Todos os seres humanos falam uma língua — e, muitas vezes, mais do que uma língua.

Todas as línguas humanas usam um conjunto limitado de sons, sons esses que não significam nada por si, mas que se conjugam para criar palavras com significado − e todas as línguas têm regras para dar forma a essas palavras ou ligá‑las de maneira particular em sequências (a que normalmente chamamos frases).

Todos os seres humanos aprendem as línguas que os rodeiam nos primeiros anos e todos os seres humanos estão igualmente preparados, à nascença, para aprender qualquer língua.

A linguagem humana é, nesta perspectiva, universal.

Por outro lado, os seres humanos falam muitas línguas diferentes. As línguas variam entre grupos e, mesmo dentro de cada língua, há muita variação — aliás, mais variação do que parece à primeira vista a quem está habituado a falar línguas com norma escrita.

Mas porquê esta variação? Não seria possível que a linguagem fosse comum a toda a humanidade? Que uma palavra ou uma regra gramatical, uma vez inventada, se mantivesse inalterada e passasse de cérebro em cérebro até ser usada por toda a humanidade? Talvez seja logicamente possível, mas não é − claramente − o mundo em que vivemos.

Vejamos algumas razões para haver mais do que uma língua no mundo.

1. Ninguém decide previamente que palavra vamos usar para algo novo

Imaginemos um mundo onde a humanidade fala uma só língua. Nesse mundo monolingue, alguém descobre um animal novo. O nosso descobridor dá um nome arbitrário (como todos os nomes) à sua descoberta: dali em diante, o animal chamar‑se‑á «elom». Caça o pobre animal e leva‑o até à sua tribo, onde todos ficam contentíssimos. O elom é delicioso bem assado no fogo (tecnologia que a tribo tinha descoberto umas semanas antes). Dias depois, a nossa tribo encontra outra tribo. Contam, entusiasmados, a descoberta do elom. A outra tribo fica baralhada e diz‑lhes que aquele animal se chama ganim! Já andavam, aliás, a comer ganim assado há muitos anos.

E agora? Elom ou ganim? Como manter a unidade da língua mundial?

É impossível.

Cada tribo vai continuar a chamar ao animal o nome que inventou: elom ou ganim. Mesmo que aquelas duas tribos chegassem a acordo (e não chegariam), uma terceira tribo poderia nem vir a saber que o animal que anda a comer tem outro nome na tribo da floresta ao lado. Como a humanidade nunca viveu como uma só tribo, nunca poderia ter uma só língua, a não ser que essa língua fosse muito limitada e inflexível. Ora, a linguagem humana é flexível e, para isso, tem de aceitar novas palavras e permitir a dispersão, porque é impossível uma reunião de toda a humanidade para discutir que palavra usar para cada situação nova que encontramos. Multipliquemos este processo pelas descobertas e invenções de cada tribo e temos palavras diferentes. Multipliquemos pelo número de tribos do mundo e percebemos uma das razões por que se multiplicam as línguas. Estou a concentrar ‑me, só para facilitar o exemplo, no léxico. Mas o mesmo se aplica à sintaxe e a todos os aspectos da língua.

Além desse facto óbvio de vivermos em grupos diferentes, que podem ter de dar um nome diferente a algo novo, há outro facto inescapável da língua: a língua muda naturalmente, num processo raramente consciente. Se quisermos pensar um pouco melhor na questão, imaginemos que a tribo original se divide em três. Anos depois, uns dirão elom, outros dirão alom, outros dirão alomi… Em breve, teremos três línguas. Mesmo quando começamos com uma só língua, rapidamente encontramos divergência linguística se houver separação entre os falantes. Podemos até imaginar que as três línguas ganham maneiras diferentes de expressar o plural:

  • Duplicação: «elom‑elom»;
  • Partícula: «xi alom»;
  • Terminação: «alomis».

Tal como as pequenas alterações nos primeiros segundos do Universo criaram galáxias inteiras, pequenas alterações iniciais − por influência de outras línguas ou de modas ou da particular composição de falantes com determinadas tendências ou histórias pessoais − criam línguas futuras. Esta criação não é planeada. As palavras e a gramática de cada língua vão surgindo através da interacção entre os falantes. As línguas, ao longo dos milénios, nunca tiveram um qualquer Conselho Superior da Língua a determinar quais são as palavras a usar e as regras a aplicar.

(Nos últimos séculos, num punhado de línguas, houve algumas tentativas no sentido de regulamentar de cima para baixo as línguas, mas com pouco êxito − e mesmo essas academias raramente inventam palavras de raiz: apenas escolhem entre palavras já existentes. As línguas lá continuam como sempre, avessas a um controlo demasiado apertado.)

