Várias horas antes, camiões e cavalos já estão 'estacionados' no Campo Pequeno, para lavagem e aparelhagem.É dia da corrida do Emigrante, no Campo Pequeno, marcava para as 22h00 de uma 5ª feira - como é tradição naquela praça, que celebra o 125º aniversário a 18 de agosto - e o SAPO 24 foi convidado a acompanhar o Grupo de Forcados de Amadores do Montijo.

O camião do cavaleiro Rui Fernandes ostenta uma enorme imagem de Nossa Senhora de Fátima colada num dos vidros laterais. Leva oito cavalos. Mais ou menos o mesmo número de Francisco Palha. “Quem chega primeiro serve-se, a hierarquia não impera”, diz Hélder Nunes, 40 anos, desde os 16 a tratar de cavalos. Os cavalos estão aqui, mas “é como se estivem em casa”. A alimentação igual, “só que comem mais uma vez”, acrescenta. Cada cavaleiro tem o seu 'staff'.

Do cartaz fazia ainda parte o cavaleiro Filipe Gonçalves, e os grupos de forcados do Montijo, Alcochete e São Manços. Os seis touros pertenciam à Ganadaria Ribeiro Telles. Como aliciante, daquela noite, estava anunciado um Concurso de Pegas.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

“Se vejo uma funerária vai correr bem. Se vejo uma ambulância, corre mal”

O encontro do Grupo de Forcados Amadores do Montijo estava marcado para o hotel Europa, em frente à porta principal do Campo Pequeno. Chegam duas horas antes do início da Corrida. Individualmente ou em grupo, todos em carros próprios.

Fardam-se, por norma, “num quarto de hotel, nos Bombeiros Voluntários ou balneários dos campos de futebol ou pavilhões”, explica Isidoro Cirne, 51 anos, 35 como forcado. É um dos caras, ou seja, o primeiro a pegar nos cornos do touro. Convive desde os seis anos com este desejo. “Fugia da escola para tourear e vê-los”, recorda. “Com 11 anos perdi-me numa herdade e levei uma tareia”. Mostra também a cicatriz na cara provocada por uma bandarilha que lhe entrou na boca há 25 anos. Aponta para os joelhos. “Parti os dois. E não tenho uma mama”, faz o gesto de corte. Sinais de quem anda nesta vida por vontade própria. “Não há idade de sair”, garante. “Nem sei o que farei. É a minha segunda família”, emociona-se. É supersticioso. “Se vejo uma funerária vai correr bem. Se vejo uma ambulância, corre mal”, antecipa. Mas há mais. “A cinta começa para a direita. Sempre”, esclarece, gesticula, rodando a cintura. Não é mania. É algo em que acredita piamente. Quando não pisa a areia fica “chateado”. De cor e salteado adianta que participou em “mais de 200 pegas”. São entre 18 a 20 forcados. A honra de saltar as tábuas cabe só a oito de cada vez. “É o cabo quem decide quem sai na cara e quem ocupa as outras posições”, resume.

A ingratidão do cabo, a importância do primeira ajuda e a ciência do rabejador

Ricardo Figueiredo é o cabo. “Tenho muitos a pedir-me para ser cara. Por vezes escolho-me a mim próprio”. Tudo depende da “praça e das características do touro. Vejo o cavalo, o capote e decido”. Não se arrepende das decisões tomadas. Assume o papel desde 2003, que considera ser uma “função ingrata”.

 

“Tenho seis caras: Élio Lopes, 35 anos, 15 anos de grupo; José Suissas, 18 anos, 4 de forcado e o Cirne”, começa a enumerar. “O primeira ajuda é um pilar importante”, explica. Ser rabejador é uma ciência. “Deve entrar quando entra o cara para desequilibrar do touro. Deve estar à frente dos três últimos”, gesticula.

À porta do hotel chama a atenção de todos para dar as primeiras indicações. “Hoje não se podem fardar todos. Sigam para o quarto no 2º piso”, ordenou.

Quarto 218. O bailado das cintas

Ocupam os dois elevadores e entram todos num só quarto. É no número 218 que se vestem. “É para ficar como está [limpo e arrumado]!”, avisa Ricardo, referindo-se aos 15 m2 que ocupam.

Abertas malas e mochilas, olham para as jaquetas. “Botão e rasgão são cosidos pela mulher ou namorada”, parentesco soletrado pausadamente em forma de respeito.

