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Porquê um talk-show no YouTube? Foi por opção ou falta de espaço [na TV]?

As duas coisas. Nunca tive um convite para ir para a televisão e não vou estar à espera que os convites caiam dos céus. Por isso, vou eu fazer as minhas cenas. Além disso, o YouTube faz todo o sentido hoje em dia: cada vez se consome mais Internet e conteúdos na Internet, pelo que para nós [Diogo Faro e a equipa] fez todo o sentido irmos para o YouTube e pensarmos nisto para o YouTube. A própria linguagem [do programa], é um talk-show, ok, mas a [sua] linguagem é “de Internet”, com cortes mais rápidos, com mais grafismos, com mais coisas que prendem a atenção das pessoas. (...) São seis episódios temáticos. Começa com o Carnaval e as viagens de finalistas, que é já este domingo [hoje]. O Carnaval foi há pouco tempo, por isso ainda vamos gozar um bocado com as coisas que se passaram – e depois vamos ter coisas como o machismo e o feminismo, a liberdade de expressão ou coisas muito mais leves como dietas e ginásios. Os temas vão ser muito variados. Tentámos [também] desconstruir [o formato “normal”] de talk-show, tudo “certinho e bem feito”. [Tentámos] quebrar um bocado a coisa no sentido de: estou eu à secretária, a apresentar, e os guionistas estão ao lado. E não são convidados, são guionistas. Estão lá a tirar apontamentos e a dizer: Diogo, agora disseste isto mal” e depois intervêm e dizem uma piada... É quase como se tivesse três sidekicks. E acho que isso é giro. De vez em quando também aparece o [operador de] câmara, que entra e faz umas coisas. Depois há também planos em que se vê o estúdio todo, mesmo fora do cenário... Pronto, a ideia é desconstruir... Além disso, vamos ter convidados: a Inês Castel-Branco faz lá uma cena connosco, o Ricardo Araújo Pereira [deu-nos] uma entrevista que acho que ficou muito boa.

E porque é que quiseste fazer isto? Porque é que não quiseste escrever outro livro ou fazer outra coisa qualquer?

Vou começar a escrever outro livro para a semana [risos]... Porque talk-show é o formato que mais gosto. Um dia também hei de ter um solo de stand-up e andar por aí, mas para já estou focado nisto. É o que eu tenho feito, mesmo ao vivo – nunca fiz um solo de stand-up, faço sempre talk-shows onde tenho convidados e sketches e rubricas, e faço stand-up pelo meio, [pelo que] agora queria que este formato ficasse [eternizado] em vídeo. Neste caso não na televisão, mas na Internet. Mas vai ficar bom! Isto está tudo bem feito, bem gravado, bem editado e poderia perfeitamente estar numa televisão qualquer.

E tens essa ambição [de estar na televisão]?

Tenho, tenho essa ambição. Mas o YouTube tem muito a ver com a nossa liberdade, a nossa liberdade criativa. [No YouTube] o programa é meu, faço o que eu quiser, digo o que eu quiser e não estou sujeito...

Às amarras da televisão?

Sim... Na televisão não podes dizer “isto”, não podes gozar com “esta pessoa” e o meu humor nem sequer é muito agressivo, não é humor negro.

Mas acabas por fazer um bocadinho de humor político. Eu acho que há pouco humor político em Portugal, poucas pessoas que escrevem sobre esse tema... Achas que é assim? Porquê?

Porque dá mais trabalho. É mais fácil fazeres só piadas sobre o Instagram e a maneira como a tua mãe aquece a lasanha. Não critico, são estilos de humor e eu também faço piadas dessas. Mas também gosto de ir para outros assuntos. Acho que o público que me segue gosta que eu consiga variar, que eu não faça só piadas com miúdas do Instagram – que eu também gosto de gozar –, nem que faça só piadas sobre o racismo e a homofobia – porque eu também gosto de “bater” nos homofóbicos e nos racistas –, mas que consiga ir variando. E [quanto a ser humor] político, não sei se o que faço é muito político, como eu não percebo por aí além de política, não me aventuro muito... Mas mais social, essas questões sociais...

Quando digo “político”, quero também dizer “social”, questões sociais.

Sim, claro. Isso sempre. Vamos falar [no talk-show] de machismo e feminismo, gozar um bocado com o neo-feminismo, que não é feminismo e liberdade de expressão... Esta conversa [que tive, para o talk-show] com o Ricardo Araújo Pereira foi muito sobre a liberdade de expressão e toda esta celeuma que há agora [à volta do tema].

Estás alinhado com ele? Ele tem opiniões bastante fortes sobre isso...

Sim, sou completamente defensor da liberdade de expressão... E o que aconteceu agora na Universidade Nova [polémica entre a Associação de Estudantes e uma conferência organizada pelo movimento Nova Portugalidade, na qual participaria o politólogo Jaime Nogueira Pinto] é uma vergonha para o país, é escandaloso. É algo que já tinha vindo a acontecer em algumas universidades americanas e inglesas e agora aconteceu cá. É inacreditável. E depois quem boicotou [iniciativa] acha que não, que aquilo não é censura. Quem decidiu cancelar isto não percebe que está a usar métodos fascistas para combater ideais fascistas.

