Mistura drama e dor, loucura e aventura. Tem heróis nacionais - Marinha portuguesa e uma equipa de salvamento dos Açores -, acrescentando um toque de portugalidade à narrativa. No final, uma vida foi salva. Para além dos agradecimentos, fica o exemplo. E a história para ser contada em terra firme sobre aquilo que se passou e passa em alto mar quando se é velejador solitário.

Tudo começou no dia 14 de dezembro de 2015 em plena preparação para a Vendée Globe 2016/17, o “Evereste dos Mares”, como é conhecida esta travessia solitária à volta do mundo em vela, sem paragens ou assistência. Tudo seguido desde o local em que os lobos solitários dos Oceanos arrancam em Les Sables d’Olonne, em França, saindo em direção aos mares do Sul, contornando o Cabo da Boa Esperança e regressando pelo cabo Horn, até ao momento que põe os dois pés em porto seguro, novamente em Les Sables d’Olonne. Somente skippers, barco e mar. O imenso mar e as condições meteorológicas, à mercê.

Paul Meilhat a bordo de uma embarcação da classe IMOCA 60, ocupava a segunda posição na Transat St. Barth - Port-La-Forêt, travessia transatlântica em solitário que liga Saint Barth, nas Antilhas a La Forêt, na Bretanha, França, que funciona como qualificação para quem quer embarcar na mítica volta ao mundo.

“É uma história triste e dura, que depois de vivê-la por dentro torna-nos mais fortes”

Ao largo do Açores, a 50 milhas da ilha de São Miguel, com sistema elétrico danificado, enfrentando ventos fortes (50 nós) e ondulação de oito metros, às 16h30 do dia 14 de dezembro tudo se precipitou. Foi a tempestade perfeita.

“Na tentativa de reparar o mastro uma onda projetou-me e lesionei-me gravemente nas costelas e bacia”, recordou Paul Meilhat, em conversa com o SAPO 24 na Doca do Espanhol, Alcântara, onde está atracado o IMOCA 60 da equipa SMA, uma embarcação de 60 pés que tem semelhanças com a que é utilizada na Volvo Ocean Race.

Pediu assistência. Manteve contacto com as autoridades marítimas portuguesas e com uma equipa de salvamento dos Açores. “Tinha um telefone satélite. Informei a minha equipa do meu estado e do barco. Consegui comunicar com a família e com a marinha para organizar a evacuação”, explicou.

Ferido, recorreu à automedicação. “Estava com dores, tinha medicamentos, recebi informação médica e tratei-me. Com o acidente esquecemos tudo”, continuou. O vento forte e a ondulação impediram o salvamento nas horas imediatas, quer de helicóptero ou por barco. Foram horas de espera, uma noite dentro da embarcação.

“A navegação off shore é perigosa. Temos que estar preparados para tudo. Sozinhos, não temos assistência e resolvemos todos os problemas. Dormir, comer, ver o tempo. Não somos especialistas e temos que ter um pouco de faz tudo, velejar, informática, medicina, engenharia ou arranjar o barco”, elencou. “A equipa à minha volta foi a chave. Ensinam-nos a melhorar a capacidade de resolver todos os problemas”, elogiou.

De colete de salva-vidas vestido, apesar das dores, esperou pela ajuda que decorreu a dois tempos. Por mar e pelo ar. 24 horas até ficar são e salvo.

No dia seguinte, uma equipa de dois elementos da marinha subiu a bordo, resgataram-no e tentaram com um semirrígido colocá-lo no navio da marinha. Mais uma vez a ondulação entrou em ação e acabaram os três na água, agarrados uns aos outros, durante 10 minutos, à espera do helicóptero, numa união rara de luta pela vida.

Helitreuillage de Paul Meilhat (SMA) por VendeeGlobeTV

Foi a vez do helicóptero. Um a um foram içados. Trinta minutos depois Paul Meilhat estava no hospital da ilha Terceira onde ficou um mês e recuperou o corpo e clarificou a mente. “Eles salvaram-me a vida. Um ano depois comecei a Vendée Globe por causa deles”, recordou. O barco, esse, foi encontrado ao largo da Irlanda.

“A história não é uma má memória. É bom para partilhar. Pode acontecer. Na Marinha são profissionais e podem salvar a tua vida”, reconheceu. “É uma história triste e dura, que depois de vivê-la por dentro torna-nos mais fortes”. Não se considera, no entanto, um super-homem. “Não, não sou. É exatamente o contrário. Isto faz-nos perceber como somos pequenos. Mas tornei-me mais forte”, sorriu.

“Quando se termina após dois meses não sabemos o que fazer”

Depois da epopeia vivida, Paul Meilhat foi um dos inscritos na tal aventura solitária à volta do mundo. Estreante, não completou a oitava edição da Vendée Globe. Abandonou quando estava em terceiro lugar, o que não o impediu de ser recebido com pompa e circunstância em Papeete, no Taiti.

“Estar focado na regata 57 dias é longo e duro. No fim pensamos que é só uma semana. É difícil de explicar. O corpo e a mente só para isso e esquecer o resto”, resumiu. “Quando se termina após dois meses não sabemos o que fazer”, reconheceu.

Sobre a travessia que ficou por completar, recorda: “A pressão é enorme. O stress. É um balão que se esvazia. E ânsia de estar com a equipa. São estranhos sentimentos. Estamos tristes e encontramos pessoas que estão contentes por nos ver”.

“Felizmente não é todos os anos”, gracejou Meilhat enquanto deixa no ar uma promessa: “quero completar uma”, garantiu o antigo velejador olímpico que até 2018 abraçou o projeto SMA, Grupo segurador a que pertence a Victória Seguros, e que tem Gwénolé Gahinet como parceiro de barco e de equipa.

A próxima Vendée Globe “é um projeto”. Terminar a aventura que reúne uma boa dose de loucura “é o fim de uma grande, grande história”, anunciou. “E eu necessito de uma nova historia”, sublinhou.

Habituado a narrar a vida em alto mar diz que o faz “não para ser um exemplo”, mas porque ao navegar longe da costa “a única forma de partilhar a nossa paixão é falar com as pessoas. É importante para o projeto e para mim”, finalizou.