Toca um telemóvel. Música de faena. Alguém grita: “não se sujem que amanhã há Corrida [Paio Pires]”. É quinta-feira, 3 de agosto, comenta-se sobre quem trabalha na manhã seguinte e quem mete o dia de férias. Os forcados não são pagos. “Somos amadores”, sorri, “é amor à camisola”, garante Ricardo, elevando a voz com honra.

Aos poucos, os corpos, mais ou menos musculados, mostram cicatrizes e algumas tatuagens. Uma cruz de Cristo faz de pêndulo ao pescoço de um forcado. Das malas saem pares de meias brancas de renda que tem muito pouco de 'macho'.

Isidoro Cirne põe ligaduras nos joelhos, escondendo as marcas das operações. Veste três pares de meias. Limpa o rosto, gesto repetido várias vezes à frente do espelho da casa de banho. Dizem, em tom de brincadeira, ser o forcado mais vaidoso do mundo.

Fardados, procuram ajeitar a gravata, encarnada ou preta. Esta última surge, por norma, em sinal de luto ou de estado de alma. Cirne usa a preta em homenagem a um colega que morreu na ilha Terceira “faz 25 anos”. Usa-a desde então.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

“Oh Adelino, mete-me aqui a cinta”, pede. Estica, roda, volta a esticar. São três ou quatro metros de cinta de cor encarnada. Adelino ajuda, Adelino é ajudado.

O corredor do hotel serve para desenrolar e enrolar a cinta à volta do corpo, ritual de entreajuda que será transportado para a praça. Desfilam, um mete, outro dá voltas, são parelhas de bailarinos. Na arte de enrolar é que está a diferença. Tudo é milimetricamente apertado, sem folgas. “Tens de apertar, meta lá a cinta outra vez. Enrola, aperta, é só fazer força com o corpo”, avisa um mais experiente.

Começa a palestra de Ricardo Figueiredo, o cabo. “É a 6ª corrida do ano. Vamos pegar dois touros, 590 e 450 kg. É o primeiro e o quarto”, introduz a estatística. Ricardo observara os animais durante o sorteio. “Estão com boas caras, há espaço para agarrar. Se não for com vontade não estamos a fazer nada. Atenção que a melhor pega dá direito a voltar para o ano. E queremos voltar”, atira. “Às cortesias vou eu, o Cirne, Élio, Luís, António, Mauro, Marinho (foste à Póvoa?, interrompe)”. Pede a dois forcados para darem uma volta para ver ser merecem. Soltam-se risadas.

“Vamos lá...Sorte”, grita com alma. “Sorte”, repetem os outros.

Depositar a fé em Deus enquanto vozes discordantes apelam ao fim das touradas

Maria Elisa é mulher de Isidoro Cirne. “Não é fácil”, respira. “Ponho tudo nas mãos de Deus”, olha para cima e coloca a mão no peito.

Mães, pais, mulheres, namoradas e filhos. Foram chegando a conta-gotas ao hotel. Elisa acompanha o marido para o “norte e centro do país”. Acha que está no tempo de abandonar. “Mas está-lhe no sangue, não sei quando sairá”, suspira. É assistente hospitalar do serviço de urgência do Hospital de Setúbal, tem um filho que é bombeiro profissional e que também foi forcado. O seu pai era pescador. “À minha volta está o risco”, resume.

De sorriso maroto na cara, Jéssica diz que João António “gasta” um cabide por corrida. Segue-o para todo o lado, por vezes com os filhos (2 e 5 anos). Fala enquanto se escuta o som vindo dos cerca de 50 manifestantes que protestam contra as touradas. Os gritos sobem de tom à medida que se aproximam os forcados e familiares, que caminham para a porta principal do Campo Pequeno.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

“Toureiros e forcados são vergonha nacional”, escuta-se vindo do grupo mantido a uma distância de segurança e acompanhado por duas carrinhas de polícia. “Não ligo”. Jéssica encolhe os ombros e vira a cara para o “seu homem”. Beija-o. Um gesto, repetido em dominó, dado por quem vai para a bancada a quem entrará em cena.

