Declara-se ativista política desde muito nova desde o tempo em que, na sua juventude, assumiu a direção de vários movimentos associativos. No entanto, foi em 2002 que deu o salto para o panorama nacional da política portuguesa ao ser eleita deputada pelo Bloco de Esquerda.

A ligação viria a ser curta. Em 2006 a antiga deputada aceitou o convite para ser mandatária da juventude da candidatura de Mário Soares à presidência da República e a sua relação com o partido que a tinha levado até ao Parlamento ficou tremida.

Em 2009, ano de eleições legislativas, é convidada para integrar as listas do Partido Socialista, no tempo de José Sócrates, mas recusa o convite. Depois de em 2014 abandonar definitivamente o Bloco, Joana Amaral Dias passa a integrar vários movimentos políticos. Primeiro o “Junto Podemos”, depois o “Agir”, com que fez campanha para as legislativas de 2015, e agora o partido Nós, Cidadãos!. Na vida “vale bem mais uma derrota por uma boa causa do que uma vitória por um triunfo corrupto ou narcísico”, diz ao SAPO24.

A candidata à autarquia da capital do país parte para mais uma batalha, desta vez à Câmara Municipal de Lisboa, apoiada por um partido que muitos considerariam improvável por ser geralmente conotado com o centro direita, e sem medo de perder. Se a nossa “luta desembocar para uma eleição para vereação tanto melhor, porque aí poderemos continuar o nosso trabalho. Mas se não, muito bem, fizemos a nossa batalha e pusemos a nossa lança em África”, diz-nos.

O ponto de encontro ficou combinado para o Parque José Gomes Ferreira, também conhecido por Mata de Alvalade, um local do que para Joana Amaral Dias, candidata pelo Nós, Cidadão!, e apoiada pelo movimento Agir, traduz muito daquilo que é a nova Lisboa, “para inglês ver”.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Parque José Gomes Ferreira. A escolha foi da Joana. Porquê este sítio para a nossa entrevista?

Olha, porque acho que é um bom exemplo de várias coisas. Primeiro, é um bom exemplo da potencialidade de Lisboa. Temos aqui uma mancha verde no coração da cidade com onze hectares, que tem a capacidade para ser como um Central Park porque é bem no coração. Tem muito espaço e tem uma boa arborização de base - embora, claro, se pudesse fazer alguma replantação.

Mas não é um Central Park.

E porque é que não é? Porque foi reabilitado em 2013/14, e depois, como não é um sítio para inglês ver, no sentido agora literal da palavra, de existirmos neste mundo de turismo, foi abandonado. Agora com as autárquicas estão aqui a fazer umas 'requalificaçõezitas' e tal.

O que há agora para inglês ver em Lisboa?

Há muitos sítios. Todos os sítios que saem do circuito das artérias principais da cidade têm sido desinvestidos. Para dar o exemplo mais banal, e saindo já aqui do parque, foi feita a requalificação toda do eixo da Avenida da República - Saldanha - Fontes Pereira de Melo, tendo já sido mexido, como todos se recordam, na zona do Marquês de Pombal - Avenida da Liberdade. Não me parece que tenham tido grandes benefícios de circulação e de trânsito, antes pelo contrário. Eu circulo muito por essa zona, porque eu sou moradora em Alvalade e trabalho em Picoas, e para mim, que uso o metro, não teve nenhuma vantagem. Se for de carro gasto muito mais tempo. Acho que a queixa é generalizada, mas é uma obra de postal, de cartão-de-visita.

Mas não fica bonito?

Fica bonito, muita gente vê, está tudo muito mais envernizado, mas acho que, se calhar, as verbas que foram ali gastas eram muito mais bem empregues em coisas simples como a higiene urbana. Vou dar um exemplo muito prosaico, mas que é disto que vivem as autarquias e a gestão local: aqui no início da Avenida do Brasil, ali no cruzamento com o jardim do Campo Grande, há dois meses, partiu-se o vidro da paragem de autocarro - são estilhaços de vidro grossíssimos, as pessoas agora no verão andam de sandálias, chinelos … - e até agora ninguém mandou limpar aquilo. Dois meses volvidos.

