“Eu quero teto, quero chão, quero o direito à habitação”, “A cidade é para morar, não é só para trabalhar” ou “Eu não aguento mais viver em casa dos pais” foram algumas das repetidas ao longo de mais de duas horas de protesto.

Aproximavam-se as 16:00 quando a manifestação, convocada pela plataforma Casa Para Viver, saiu da Alameda Dom Afonso Henriques em direção ao Arco da Rua Augusta.

Entre a multidão de vários milhares de pessoas, elevavam-se cartazes com mensagens que descreviam uma nova Lisboa, “já não menina e moça, só precária”, uma “Lisbolha especulativa”.

“Cheguei a Lisboa há apenas seis meses e estou a ser diretamente afetado com o aumento das rendas”, contou à Lusa Renan Schiavon.

O jovem brasileiro de 26 anos está a estudar em Portugal e mal chegou deparou-se com a realidade da crise na habitação que o país enfrenta. Arrendou um quarto por mais de 400 euros, sem contrato, numa casa que partilha com vários colegas. Na semana passada, o senhorio aumentou o valor da renda em 70 euros.

“Estou a perceber que os senhorios estão a fazer disto profissão, estão a aproveitar-se de um direito”, lamentou, relatando que além de viver os efeitos, testemunha-os também nos seus amigos, mas sobretudo nas ruas da zona onde mora, onde encontra cada vez mais pessoas em situação de sem-abrigo.

A paisagem ao longo do percurso do protesto comprova esse mesmo cenário e, ao atravessarem a Avenida Almirante Reis, os manifestantes cruzaram-se com dezenas de tendas junto aos prédios, debaixo de arcadas ou no jardim da Igreja de Nossa Senhora dos Anjos.

Passaram também por dezenas de prédios vazios e, por isso, Sandra Fernandes rejeita o argumento de que a solução para a crise na habitação passe, acima de tudo, por novas construções.

“Existem várias casas, mas o uso não é aquele que eu veria para uma Lisboa que precisa de ser habitada”, sublinha.

Sandra diz não ter quaisquer problemas de habitação, mas nem por isso deixou de participar no protesto, entendendo que não se trata de um problema individual, “mas sim coletivo e estrutural”. E em plena pré-campanha para as eleições antecipadas de 10 de março, exige respostas à altura.

Não é a única. Com 87 anos, Amélia Oliveira percorreu os vários quilómetros da marcha até à Baixa de braço dado com a neta, admitindo que é por ela e pelas gerações mais jovens que foi de Benavente até Lisboa para se manifestar e defender que a habitação “tem que ser sempre uma prioridade”.

“Eu tenho habitação, as minhas filhas também têm habitação, mas os meus netos não conseguem”, lamentou a professora reformada que se descreveu como “uma mulher de esquerda e lutadora desde sempre”, para quem as manifestações não são uma novidade.

Dirigindo-se também aos partidos, a secretária-geral da CGTP-IN, que também participou no protesto, sublinhou a necessidade de assumirem o compromisso de uma política alternativa para a habitação.

“Não podemos ter esta situação em que trabalhadores a tempo inteiro, reformados que trabalharam uma vida inteira agora podem ficar sem casa ou não têm acesso a casa digna. Não pode ser e precisamos de alterar esta politica”, defendeu.

Do outro lado, foi esse o compromisso assumido pelos líderes do BE e do PCP, que defenderam o controlo do aumento das rendas, a redução dos juros do crédito à habitação e a imposição de limites ao alojamento local.

“Até agora, foi privilegiado o direito à especulação. Acontece que a especulação não é um direito, é um privilégio e o direito deve ser a habitação”, afirmou a coordenadora do BE, Mariana Mortágua.

Para Paulo Raimundo, o setor da habitação é “o mais liberalizado da economia” e não existem promessas reais que não impliquem “atacar as questões de fundo” e passar o setor das “mãos da banca e dos fundos imobiliários” para “as mãos do povo e do Estado”.

Afirmando que a habitação é “um direito fundamental e não uma mera reivindicação”, também Inês Sousa Real, porta-voz do PAN, defendeu a necessidade de medidas imediatas e “não apenas de médio prazo, como o Governo tem sucessivamente vindo a avançar e a adiar”.