desejável são as dos dois bombeiros desta corporação que estão a combater as chamas no incêndio de Pedrógão Grande. “A última informação dos que estavam lá? É que aquilo está um verdadeiro inferno”, diz Emanuel ao SAPO 24.

Do outro lado do vidro da Sala de Operações, onde os telefones tocam sem parar, Carla e Artur andam apressadamente entre os cacifos, num entra e sai. Vão para Pedrógão render os colegas que já lá estão há mais de 24 horas.

Emanuel olha para mim e diz-me que fale com o Artur. “Esse deixou o trabalho e a família para ir ajudar lá para cima”. Artur olha-me, sorri, aperta o uniforme e sai para buscar água fresca para a viagem.

O SAPO 24, que está a acompanhar a recolha de doações na zona de Lisboa, onde a Expresso Frigo disponibilizou um camião refrigerador para ajudar a transportar o que chega aos vários pontos de recolha da capital, já tinha encontrado o Artur, mais cedo, a carregar o camião.

Artur: Já lá estive há 6 anos. “Na altura já foi um inferno, mas nada comparado com isto”

Quando o encontrámos tinha acabado de chegar. Cumprimentou-nos e disse que a sua presença seria sol de pouca dura, que estava para ir para cima, para Pedrógão Grande. Na altura, só tivemos tempo de lhe perguntar o que esperava por lá, depois das imagens que tinha visto. O bombeiro, que passava paletas de água e de bebidas energéticas aos seus colegas à beira do camião, respondeu em silêncio, abanando a cabeça negativamente.

Após um compasso de espera, levantou o rosto e disse: “Não faço ideia”.

Agora, já quase pronto para entrar na viatura de serviço e arrancar para o centro do país, o SAPO 24 interroga-o: “Aqui o Emanuel disse que deixou tudo. Posso perguntar o que faz?”

“Eu sou auxiliar de saúde no Montepio, meti algumas folgas seguidas para ir para cima e pedi dispensa da escola”, conta-nos Artur.

Artur, bombeiro já na casa dos 40 anos, tinha voltado a estudar. Escolheu prosseguir os estudos na área da enfermagem, onde tem sempre dado o seu auxílio.

Pedir para adiar as avaliações na escola não foi problema algum. “Elas [as professoras] são da Cruz Vermelha, já sabem o que isto é”, conta-nos, dizendo que irá depois fazer uma avaliação extra.

Sobre o que o espera, Artur não consegue esconder a preocupação face ao que já assistiu nas televisões: “Nunca vi nada semelhante na minha vida”.

“Não falei com os meus colegas”, confessa, contando-nos, no entanto, que esteve há 6 anos num incêndio semelhante em Pedrógão. “Na altura já foi um inferno, mas nada comparado com isto”.

No terreno, Artur e Carla vão, sobretudo, dar apoio na área da saúde, mas nenhuma missão é descartada. “A nossa missão prioritária é socorrer a população e colegas, mas se for preciso combater as chamas lá iremos”.

“A única coisa que levo na cabeça é segurança, segurança, segurança. A minha e a da colega que vai comigo. Se tiver de largar o carro, largo o carro. A minha missão é ir ajudar a salvar, se tiver de deixar alguma coisa para trás, deixarei”, diz Artur.

Ao seu lado, Carla está impaciente. Quer sair do quartel, está irrequieta, quer ir para o terreno.

Bombeira há 20 anos, diz que sai com o seu “melhor espírito” para “ajudar no que for preciso”. “Sem planos predefinidos”, reitera, “porque às vezes as coisas não correm como nós queremos”.

O que hoje sabem ao certo, Carla e ao Artur, é o elevado número de vítimas mortais que faz deste o incêndio mais mortal da história do Portugal democrático.

“Confesso que só soube da notícia mesmo quando o incêndio já tinha tomado proporções muito grandes”, conta Carla. “É um número assustador”, confessa. “Obviamente que não é sequer imaginável como é que aquilo possa ter acontecido. Vamos pensar que foi uma situação única, no tempo, no espaço e espero que nunca se volte a repetir”.

A dupla sai do quartel com as costas carregadas da melhor sorte de todos. Vão e não sabem quando voltam. “No mínimo, sabemos que vamos lá estar 24 horas, mais não sabemos”, despede-se Artur.