Mas os estilhaços continuam no chão?

Continuam. E como é uma artéria que não é turística, é mais numa zona de moradores e estudantes, e que é muito usada, mas não é o tal postal alfacinha, ninguém parece querer saber.

"E este é um bom caso, porque passou precisamente para a gestão da Junta de Freguesia de Alvalade que, como é sabido, foi mais ou menos abandonada, uma vez que passou a estar a meio tempo já que o presidente da Junta de Alvalade passou a estar no executivo"

E aqui com o parque, é igual? É isso?

Eu não tenho nada contra embelezar a cidade, acho que é evidente que uma cidade bonita, limpa e arranjada também é importante, mas há que, em primeiro lugar, socorrer aquilo que são as necessidades básicas. Aqui o parque José Gomes Ferreira, com todo o potencial de que eu estava a falar, merecia, por exemplo, um circuito de manutenção. Muitas famílias vêm aqui fazer churrascos e piqueniques, merecia obviamente outra infraestrutura para os residentes de Lisboa, não só para os turistas, mas para a gente que vive em Lisboa.

Isto é um exemplo entre muitos e, no entanto, tem sido abandonado. E abandonado também significa, claro, o delapidar do erário público. E é aliás um bom exemplo de como a passagem da gestão camarária para a gestão das freguesias, naquilo que foi a reformulação, nem sempre funcionou, porque houve muitas qualificações que foram ora abandonadas na Câmara ou não foram conseguidas nas Juntas. E este é um bom caso, porque passou precisamente para a gestão da Junta de Freguesia de Alvalade que, como é sabido, foi mais ou menos abandonada, uma vez que passou a estar a meio tempo já que o presidente da Junta de Alvalade passou a estar no executivo, e mais ou menos abandonou aqui o bairro. E, enfim, todos os moradores daqui são um pouco vítimas disso.

A Joana e o Nós, Cidadãos! era um casamento que se podia prever?

É assim, eu sou uma ativista política. Sempre fui, muito antes da minha ligação ao Bloco de Esquerda. Sempre fiz parte de movimentos associativos, fui dirigente associativa durante muitos anos e portanto fui fazendo as intervenções que acho que são pertinentes, as batalhas que eu posso, quero e acho que faz sentido travar. O Nós, Cidadãos! convidou-me para fazer esta disputa em Lisboa, a cidade onde eu resido há mais de duas décadas, eu entendi que, olhando para as candidaturas que estão em cima da mesa, que são “proto candidaturas”, que não são candidaturas de investimento, que fazia todo o sentido. A cidade merece, e precisa, de debate, de ventilação. E porque não disputar, se não um lugar na Câmara, uma voz de vereação, ativa e interventiva para Lisboa?

"Eu acho que vale bem mais uma derrota por uma boa causa do que uma vitória por um triunfo corrupto ou narcísico"

Ficará como vereadora, caso não vença as eleições?

Ah sim, ficarei. E estou certa de que em conjunto com o Nós, Cidadãos! poderemos ser uma voz de irreverência, de debate, de propostas diferentes, de novas alternativas para a cidade e que não estejam naquela 'mesmice' que tem sido este conjunto que se tem apresentado na Câmara Municipal de Lisboa sem grandes resultados.

Está a falar da oposição ou do executivo?

