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(1) Literatura com (2) palavrões

Caiu o Carmo, a Trindade e os Armazéns do Chiado: um livro recomendado para o ensino básico vinha com palavrões e, pasme-se, práticas sexuais que nem todos apreciam.

Depressa o tiro foi corrigido e quase conseguimos ver as faces ruborizadas de quem tinha recomendado tal obra nos comunicados a que o caso deu origem. E, sim, as passagens que todos andámos a ler nas notícias eram, de facto, um pouco excessivas para a idade.

Eram passagens excessivas — mas entre os indignados ouvi argumentos muito estranhos. Encontrei quem gritasse contra os palavrões em geral, como se fossem uma modernice — ora se há palavras antigas são exactamente os palavrões. Outros defenderam que os escritores nunca devem usar palavrões porque a literatura é coisa que se quer muito limpa e donzela... O que só pode ser sinal de que há muita gente que não gosta de literatura. Porque se gostasse, já teria lido uns quantos livros. E se tivesse lido, já teria dado com uns quantos palavrões.

Por outro lado, há que dizer que, como estratégia para incentivar a leitura, o caso foi muito bem esgalhado. É que nunca deve ter havido tanto puto a ler aquele livro como agora. Só tenho pena de tal obra nunca me ter passado pelas mãos para agora poder dizer se gosto ou não e se aqueles palavrões estão lá a fazer alguma coisa ou só estão a atrapalhar. [Pergunta inocente: o verbo «esgalhar» pode dizer-se?]

(3) Indignações no (4) Facebook

No Facebook, já todos percebemos que a coisa funciona mais ou menos assim: acontece qualquer coisa e temos a primeira onda de indignação. Logo a seguir, vem a onda da indignação com os indignados da primeira onda. A terceira onda costuma ser a onda dos indignados com o facto de haver indignados no Facebook. Enfim, cada um de nós lá anda a tentar surfar a onda que estiver mais a jeito.

Não sejamos cínicos: o Facebook é um interessante palco de discussão pública. Não estou a ser irónico: já tive conversas profundíssimas naquele antro. Alguém imaginava que tantos quisessem discutir o que é a literatura como aconteceu no momento em que Bob Dylan ganhou o Nobel? E já repararam na forma serena e estimulante como os temas da actualidade são discutidos? (Esta última frase já tinha uma pontinha de ironia, sim senhor.)

(5) Mentiras e (6) pseudociência

Ora, se o Facebook é campo de indignações sem fim, também é verdade que sempre houve indignações a monte. E outra coisa que também não é de agora é a chamada conversa da treta. Mas a quantidade, a velocidade, o ritmo a que tudo se passa no mundo bem real do Facebook... Ah, sim, isso é bem diferente.

Mas lembrem-se das antigas tretas: as pulseiras magnéticas, as cartas de tarot, os bruxos que dobravam colheres... — e, nos últimos anos, as conversas infindáveis sobre nutrição, em que este ou aquele apresenta uma qualquer dieta mal-amanhada como verdade científica. Só que “ciência” não inclui na sua definição “larachas engraçadas sobre alimentação”. Também aqui estamos perante “pseudociência” — uma daquelas infecções que o Facebook teima em transmitir.

(7) Ciência em livro

Lembrei-me disto porque temos ouvido falar tanto de notícias falsas, distorções, mentiras e manipulações... E é verdade que é difícil orientarmo-nos: há tanto número, tanto estudo, tanta gritaria! É sobre o aquecimento global, sobre as vacinas, sobre os medicamentos...

Pois a solução também é ler — há boas obras de cientistas a sério que são mais do que legíveis: dão para rir e não é pouco. Algumas até andam por aí em português!

*

Nesta crónica que começou com palavrões e literatura, acho que posso acabar com uma sugestão de leitura diferente, sem palavrões de nenhum tipo:  Pipocas com Telemóvel e outras Histórias de Falsa Ciência, de David Marçal e Carlos Fiolhais. Para quem quiser ouvir uma entrevista de um dos autores sobre muitas das tretas que nos enganam, fica aqui a entrevista que, há poucos dias, David Marçal deu à Antena 3.

Marco Neves é autor do blogue Certas Palavras. Publicou há poucas semanas o seu segundo livro, com o título A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa (Guerra e Paz). É tradutor na Eurologos e professor na FCSH/NOVA.