Pedro Vieira está à porta do Campo Pequeno como “independente”. Tem um megafone na mão. É “contra o espetáculo em si” e contra a “exploração do touro”. Os gritos continuam. “Touro para arena nem mais um” e “Esta praça vai fechar, as touradas vão acabar”. Os gritos não vão parar, pelo menos enquanto houver vivalma à entrada.

Quadro de ardósia informa o nome do cara e o peso do touro

Início da corrida. Os Forcados do Montijo foram os primeiros a pisar a arena. Com os oitos forcados (utensílio agrícola que lhe dá o nome). Seguem-se os outros dois grupos, os três cavaleiros da noite e os bandarilheiros que compõem as respetivas equipas. Mostram-se ao público. O diretor da corrida, o médico veterinário, o polícia e o cornetim ocupam os quatro lugares de um varandim.

 

Na praça, José Alcachão e Carlos Simões são os emboladores. Embolam os cornos do touro e tratam das bandarilhas num espaço exíguo que obriga muita boa gente a baixar a cabeça, entrar de lado e encolher a barriga. É um cubículo exíguo paredes meias com os curros.

Rui Fernandes, foi o primeiro cavaleiro da noite. “Anda russo...”, grita um 'capote' que presta ajuda. Dá indicações a outro que tenta tirar o touro das tábuas. “Vai, vai... anda lá”. Ferros postos, música, mudança de montaria... só mais um ferro, pedido feito ao diretor de corrida. Acedido, palmas da assistência. Lide feita.

Instantes antes, há trocas de olhares no grupo de amigos que viajou do Montijo. Agora, fixam os olhos no chão e no além. Rezam com rapidez. O silêncio é interrompido pelo barulho seco de um estalo na cara de um. Serve de encorajamento. Encostam testas e exclamam, entre dentes, algo. Esticam os músculos, exercício interrompido com um comentário de alívio: “o touro não tem força nas mãos”.

Encostados às tábuas, prepararam o salto para a fama temporária. Quem está de serviço de arena escreve com giz num quadro de ardósia o nome do cara. É chegado o momento. Entra o som do cornetim e saltam, em coreografia.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Fazem um alinhamento. Silêncio fúnebre na plateia. Só se escuta a voz de quem está na linha da frente para desafiar o animal”. “Toiro. Toiro... é toiro...”. Élio, o escolhido, procura a atenção de um animal com quase 600 kg que olha para um lado e para o outro, para trás, até fixar o olhar no forcado. Mão na anca, rodopia, arrasta os pés para a frente, aproxima-se, recuando logo de seguida, assim que pressente a investida. O som da cavalgada vai em crescendo. Tal como o da assistência, que atinge o clímax coletivo quando os forcados 'fecham' na cara no touro. O animal só para quando cinco ou seis daqueles homens embatem violentamente nas tábuas. Um som penetrante. Um ou outro forcado, literalmente atropelado, levanta-se com a mesma rapidez com que foi cuspido do alinhamento de forças desenhado. Junta-se aos seus. Numa confusão de braços e bandarilhas, caras e corpos colam ao sangue do touro.

Tudo se passa em poucos segundos, embora pareça uma eternidade. O público aplaude de pé. Consumado o domínio do homem sobre o animal, os forcados, agarrados, combinam a saída conjunta.

O rabejador, Nuno Dias, besunta com a areia o rabo do touro. Depois dos forcados saírem em corrida, permanece ali agarrado. O touro olha para trás e direciona os cornos enquanto este rodopia perante o aplauso geral. Uma, duas, três voltas e sai. Larga o rabo e o touro. Fica parado a olhá-lo. Aponta-lhe o dedo indicador como se falasse com o animal e o avisasse: “Tu aí, quietinho...”. Este, assim, permanece. Baixa o dedo em direção aos pés e parece acrescentar “eu estou aqui”. Hoje está na parte de trás do touro, mas já foi cara, recorda. Está nos Amadores do Montijo há 17 anos e uma lesão no ombro há 12 obrigou-o a ter outras funções.

Protegido, o grupo reúne-se e cumprimenta-se. Celebram. Limpam o pó e procuram outras marcas. Correu bem. Ninguém se magoou. Só um sapato ficou perdido na areia.

Entram os campinos para a recolha. Naquela noite são dois irmãos, Joaquim Silva e José Custódio. Fixos no Campo Pequeno, fazem parte de uma verdadeira dinastia de campinos. O pai já o era. Assim como os dois irmãos, hoje fora de serviço.

