Que dia, que noite. Como não simpatizar com um Salvador que diz na Eurovisão: vou vender a taça no eBay! Ou: sei lá se a Rússia ganha no ano que vem! Ou: a vontade celeste não tem nada a ver com isto, é a música, man!, tragam a música de volta! Já agora, digo eu, tragam as letras também, porque de Fátima a Kiev, passando pelo Marquês de Pombal, os portugueses gastaram o plural: acreditámos!, superámos!, ganhámos! Aquele sal dos heróis do mar que Padre Vieira lançou no futuro, como seres escolhidos. Faltava Salvador responder ao fim da noite: epá, qual herói! Então, talvez ontem se tenha finalmente acabado Alcácer-Quibir.

Alô Dom Sebastião, que a gente saiba, meu nêgo, você não foi à Bahia. A não ser que tenha reencarnado em Caetano Veloso. Eu tinha uma vaga suspeita, mas desde que vi o vídeo de Caetano assistindo à Eurovisão, abrindo as vogais de Sálvádor com aquela preguiça, delícia de sotaque, tudo pareceu ligado. Quero que Sálvádor ganhe porque ele é bom demais, disse Caetano. E, depois de ganhar, Salvador disse que bom demais era o vídeo de Caetano. Salvador Sobral ainda não cantou na América do Sul, imaginem se for à Bahia. De certa forma já é um novo baiano, veio dizer a Portugal: acabou chorare.

Este 13 de Maio de 2017 tinha tudo para ser o conúbio dos três F do Portugal salazarento, com direito a tolerância de ponto do estado laico. Mas mesmo sem fé em Fátima, Futebol e Fado, portanto sendo três vezes minoria, eu diria que ontem se quebrou o feitiço, Portugal não está condenado e o quarto F de Salvador na conferência de imprensa é sinal disso: um foda-se para onze séculos de lamento!

Versão optimista, para celebrar estar viva depois de 15 horas de TV em directo, com vários canais abertos no computador, já que não tenho TV há uns 20 anos, e o SAPO 24 me pedira esta crónica. De outro modo, como saberia eu que Fátima Campos Ferreira explicou o Queijo da Ilha no avião do papa? Ou poderia ter revisto colegas de faculdade a cantarem “Amar pelos Dois”? Para não falar de quando o “caneco” do Salvador ficou nas mãos do Malato, meu ex-camarada de rádio pirata. Ou quando as hordas benfiquistas deixaram os petardos para cantar Salvador. Se Francisco não dormisse já, lá no Vaticano, imagino que até ele trauteasse: “Meu bem, ouve as minhas preces...”

Um milhão de fiéis na Cova da Iria, segundo José Rodrigues dos Santos, meio milhão segundo o Vaticano. Duzentos mil benfiquistas no Marquês segundo a PSP. Incontáveis milhões fãs de Salvador Sobral, além da canção, além do S.O.S. Refugiados, além até de ele estar à espera de um novo coração, nem que seja só por ser o português mais fixe desde 1143.

Paulo de Carvalho está feliz, asseguraram-me os rodapés da TV, Simone de Oliveira idem. Entretanto, a Coreia do Norte disparou um míssil balístico e também apareceu na tela. O Brasil não, mas continuava de luto por Antonio Candido, e em luta, em geral. Dos palestinianos também nada, continuavam presos em geral, enquanto o governo de Israel fechava TV e Rádio públicas. Esta última parte acabou por aparecer na Eurovisão, porque o bravo que anunciou a votação de Israel disse que seria a última vez antes do fecho. Muita gente não entendeu, os apresentadores em Kiev não comentaram.

Mas, se Salvador foi proibido de repetir a blusa S.O.S. Refugiados, não se imagina que os apresentadores fossem comentar Israel. De resto, toda a gente que deu 12 pontos a Portugal parecia dizer que Portugal nunca foi tão fixe. Tem um PM que até nem reza mas respeita Fátima, e vai a Fátima e volta para o Benfica e manda parabéns a Salvador, já não falando de ser babysitter de João Miguel Tavares, e de o governo ter sido viabilizado pela esquerda numa Europa tão inclinada para o outro lado, mesmo que a esquerda mais à esquerda ache que não é nada de esquerda, e claro que tudo isto parece um problema de luxo, por exemplo aos meus amigos brasileiros. Já não falando que Monica Bellucci pode ser vista em Alfama, Michael Fassbender também comprou casa lá, o pão está cada vez melhor, mais os grelos salteados, o peixe que a gente sabe, o polvo, etc, etc, embora, claro, as tascas a que a gente ia já não vai porque tem de esperar duas horas para comer, e os bairros onde a gente morava vai deixar de morar, e vamos todos para a Rebelva, enquanto um T1 não subir ao meio milhão de euros, aí mudamos de distrito, e pronto, Lisboa fica toda para a Eurovisão, até porque de fora da Europa é mais difícil entrar. O “Guardian” hoje até diz que a língua portuguesa “é muito possivelmente a mais adorável” para cantar canções como “Amar pelos dois”.