Estou a falar do conjunto. Porque as propostas que neste momento existem, desde o programa do PSD, do CDS, do Bloco, do PC e do PS, e até do PAN, mas centrando-nos nestes cinco, são as mesmas propostas de sempre. Isto é como os incêndios, todos os anos se repetem. Dizem que os problemas na cidade de Lisboa são a habitação, a mobilidade e o estacionamento. É verdade, esses são três dos principais problemas. Concordo. Mas então, se estão há tanto tempo na Câmara, uns no executivo camarário, outros na Assembleia Municipal, que é quem fiscaliza o executivo e que funciona, aliás, como um mini-parlamento, porque é que não fizeram as devidas mudanças? Porque é que tantos anos volvidos, já foram eleitos há tanto tempo, têm esses lugares e essa representação, têm esse poder, têm a faca e o queijo na mão, porque é que não o fazem? Porque é que agora em 2017 é que veem por as mãos à cabeça dizer que Lisboa tem um problema grave de habitação? Ah pois é, a renda média na cidade é de 830 euros e quase ninguém consegue pagar. Mas porque é que não fizeram nada até agora? Porque todos estes cinco partidos estão devidamente representados entre Câmara, Assembleia Municipal e Juntas de Freguesia. A mim não me convencem e essa foi uma das razões pelas quais quando o Nós, Cidadãos! me lançou o convite e o repto eu decidi aceitar. 'Bora lá fazer esta luta!

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Disse ao Jornal I que se “estivesse preocupada em ser deputada ou com os cargos, já tinha aceite um desses convites e não andava aqui a fazer combates com pequenos partidos." E sublinhou que faz o que faz "por amor à camisola”. Falava do convite para ser deputada do Partido Socialista no tempo de José Sócrates. Mais do que de vitórias, a Joana gosta das batalhas?

Acho que na vida, mais importante do que os triunfos é a quantidade de derrotas que nós conseguimos aguentar. Acho que vale bem mais uma derrota por uma boa causa do que uma vitória por um triunfo corrupto ou narcísico. Portanto, eu venho fazer as batalhas, discutir ideias, fazer denúncias, fazer uma campanha, espero eu - já estamos a prepará-la - com alguma irreverência e frescura.

"A mim não me convencem e essa foi uma das razões pelas quais quando o Nós, Cidadãos! me lançou o convite e o repto eu decidi aceitar. 'Bora lá fazer esta luta!'"

Na senda da campanha do movimento Agir, em 2015?

Sim, o Agir continua e está a trabalhar com o Nós, Cidadãos!. O Agir nunca se quis constituir como partido, e não se vai constituir como partido. Fez uma parceria nas legislativas com outros partidos, e agora fez uma parceria com o Nós, Cidadãos!, e vai estar na luta integralmente. E é assim, se essa luta desembocar para uma eleição para vereação tanto melhor, porque aí poderemos continuar o nosso trabalho. Mas se não, muito bem, fizemos a nossa batalha e pusemos a nossa lança em África.

"António Costa já tem muito poder no país, se calhar, por ventura, até demais. Não sei o que é que os eleitores lisboetas pensam disso, mas ter a cidade de Lisboa e ter o controlo do país não é assim tão salubre, não tem assim tanta saúde democrática quanto isso. Se calhar é melhor dividir os ovos pelas cestas"

Antes da sua candidatura ser apresentada, António Costa afirmou que Fernando Medina é o único que é verdadeiramente candidato à Câmara de Lisboa, os outros fazem-no por agenda partidária. Concorda?

[Risos]

Eu acho que o António Costa deve estar a brincar. O Medina caiu-lhe o poder no colo, ele era vice-presidente, não foi eleito. Quer dizer, fazia parte da lista, mas ninguém o escolheu ativamente como presidente da Câmara. Acho que o António Costa consegue vender a Torre Eiffel à avó. Quer dizer, Medina não está por uma causa partidária? Bom ... Medina está por uma causa partidária, é um herdeiro do poder de António Costa, que já tem muito poder no país, se calhar, por ventura, até demais. Não sei o que é que os eleitores lisboetas pensam disso, mas ter a cidade de Lisboa e ter o controlo do país não é assim tão salubre, não tem assim tanta saúde democrática quanto isso. Se calhar é melhor dividir os ovos pelas cestas.

E as candidaturas da direita?

Assunção Cristas também está. Está a dar uma prova de vida no seu partido, uma prova de vida de fogo da sua liderança. A candidata do PSD, é a Teresa Leal ao Coelho, não é? É isso que a move, evidentemente, e de resto são candidaturas partidárias típicas. Também por isso é que na minha perspetiva, na nossa perspetiva, do Agir e do Nós, Cidadãos!, é importante ter uma candidatura independente.