Touros recolhidos, com a ajuda do serviço de curros, identificados com camisola grená e calça branca, e que se limitam a abrir e a fechar as portas. Dois funcionários do serviço de arena, com camisola azul clara, limpam o 'cocó' do touro e do cavalo.

É o momento do reconhecimento. Cavaleiro, bandarilheiros e cara dão a volta à praça. Na plateia, o público -  onde se vê de tudo, jovens, velhos, senhoras e cavalheiros, portugueses e estrangeiros, dois padres - atira flores, chapéus e roupa.

Uma música em honra dos Forcados do Montijo. Nova lide. Da escrita de pau de giz na ardósia sai o peso do novo touro em praça. Escutado o barulho das marradas nos curros, quando entra, alguém exclama da plateia: “C’a ganda Toiro...”

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Levam ferro da Ganadaria David Ribeiro Telles, uma família que dispensa apresentações no mundo tauromáquico. Os irmãos João, António e Manuel, estão juntos. Distinguem-se dos demais pelas carecas, iguais, que parecem desenhadas pela tesoura.

João deixou a arte de toureio a cavalo na alternativa do filho. Vê a continuação da dinastia no sobrinho António e solta um desejo. “Espero que não deixem isto acabar”.

Mário Oliveira, de batismo, responde quando escuta “Café”, a alcunha. É o Moiral da Ganadaria, um campino-chefe, que trata e acompanha os “touros e vacas” que levam “ferro” Ribeiro Teles. Com 47 anos, anda nisto desde os nove.

Novo cavaleiro em praça, mais uns ferros. Um fica pendurado no dorso do animal e rapidamente o avisador dá conta disso mesmo ao embolador. “É a ele que compete tirar. Vão puxar o touro para as tábuas. Pode magoar os forcados”, explica Mário Matos. Não tirou, mas também não magoou quem se aventurou de seguida.

Toca uma música feita para os Amadores do Montijo durante um touro lidado pelo cavaleiro Felipe Gonçalves. Tocou desencontrada dos artistas para a qual foi criada.

O jovem Suissas, a quem lhe coube o quatro da noite, foi fortemente incentivado por quem leva mais anos disto. Isidoro Cirne, não foi à cara desta vez, embora pisasse a arena lá atrás, ajudando. Os olhos fixaram o chão quando não viu o seu nome escolhido.

Na segunda vez dos forcados de Alcochete, o cara Diogo Amado, rapaz franzino e de baixa estatura, foi violentamente cuspido, rodopiou no chão, levado pelos cornos do touro. Por segundos, os rapazes do Montijo quase que deram o corpo ao manifesto. Não foi necessário. Nova pega, voltou à cara. Aguentou-se, sozinho, às sacudidelas. Êxtase geral. Como prémio, três voltas à praça a pedido de um público exigente.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

No último touro da noite, Francisco Palha eleva o olhar ao divino e deixa cair chapéu na terra. Grita “não mexe” assim que se apercebe da aproximação do peão de brega com o capote na mão. “Dediquei ao meu filho o primeiro touro, este foi ao meu tio João [recentemente falecido]”, viria a explicar no final.

Montijo leva a melhor pega. Forcado que saiu em ombros não ganhou

A noite era de Concurso de Pegas e foi eleita a melhor. A escolha recaiu em Élio Lopes, dos Forcados Amadores do Montijo. Recebe o prémio na arena. Escutam-se assobios na praça, reclamam-se os louros para Diogo Amado, de Alcochete, que sai em ombros, levado pelos seus, pela porta principal. O cara dos Forcados de São Manços, de sobrolho rasgado, lidera os seus homens na saída, cumprimentando todos os intervenientes. Dos cavaleiros, a quem trata da areia, passando por quem abre a porta de onde saem os touros.

O diretor da corrida, Tiago Tavares, que circula nas praças há 4 anos, diz que são normais essas discussões. Sacode culpas da decisão tomada. “Não faço parte do júri”, diz, aproveitando para explicar que a sua função é fazer cumprir o regulamento do espetáculo tauromáquico.

Cá fora, forcados, familiares e público confraternizam. Uns jantam logo ali. É tempo de contar sobre a bravura momentânea. As marcas da lide ficam no quarto de hotel porque há mais no dia seguinte. Nova corrida e mais um dia normal de trabalho.