Os mouros sumiram com Dom Sebastião em Alcácer Quibir e não houve um Gama que lhes pegasse fogo de castigo, como antes. Mas hoje somos campeões europeus, e tetracampeões, e temos bolhas nos pés, e dormimos no carro, apanhámos chuva, sentámo-nos no chão a ver um ecrã com o papa, só para estar no mesmo lugar que ele, e comprovar como ele é o papa do povo, como é querido. Não fui a Fátima, não dormi no carro, nem sequer conduzo, mas comprovo que ele é querido porque passei uma semana no Rio de Janeiro em 2013 entre três milhões que o seguiam. Mais querido ainda em Portugal depois de fazer santas as primeiras crianças não-mártires na história da Igreja Católica.

Portanto, mesmo sem Rodrigues dos Santos ou o Vaticano me terem garantido isso, eu diria que não há um cidadão no mundo que não queira vir a Portugal, ou mesmo para Portugal. O que é um T1 a meio milhão de euros com este sol, estas praias, estes pastéis de nata, esta gente simpática, cada vez mais alta, cada vez mais bonita, e, como se vê pelo Salvador, supercoool. E não há terrorismo, e há sardinhas assadas, e toucinho do céu, e barrigas de freira (estes portugueses!). Já não somos pobretes & alegretes, mas qualquer Europeu qualquer Tetra, qualquer canonização nos deixa felizes, aí somos tudo no plural, fazemos história. Venham os Jogos Sem Fronteiras, os Óscares, o Nobel (e porquê só um?). Até os comemos.

O Salvador bem sabe que se calhar amanhã já ninguém se lembra, que tudo passa, esquece e cai, que hoje é fogo de artifício e amanhã debaixo do viaduto, e mais os refugiados que não cabem, ainda que o papa tenha recebido aquela família do Iraque que passou pela Síria e muito antes veio da Palestina, tal como abraçou aquele menino que terá sido curado pelos pastorinhos agora santos, tal como abençoou o bebé vestido de papa que nasceu prematuro. Tanta dor, tanta entrega, tanta gratidão no meio daquele milhão ou seria meio milhão? Seja como for, via-se que não cabia mais ninguém, tanto que muita gente ficou de fora, dizendo que mesmo assim valia a pena porque Francisco fala como se abraçasse um milhão, com aquela voz tão macia de argentino a falar português.

Um milhão! 10% por cento da população portuguesa!, sobressaltou-se Rodrigues dos Santos. E eu pensei, desculpem o incómodo, que, se eram um milhão ali, Portugal tirou seis vezes mais pessoas de África como escravas. E se eram meio milhão, pensem em 12 vezes mais pessoas do que todas aquelas que cabiam no ecrã das televisões, lá na Cova da Iria. 12 Covas da Iria de africanos escravizados, talvez 2 Covas da Iria de ameríndios mortos. Que lindo era que Portugal tivesse o seu 13 de Maio de puro reconhecimento pelos que sofreram a maior violência conjunta da história portuguesa, e até hoje são memória e sangue em milhões de descendentes, presente e futuro. Não haverá transformação sem isso, Portugal será só um país de adaptados. E, no exterior desse discurso, os inadaptados.

Meu bem, ouve as minhas preces: somos bons e maus, tão especiais como iguais a todos, Dom Sebastião não voltará nem disfarçado de agente da Remax, somos gente como a gente, não mais brandos, não mais incapazes, não mais escolhidos, gente que será melhor quanto mais olhar para trás e para dentro, em vez de pedir favores baratos à santinha.

Ah, o Portugal remendado de há cem anos em que crianças de 7 e 8 anos cuidavam de rebanhos e morriam da pneumónica. E o Portugal que acha que os artistas são bestiais quando ganham as taças, porque fora isso os discos não vendem, os concertos não vêm, mas é sabido que não fica bem pensar em dinheiro. Portugal de 2017 não é o de 1917, todos podem votar, trabalho infantil é crime, aborto e casamento gay são legais, o nosso PM não canta a liturgia mas dá tolerância de ponto porque os católicos são a maioria. E quem não se comove com uma maioria comovida? A questão não é se acreditamos, a questão é que eles acreditam, seja Fátima, Futebol ou Fado. Isso, em si, existe, é poderoso, uma força. Agora pensem nessa força noutras direcções: faria diferença a muitos, vivos e ancestrais.

Talvez afinal Dom Sebastião seja só isto, um rapaz que primeiro cantou entre jactos de fogo, unicórnios, gorilas, unhas pontudas com ganchos e guinchos no lugar da música. E enfim, já livre daquele caldeirão do apocalipse, cantou melhor do que nunca ao lado da irmã, compositora da canção. Cem anos separam estes dois pares de irmãos, Jacinta e Francisco, Luísa e Salvador. Uma diferença abissal do mundo em que os pastorinhos (pouco) viveram e o rapaz que por cantar “Meu bem, ouve as minhas preces” não deixa de ter o quarto F na ponta da língua, e que sabe que calhou ser neste 13 de Maio, mas podia ter calhado noutro dia.