A do PCP e do BE não são?

São candidaturas partidárias típicas, clássicas, legítimas. Não tenho nada a objetar quanto a isso. Não me parece é que sejam de grande investimento, não é? Porque se olharmos, por exemplo, para o candidato do Partido Comunista, tenho muito respeito pelo João Ferreira, mas o João Ferreira vai o quê? Sair do Parlamento Europeu? Vai acumular o cargo de deputado em Bruxelas com a vereação em Lisboa, ou até com o executivo camarário? Obviamente que são mais candidaturas para marcar e manter espaço político do que propriamente para alcançar uma vitória ou uma mudança.

Na apresentação da sua candidatura, abordou muito o tema do metro. Falou em melhorias significativas e até na possibilidade de um metro de superfície. Acha que há margem financeira para isso? Se for presidente da Câmara de Lisboa assumiria a gestão do metro?

Há verbas para muitas coisas. Tem havido verbas para, por exemplo, embelezar a Avenida da República e a Fontes Pereira de Melo. Eu acho que devemos é começar a casa pelos alicerces e não pelo telhado. Volto a dizer: não tenho nada contra o telhado, nada contra as floreiras, as rosinhas e os malmequeres, mas temos de ter bons alicerces e uma casa sólida. Uma boa circulação na cidade de Lisboa é fundamental. Eu lembro-me bem do tempo em que António Costa propôs uma corrida de Ferrari e de burro na cidade, eu acho que agora podíamos ir de Ferrari contra a bicicleta. A bicicleta, mesmo sendo Lisboa a cidade das sete colinas, consegue vencer. Circular em Lisboa é um inferno. O metro foi completamente desinvestido, está abandonado. As linhas são poucas, precisávamos de mais.

Mas mais linhas como o projeto que Assunção Cristas propõe?

Não, não. Antes de haver mais linhas temos que usar aquelas que temos, de melhorar e pôr funcionais aquelas que lá estão. Eu desafio qualquer lisboeta a contar, quando olha para o diagrama da rede de metro, quantas estações têm acessibilidade, ou seja quantas é que têm elevador, quantas é que podemos usar com pessoas com mobilidade reduzida ou pessoas que não conseguem ter uma locomoção normal, ou pessoas com bebés ou filhos pequenos.

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Como é o seu caso.

Como é o meu caso. O meu pai, por exemplo, é uma pessoa com mobilidade reduzida, teve um AVC há quatro ou cinco anos, aliás de resto é público, e tenho uma filha com um ano e meio. É impossível andar no metro com um deles a cargo, como muitas vezes tenho essa responsabilidade. Logo as mulheres, que são na maior parte das situações quem toma conta dos mais novos e dos mais velhos, das suas famílias. É impossível circular no metro de Lisboa, porque eu não posso sair com um carrinho de bebé ou com uma cadeira de rodas na maior parte das estações.

E onde cabe aqui o metro de superfície?

Em primeiro lugar, as estações que já existem têm que ser limpas, melhoradas as carruagens e tem que haver acessibilidade. E depois, temos de pensar, de forma inteligente e racional, daí a possibilidade que deve ser estudada de um metro de superfície, da maneira mais económica e mais funcional de melhorar a rede. Mas sim, temos de começar por aquilo que é básico.

"Eu só queria uma empresa municipal que funcionasse de maneira tão eficaz como a EMEL"

E o carro? Continua a ser o meio de transporte de muitos lisboetas, onde fica no meio desta história?