Neste aprender constante das línguas e no seu uso colectivo pelas várias gerações − e se as línguas tiverem sido inventadas pelo Homo erectus, já vamos em mais de 60 000 gerações a usar a linguagem humana −, há processos em que ninguém repara, mas que vão também garantindo uma mudança gradual e inevitável de todas as línguas, mesmo que sejam faladas por um grupo isolado (e raramente o são).

2. Os falantes equilibram a expressividade com a economia de esforço

Uma das razões para a mudança é a tendência dos falantes para a economia sonora: os sons vão ‑se simplificando ou caindo ao longo dos séculos. Esta tendência é compensada, por outro lado, pela necessidade de garantir a comunicação e pela tendência para a expressividade. Queremos dizer o mais possível, com o menor esforço possível. Esta é uma característica compreensível de seres com muito para viver e um mundo intenso à sua volta.

Podia ser de outra maneira? Podia, mas a espécie seria outra e a linguagem que utilizaria seria muito diferente. Não nos preocupemos. As línguas estão sempre a compensar o desbaste através de redundâncias e outras estruturas que asseguram a comunicação — como a possibilidade de expressar o plural no artigo e no nome ou as preposições que substituem o sistema de casos no português e outras línguas latinas.
(Os processos que aqui descrevo estão explicados de forma detalhada no livro The Unfolding of Language, de Guy Deutscher.)

3. Uma nova geração aprende os hábitos linguísticos da geração anterior

Parece haver uma constante criação de novos hábitos linguísticos dentro de uma comunidade de falantes.

Quando as crianças aprendem a língua dos pais, aprendem ‑na com tudo: regras antigas, manias que a geração dos pais inventou… O cérebro de uma criança refaz o sistema linguístico que está no cérebro dos pais sem que ninguém lhe ensine as regras. Ao aprender a língua, as crianças usam a analogia, limpando irregularidades e tendendo as regras mais gerais − os pais notam e, habituados às irregularidades, corrigem as crianças, garantindo a sobrevivência das irregularidades. Na nossa própria língua, é normal ouvir uma criança a dizer «já está fazido», em vez de «já está feito», usando a conjugação mais regular. Com o tempo, as irregularidades também são aprendidas. (Uma vez por outra, estas analogias acabam por se infiltrar, limpando um canto da gramática.)

Com o passar dos séculos, e mesmo com o desbaste sonoro, a língua torna ‑se mais complexa. As línguas que ficam isoladas parecem tender para a complexidade gramatical, como vemos no caso do navajo, que só tem verbos irregulares, ou do archi, falado no Cáucaso russo, que consegue ter 1 502 829 formas para cada verbo.

É sempre assim? Então por que razão o português tem um sistema de casos muito mais simples do que o do latim? Por vezes, quando uma língua se expande por um território muito grande ou quando tem de ser aprendida por um grande número de adultos, leva um desbaste gramatical significativo. Foi o que aconteceu com o latim (na boca dos povos sob domínio romano), com o inglês (na boca dos invasores viquingues) e ainda com o persa e com o mandarim (e muitas outras línguas).

4. Todos os falantes são diferentes

A aprendizagem das línguas pelas crianças é extraordinariamente eficaz, mas não é um sistema perfeito. Os seres humanos não são robots de programação exacta. Afinal, não há um cérebro igual. Não há um corpo igual. Somos todos subtilmente diferentes. Mais: as circunstâncias em que ouvimos a língua dos nossos pais é diferente de pessoa para pessoa. As conversas, as palavras que ouvimos − não há ninguém que faça o mesmo exacto percurso. Cada falante tem a sua história e aprende uma língua muito pessoal − os linguistas têm, aliás, um nome para essa língua pessoal: o idiolecto. Por outro lado, se cada pessoa fala de maneira particular, a verdade é que cada língua tem regras − e os falantes notam quando outra pessoa não cumpre uma regra. (Não falo das regras de ortografia ou de certos tabus − falo, por exemplo, disto: se um português disser «Vou com praça!», quem o ouvir estranhará. O sistema que aprendemos leva‑nos a aceitar umas frases e a recusar outras. Mais uma vez, este sistema é subtilmente diferente em cada cérebro − há frases que podem acordar a sensação de erro num falante, mas não noutro.)

Desta luta constante entre o menor esforço e a máxima expressividade, pontuado pela nossa capacidade para copiar a geração dos pais e agitado pela tensão entre os vários idiolectos e a língua, surge um sistema sempre instável, com muito de irregular. Muitas destas mudanças encontram resistência. Algumas desaparecem, outras tornam ‑se parte da língua.