Um bocado como lutar-se pela “sua democracia”?

Sim. Quase como: “Eu sou muito pela liberdade de expressão, desde que concordes comigo. Se concordares comigo, podes dizer tudo o que quiseres. Se não, se calhar já não vai dar...”

É um tema complicado, sei que já passaste por isso no Facebook, onde foste bloqueado... Mas agora não tem acontecido tanto.

É verdade. Não sei o que é que se passa. Ainda no outro dia pensei: “Não sou bloqueado há muito tempo”. É que não me dá jeito nenhum [ser bloqueado]. Estraga-me o trabalho, é chato. Mas às vezes as pessoas são burras: já fui bloqueado porque tinha uma crónica que era só a gozar com o Pedro Arroja [comentador do Porto Canal]. Ele foi altamente homofóbico, na altura, e eu fiz uma crónica [sobre a questão] e fui bloqueado. Mas a crónica era irónica, era como se eu vivesse na época medieval. Só que fui bloqueado por pessoas burras, pessoas que também são contra a homofobia mas que não perceberam a ironia e devem ter achado “este tipo deve querer queimar homossexuais numa fogueira”.

Mas voltando atrás: porque é que não fazes só humor sobre “lasanhas”, como disseste? Pergunto porque a partir do momento em que alguém começa a fazer humor sobre esses temas, está sempre mais exposto. O que é que leva alguém a fazer isso? Não é um elogio a ti, é um elogio a todas as pessoas que um dia tocaram em temas ditos sensíveis no humor: é preciso ser um bocado corajoso, concorde eu ou não contigo. Portanto, a pergunta é porque é que fazes isso e não estás só no teu canto a fazer piadas sobre o Instagram?

Há uma série de comediantes que ficam “aí” e é a cena deles e hão de fazer carreira. Mas em termos de ambição, [isso] não me chega. Não me chega. Eu acho graça brincar com o Instagram, mas não me chega. E não é que eu queira ser um comediante intelectual e revolucionar a sociedade e fazer grandes comédias que vão marcar a história do país. Não é isso. Só que não me chega. Não me chega fazer só piadas sobre como a minha mãe dobrou a roupa.

Não te sentes realizado?

Não me sinto realizado. Se não aprofundar um bocado os assuntos, não me sinto realizado. Não me chega. Não tenho essas pretensões, de ser um intelectual e ir parar ao “Governo Sombra”, se bem que o Ricardo [Araújo Pereira] também não não tinha quando começou, na verdade. Mas, sei lá, gosto de ler, de ver documentários, de estar informado e acho que a minha comédia acaba por refletir um bocado isso. Tenho interesses tão variados, que quando estou a trabalhar em comédia gosto de falar de várias coisas.

Então qual é a tua ambição?

Não tenho um plano bem definido...

Mas toda a gente tem uma coisa. Pelo menos uma coisa que gostava mesmo de fazer.

Sim, tenho. A minha ambição é ser o Anthony Bourdain (chef e autor americano, conhecido pelos seus programas em que viaja pelo mundo à descoberta da gastronomia de cada local) português.

É essa a tua ambição?

Sim. É ter um programa em que eu possa juntar humor e viagens, mas não com o objetivo de ir aos países e gozar com toda a gente... Gostava de ter um programa que não fosse de comédia, nos países, mas sim de viagens, apresentado de maneira leve, como eu apresento as minhas coisas.

Os programas do Bourdain são focados na comida. No teu caso seria mais a experiência?

Mais a experiência toda, sim, que passa sempre por comida. Uma das melhores coisas de viajar é experimentar a gastronomia dos sítios. Mas sim, para além disso, monumentos, festas... Aquilo que eu mais gostava era ter um programa que juntasse viajar e comer. É a minha ambição.

Por acaso não te imaginava um “foodie”.

Adoro “comidas do mundo”. O meu pai nasceu na Índia e sempre comi muita comida indiana. E depois gosto de tudo: tailandês, japonês, chinês, sul-americano... Tudo.

Então e qual é a próxima viagem que vais fazer? Um viajante normalmente tem sempre isso na cabeça.

Eu penso mais em viajar do que em fazer comédia... [risos] É verdade. Quando arranjo trabalhos em que sou bem pago começo logo a fazer contas: uma parte para a renda e com o que me sobrar marco logo uma viagem. Queria voltar à Índia porque adorei e quero muito, muito, muito lá voltar. Mas, sei lá, há tantos países para ver... Estou a pensar ir à América do Sul: Colômbia, Chile, Paraguai, Peru. Sei lá, quero ir às Filipinas, quero ir ao Japão, quero ir á Rússia. Quero visitar uma data de amigos meus que estão a viver na Europa.