Eu não faço parte daquele grupo de hienas que diaboliza quem utiliza o transporte privado, o carro. Porque muitas e muitas vezes, em muitas ocasiões, as pessoas têm mesmo de utilizar o carro. E além disso têm o direito de o usar. Ou por acaso Fernando Medina, quando vai todos os fins de semana ao Porto, vai de bicicleta? Vai na CP [Comboios de Portugal]? Eu acho que ele utiliza a segunda variante ali do Tejo e vai de carro, com certeza. Portanto, todas as pessoas, não só Fernando Medina, tem direito a utilizar o seu carro. Claro que, de uma forma regrada, se os transportes públicos forem de qualidade e existirem bons parques de automóveis dissuassores, principalmente na periferia da cidade, tanto melhor. Mas às vezes é preciso utilizar o carro, lá está ou porque venho com a minha cadela e a minha bebé e está a chover, ou porque vou levar o meu pai ao hospital e ele está numa cadeira de rodas... Não interessa. Ou porque pura e simplesmente me apetece. Nestas situações é também necessário respeitar quem utiliza o seu transporte privado, o seu automóvel, a EMEL não pode estar sempre a comer vias e vias ...

A EMEL, o 'papão' dos lisboetas?

A EMEL rouba vias aos lisboetas para fazer parques de estacionamento, ou seja para fazer mais verbas. Eu só queria uma empresa municipal que funcionasse de maneira tão eficaz como a EMEL. A EMEL, cujo grande objetivo é perseguir, não regrar o estacionamento, porque, se não, não comiam vias nas principais artérias de Lisboa para fazer mais cinco ou seis lugares. Isto não é moderar a utilização do carro, pois não? Não, porque se não essas situações não ocorreriam. O grande objetivo da EMEL é fazer lucro, é fazer dinheiro. Pelos vistos é possível que as empresas funcionem de uma maneira eficiente, as empresas municipais. Eu só queria mais uma que funcionasse com o mesmo nível de eficácia. Ficava absolutamente satisfeita. A Carris, por exemplo! Que passou para a gestão municipal e eu que até fui adepta, tive ocasião de fazer debates públicos sobre essa matéria na altura defendendo justamente essa transição. Entendendo eu que, não obstante das dificuldades, porque depois a Carris tem interfaces com outros municípios, como por exemplo Oeiras ou Loures, essa articulação poderia não ser fácil, mas que os residentes da cidade de Lisboa poderiam ganhar com isso. E afinal, meses volvidos, continuamos exatamente na mesma. Só mais uma nota sobre os transportes públicos: é urgente reduzir os preços. Porque os passes ...

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Os intermodais?

Sim, são caríssimos! Trinta e cinco euros por mês e uma família acaba por gastar quase 200 euros em passes. É impagável. Aliás, basta fazer as contas. Uma renda média de 830 euros, mais duzentos e tal euros em transportes públicos… Não estamos a falar de luxos. Estamos a falar de uma renda média, da utilização de transportes públicos, estamos a falar de mil e tal euros por mês. Se pensarmos que o ordenado médio dos portugueses é 800 euros, uma família com dois ordenados, nem estou a falar de famílias monoparentais que são muitas, ou em famílias em que apenas uma das pessoas tem emprego. É impossível. O doutor Fernando Medina para além de ter de fazer as contas ao seu Orçamento e mostrar melhor aos lisboetas onde estão os 27 milhões que entram nas rubricas 'outros', também era fixe que possibilitasse aos lisboetas viver com dignidade.

"Uma das exigências que a nossa candidatura tem é que não se justifica que não possam estar à distância de um clique, na internet, as contas todas, transparentes"

Por falar nesses 27 milhões de euros. Em entrevista ao SAPO24, Teresa Leal Coelho acusou a ATL, presidida por Fernando Medina, de fazer obras que fogem ao controlo do Tribunal de Contas. Este executivo carece de falta de transparência?

Este não é um executivo transparente. Uma das exigências que a nossa candidatura tem é que não se justifica que não possam estar à distância de um clique, na internet, as contas todas, transparentes. Porque não? Porque não há-de estar o dinheiro que entra, as taxas e taxinhas da água, dos transportes? Todas as verbas que entram das pessoas que pagam para viver em Lisboa, nós que pagamos muito dinheiro, é uma barbaridade de impostos, não tem comparação o aumento de impostos municipais com nenhuma outra cidade europeia. Nós pagamos muitos impostos municipais, é aliás outro tema que tem de ser discutido. Tem que ser uma coisa simples, amiga do utilizador, amiga do munícipe, que seja muito fácil de utilizar, que não seja opaco, que não dificulte a utilização e que esteja uma página disponível na internet onde qualquer um, mesmo aquelas pessoas que não são tão politicamente cultivadas, possa ver que verbas entraram e que verbas foram destinadas. Uma das coisas que nós propomos nesta candidatura, e que eu penso que transpõe, de alguma maneira, para a transparência orçamental, é o aumento do orçamento participativo de 0,5% para 15%.