Sublinho: a mudança no tempo acontece porque existe, inevitavelmente, variação entre os falantes a cada momento. Os falantes dizem cada som de forma ligeiramente diferente – temos bocas e gargantas diferentes e ouvimos as palavras também de maneira ligeiramente diferente. Se pedirmos a cem pessoas para dizer a letra «e» e se analisarmos com atenção cada som, veremos que são todos ligeiramente diferentes. E, no entanto, reconhecemos essa nuvem de sons diferentes que saem das bocas dos falantes como o mesmo som, o que nos permite construir palavras que partilhamos com os outros – as línguas vivem nesta permanente tensão entre o que é individual e o que é colectivo. Ora, essa nuvem de sons vai mudando ao longo do tempo – e no espaço. Os sons que ouvimos em determinada época para representar a mesma letra – uma letra será a representação gráfica dessa nuvem – não serão os mesmos. Usando os termos comuns na linguística, a nuvem de fones em redor de cada fonema vai mudando ao longo do tempo. Pense o leitor na miríade de maneiras de dizer o som «v» em todo o país. Se reparar bem, há muitas leituras possíveis. Pois bem: os sons mudam, mas continuamos a reconhecer o mesmo fonema, ou seja, a mesma unidade.

Este é um facto das línguas pouco conhecido e muito interessante: a mudança ao longo do tempo acontece porque existe variação entre os falantes – e isto acontece inevitavelmente, porque não há dois falantes iguais, com corpos iguais e vidas iguais. Falo de algo concreto, físico: cada som é dito de maneira diferente porque as gargantas e as bocas de cada falante são diferentes – e a maneira como aprendemos o som também é sempre diferente – somos todos ensinados por um conjunto de pessoas diferente. Ora, as tendências de determinados falantes ou regiões vão ganhando força, substituindo as tendências de outros falantes ou regiões – num jogo muito complexo e imperceptível ao «ouvido nu», este ou aquele som são trazidos para a frente do palco linguístico.

Um exemplo concreto: o som «tch» era muito comum no país inteiro. Por caminhos que são impossíveis de reconstruir, começou a recuar, a ser substituído pelo som «ch», que já existia, mas era usado apenas em certas palavras. Desta forma, perdeu‑se a distinção que ainda hoje vemos, na ortografia, na diferença entre a letra «x» e o dígrafo «ch».

5. As línguas influenciam‑se umas às outras

Uma língua muda porque não é usada por máquinas − mas também por influência de outras línguas. Uma tribo isolada é uma ilusão − até nesse mundo antigo as tribos encontravam‑se, conversavam, misturavam ‑se mais do que a ideia idealizada que descrevi acima faria crer. Uma língua são as palavras que a compõem e as regras para mudar essas palavras e para as pôr numa ordem particular. Assim, imaginemos uma tribo ali a cirandar pela zona do que é hoje a Itália e que chama a um rio «xa sart» (estou a inventar). O «xa» seria um artigo e «sart» seria «rio». Pois, a tribo divide‑se em duas. Dois séculos depois, encontramos uma das tribos na zona dos Pirenéus. Chama ao rio «xe sarto». A língua mudou. Já a outra tribo estará ali nos Balcãs e chama ao rio «sartxa». O artigo ficou no final da palavra. Porquê? Talvez por influência de outra tribo das redondezas, que fala uma língua muito diferente, mas em que os artigos vêm depois dos nomes.

Todas as línguas têm uma gramática − e esta gramática faz‑se de elementos que existem numas línguas e não noutras e podem funcionar de maneira diferente em cada uma delas. A existência de artigos, os tempos dos verbos ou a falta deles, o sistema de pronomes, as construções proibidas, as palavras consideradas sagradas ou proibidas, a maneira como os verbos se conjugam para criar tempos compostos, a ordem típica das palavras na frase, os géneros dos nomes, a existência de um, vários ou nenhum plural, a maneira de expressar carinho e um grande et caetera – tudo isto pode mudar e muda de língua para língua. Não é só o vocabulário – não, a ideia um pouco ingénua de que para saber uma língua é preciso apenas decorar palavras é fácil de desmontar depois de alguns minutos a tentar aprender outra língua.

Digo ainda isto: as línguas das tribos divergiam, mas nunca estiveram isoladas. Sempre houve contactos entre pessoas de várias línguas. Sempre houve gente a aprender várias línguas. Estes contactos levam a interferências, mortes de línguas, misturas, complicações. Esses milhares de anos antes da escrita representam uma História de conquistas, vitórias e derrotas que eram transmitidas de geração em geração, pelas línguas que já não existem, histórias que hoje já ninguém pode reconstruir, mas cujo ritmo ainda se nota nas nossas próprias histórias, medos e paixões.

(Crónica baseada em capítulo do livro História do Português desde o Big Bang.)

Marco Neves | Professor e tradutor. Escreve sobre línguas e outras viagens na página Certas Palavras. O seu livro mais recente é História do Português desde o Big Bang.