“Bem-vindos ao Garage Pitch número dois. Porquê número dois? Porque o número um correu bem”, disse entre sorrisos Tim Vieira, anfitrião do Garage Pitch 901 no início da emissão transmitida em direto no Facebook do SAPO 24. Apesar de ser a segunda edição do programa de apoio a startups, neste episódio foi o número três que reinou: 3 startups, pitchs (apresentações) de 3 minutos e três jurados a convencer.

De um lado, a Misk, uma rede social de recomendações de restaurantes em tempo real e que funciona em qualquer parte do mundo; a Electric Rent, que promove viaturas elétricas não só como chave da nova mobilidade e da sustentabilidade das cidades, mas também na ótica de parceria com marcas no desenvolvimento e ativação de estratégias de notoriedade e sustentabilidade; e a Nesto, que pretende melhorar a logística do gás engarrafado através de um sistema preditivo e que recorre a IoT (Internet of Things). Do outro lado, os jurados: Miguel Ribeiro Ferreira, ex-Shark Tank e dono da empresa Fonte Viva; Stephan Morais, Venture Capitalist com grande conhecimento do mercado tecnológico; Gonçalo Uva, ex-jogador de rugby internacional por Portugal e atual Product Manager na Case Imagine - Sports e o próprio Tim, também antigo ‘tubarão’, e sempre atento a uma boa oportunidade de negócio.

A poucos minutos de se meterem os ‘motores’ a trabalhar, o SAPO 24 sentou-se à mesa com os autores dos pitchs, um de cada startup, e o ambiente era tranquilo: zero nervos e objetivos bem delineados, cada um ajustado ao ponto de crescimento da respetiva ideia de negócio.

Madalena Rugeroni, da Misk, e Djalma Gomes, da Eletric Rent, vinham à procura de contactos, de dar a conhecer o produto. Michael Memeteau, da Nesto, vinha à procura de um investimento. “Preciso agora de reforçar a tesouraria da empresa”, diz-nos. Ambos queriam cumprir a promessa do programa e encontrar uma oportunidade para crescer nesta garagem e tornarem-se uma grande empresa, como a HP, a Microsoft, a Apple ou o Facebook.

créditos: MadreMedia/DR

O microfone ligou-se sob a ameaça de uma buzina de um Ford T, um carro do início do século XX que na Tim’s Garage era utilizado para assinalar os três minutos, o tempo máximo que poderia demorar um pitch. Mas o apito nunca chegou a ecoar na sala. Madalena, Michael e Djalma falaram e não deixaram os jurados sem resposta. Mas a conversa, o verdadeiro networking, viria a seguir.

“Eu não invisto em ninguém com quem eu não consiga beber um copo"

No final do último pitch, Tim fechou as cortinas, distribuiu agradecimento e abriu a outra janela do Garage Pitch, a do convívio: “agora é cerveja, relax e networking”.

Copos no balcão e cartões a voar de mão em mão. No final do Garage Pitch 901, as três startups e jurados juntaram-se lado a lado, misturaram-se com a plateia, beberam e conviveram, sempre com a perspectiva de possíveis acordos e investimento em cima da mesa. Para Tim Vieira esta é condição essencial para um bom negócio.

“Eu não invisto em ninguém com quem eu não consiga beber um copo. A vida é curta demais para a gente estar a fazer as coisas só pelo investimento, pelo dinheiro. A gente tem de gostar das pessoas, ter um pensamento igual, o networking do copo, no fim, é importante”, diz-nos o host.

Um copo, uma volta pela garagem. A conversa faz-se entre os Porshes, Fords. Parar junto aos Ferraris e Maseratis, pedir para espreitar lá para dentro. Ir até à outra ponta da garagem, olhar e discutir as luvas de boxe de Muhammad Ali, a t-shirt do Manchester United campeão europeu em 1999 assinada por sir Alex Ferguson.

À saída, já na rampa da garagem, apanhámos a Madalena, o Djalma e o Michael. Todos felizes. A resposta foi unânime: “correu bem”, “objetivos cumpridos” e “feedback positivo”, foram as palavras mais usadas.

Tim concorda. “Foi bom, acho que foram três bons projetos com muitas coisas que podem dar certo. Alguns deles se calhar têm de rever business plan, mas acho que também os jurados viram oportunidades nos três projetos e isso é bom. E vieram preparados, conseguiram responder às perguntas com confiança, ganharam a simpatia das pessoas. Acho que fizeram um bom trabalho. Gostei”, disse o anfitrião em jeito de rescaldo.

Garage Pitch 901

Para o antigo ‘tubarão” estas três empresas têm mesmo “mais possibilidades de vencer do que muitas que se calhar já passaram” por esta garagem. Cada uma tem as suas especificidades e terá desafios diferentes pela frente, diz-nos Tim. A Nesto, por exemplo, se se mantiver simples, e “tiver um bom business plan  — e fizer sentido a quem vende e compra gás — é uma solução win-win”. Já a Electric Rent, é mais “local do que global”, com o primeiro grande passo a ter de ser dado em Lisboa. Sobre a Misk, o host da noite disse que é a ideia mais “arriscada”, mas que por ser fácil de utilizar — e com bons investidores por trás — pode atingir uma escala enorme.

Portugal: um ecossistema empreendedor imperfeito que precisa de mais casos de sucesso

Com a WebSummit aqui à porta, o ecossistema parece estar a efervescer. Exemplo disso é o caso de Michael Memeteau, da Nesto, que no Garage Pitch 901 fez o seu quarto pitch do dia. “Isso dá bem conta da efervescência do ecossistema, não é? Tive uma segunda reunião com investidores de manhã, depois estive no SmartEnergie Summit, organizado pela BGI, depois tive uma teleconferência com um operador brasileiro”, conta-nos. Djalma não fez em Cascais, na garagem de Tim Veiria o seu “segundo ou terceiro pitch do dia”, mas também não fez nem o primeiro nem o último da semana. “De hoje até ao início do WebSummit existem imensas iniciativas. Felizmente nós estamos em algumas delas e o objetivo é darmos grande visibilidade ao nosso projeto”, revela o porta-voz da Electric Rent.

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Madalena, da Misk, apesar de estar numa fase mais focada no market fit do seu produto, reconhece que em Portugal “há cada vez mais startups e isto é tudo bom para o país, para a nossa economia. Portanto, tudo o que seja bom, que nos dê visibilidade, acho que é positivo”, diz.

“Em Portugal o ecossistema está a melhorar. Não é perfeito, mas eu também já estive em muitos sítios do mundo em que se está pior do que nós. É aproveitarmos, mas é começar a criar mais casos de sucesso. O que eu vejo é os jovens a falar mais das empresas, eles já não estão a esconder tanto. Estão a arriscar e isso é ótimo”, sublinha Tim Vieira.

“Dentro do ecossistema, não há melhores nem piores. Todos são importantes para fazer o mesmo crescer, porque quando a gente tem um caso de sucesso ajuda a que haja outro caso, e um segundo, e um terceiro". E remata num sussuro: "Se a gente não tiver sucesso é que estamos todos fo***** , todos parados”.