15%?

É um aumento brutal e nós achamos que assim deve ser. Porquê? Primeiro porque embora a atual percentagem de orçamento participativo seja muito marginal, toda a gente quer participar. Portanto isso contradiz aqueles que dizem que as pessoas estão alheadas da política, que não querem saber, que não se interessam ... Isso não é verdade. Tanto se interessam, que no caso do Orçamento Participativo há muita vontade de poder colaborar. Portanto, o OP deve ser aumentado. E depois, a gestão local, é uma gestão muito particular onde tem de ser dada a voz aos cidadãos. As pessoas muitas vezes não participam mais justamente porque não têm instrumentos para participar, não é porque não queiram. É porque não têm ao seu alcance ferramentas simples. Portanto eu acho que o OP aumentar de sobremaneira é uma maneira de as pessoas controlarem melhor as verbas e a gestão camarária, envolverem-se mais na sua cidade e terem uma palavra a dizer. Que investimento é que se deve fazer? Investimos no jardim sul do Campo Grande, que está há dois anos em obras, e onde todos os dias arriscam ali a vida ao terem de passar tudo ao mesmo tempo entre retro-escavadoras, com bicicletas, carrinhos de bebé e idosos, ou fazemos um investimento no Parque José Gomes Ferreira? Ou vamos antes embelezar o Saldanha? Porque não há de ser o cidadão a decidir? Eu sou adepta do poder representativo, acho que há decisões que devem estar na esfera dos eleitos, mas há muitas outras que devem pertencer aos habitantes e aos cidadãos da polis.

"Agora estão todos muito encarniçados com a questão do turismo, mas o turismo tem sido uma bênção para a economia, para o emprego e para o desenvolvimento da cidade"

O outro tema de que é impossível fugir nesta eleição parece ser o Turismo vs. Habitação. Como pretende devolver o centro da cidade à classe média sem perder os benefícios do turismo?

Aqui está um bom exemplo do que tem sido o empurrar com a barriga de todos os partidos que estiveram até agora representados na Câmara e na Assembleia Municipal, porque este problema de habitação já existe há muitos anos. Prédios devolutos, casas abandonadas, dificuldade em morar no centro de Lisboa, jovens cuspidos para as margens da cidade porque não têm capacidade financeira ... Isto não é de agora. O que é que o turismo fez? O turismo evidenciou, pôs à tona, os problemas que todos nós sentíamos há muitos anos. Agora estão todos muito encarniçados com a questão do turismo, mas o turismo tem sido uma bênção, tem sido uma bênção para a economia, para o emprego e para o desenvolvimento da cidade. Já devíamos ter dado estas respostas antes, que não foram dadas, e agora temos de correr a dar essas respostas. Tem que haver regulação do turismo, mas o que eu acho que tem mesmo de haver é uma aposta séria e decisiva naquilo que é a habitação apoiada dentro da cidade. As verbas que o Fernando Medina, que não chegou agora à Câmara, já lá está há dois anos, sem contar o resto … As verbas que este executivo camarário está a atribuir à habitação são baixíssimas, não se compara com os 27 milhões de euros de que falava há bocado. Essa verba tem de ser muito reforçada e temos de trazer as pessoas para dentro da cidade. Isso aliás só beneficia a cidade! Mais pessoas dentro da cidade é mais pessoas a consumirem dentro da cidade, mais pessoas a circular, mais vida na cidade... Ele [Fernando Medina] não é nenhum neófito, ele pode querer parecer que chegou agora, que é um caloiro, mas não é. Tem responsabilidades, devem-lhe ser assacadas.

Mas como pretende fazer isso? Criar tetos máximos nas rendas, criar subsídios...

De várias maneiras. Temos que responsabilizar as pessoas que têm os prédios devolutos, temos que ter habitação apoiada para jovens, para estudantes, para jovens empresários, empresas e comerciais que estejam a apostar na cidade. Vou dar um exemplo muito básico, muito simples, mas que acho que mostra bem o desprezo que existe pelas pessoas que vivem e que apostam na cidade de Lisboa. É o caso do estacionamento. Para se estacionar em Lisboa precisamos do tal dístico da EME para quem é residente, e esse dístico só é concedido naquela área de residente, não é concedido para o seu trabalho, o que é básico. Mas as pessoas que têm comércio na cidade de Lisboa, por exemplo, têm de pagar esse dístico a um preço elevadíssimo. Acho que é evidente que as pessoas que podem até não residir em Lisboa, mas que criam postos de trabalho dentro da cidade têm de ser favorecidas. Isto para dizer que há muitas maneiras. Haja vontade política! O que tem faltado aqui, e isso é que o turismo pôs em evidência até à saciedade, não foram medidas, não foram ideias: é a vontade política de realmente o fazer. Porquê? Bom, enfim, não quero entrar em teorias da conspiração, mas a verdade é que se quisessem ter feito, pelo menos trazer a malta jovem para dentro da cidade, já tinham trazido.

"Assunção Cristas não tem respeito nenhum pelas pessoas que são mais frágeis, mais vulneráveis e que vivem dentro da cidade"

Ou seja, as outras candidaturas, como a de Assunção Cristas ou a de Teresa Leal Coelho, são para deixar tudo na mesma?

A Assunção Cristas, por favor... A Assunção Cristas criou sem-abrigos na cidade de Lisboa, fez disparar as rendas nos bairros sociais. Assunção Cristas não tem respeito nenhum pelas pessoas que são mais frágeis, mais vulneráveis e que vivem dentro da cidade. Uma das coisas que eu sempre achei que Lisboa tinha, importante e com potencial, era a heterogeneidade, tem alguns guetos, claro, mas em muitos bairros de Lisboa, Alvalade por exemplo, São Bento, há muitas situações em que se misturam a classe média, média alta, com bairros sociais ou pelo menos de classe baixa. A Assunção Cristas esteve no governo, desinvestiu completamente nos transportes públicos, desinvestiu, aliás, de uma maneira geral, em tudo o que eram serviços públicos. Não tem uma palavra a dizer sobre isso. Não deve ter sequer moral, nem sequer lata, nem cara para se pronunciar sobre esse assunto e a Teresa Leal ao Coelho muito menos.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Pegando nessas duas candidatas e juntando a candidatura do PAN, a Joana é a quarta mulher a ser candidata nestas eleições. Em sete candidatos há quatro mulheres.

É bom.

O que é que isso significa? Uma mudança de paradigma?

Espero bem que signifique uma mudança de paradigma, que existam cada vez mais mulheres a entrar na vida política. Somos 50% da população, devíamos ser 50% dos candidatos. E dos eleitos, já agora. E não só dos eleitos no poder político, mas também no poder académico, no poder científico, no poder judicial, no poder industrial. Porque em todas estas esferas de poder continuam a ser os homens a mandar, não obstante das elevadíssimas qualificações académicas e técnicas das mulheres. Há um longo combate a fazer, se a política for à frente, então candeia que vai à frente alumia duas vezes. Ainda bem.

Mas Lisboa poderá ser diferente com uma mulher à frente?

Não, não acho que seja a questão de género que faça a diferença em si mesmo. Eu acho que são as ideias que fazem a diferença, é a chama que se põe na discussão dessas ideias, a energia que se põe nesse debate. Não é a questão de género. Mas é evidente que não é aceitável que num país europeu do século XXI que tenhamos só eleitos homens, ou eleitos nos principais cargos, seja nos tribunais administrativos superiores, seja nas empresas do PSI 20. Isso é mérito dos homens, não deixarem lá entrar as mulheres. É mérito dos homens que depois ficam lá eles a guardar a sua coutada.