Equipados de branco e vermelho sobre os ombros, eles colocam em campo um futebol total, com uma estratégia ofensiva, de dinâmica ativa: todos atacam, todos defendem. É rápido, é goleador, é uma lufada de ar fresco numa Liga dos Campeões envelhecida por um palmarés repetido e previsível dos suspeitos do costume. É assim o AS Mónaco.

Com a vitória desta quarta-feira sobre os alemães do Borussia Dortmund, a equipa do principado francês conquista um lugar nas meias-finais da principal competição de clubes ao nível europeu. Algo que os monegascos não conseguiam há 13 anos, desde 2003/04, ano em que chegaram à mítica final de Gelsenkirchen onde o FC Porto de Mourinho se sagrou campeão europeu pela última vez, na história do clube da Invicta.

Agora, este novo Mónaco carrega o fardo de 13 anos aquém do esperado, é mais de uma década em que o clube bateu no fundo, chegando mesmo à segunda divisão francesa, e que se viu obrigado a batalhar para regressar ao lugar histórico que lhe pertence: entre os maiores de França e da Europa.

Mas a equipa treinada pelo português Leonardo Jardim carrega outra responsabilidade, quase tão grande como a de vencer. Tudo porque a comparação é inevitável: o primeiro parágrafo deste artigo é a descrição do atual AS Mónaco, finalista derrotado na edição da Taça da Liga francesa de 2017, atual primeiro classificado da Ligue 1 e semi-finalista da Taça de França e da Liga dos Campeões. No entanto, tais palavras assentam que nem uma luva à turma holandesa do Ajax na época de 1994/95.

Falamos da equipa liderada por Louis Van Gaal, que venceu a Taça dos Campeões Europeus, após 22 anos sem ganhar a competição, com o peso nos ombros já distante de ter sido tricampeão europeu (1970/71, 1971/72 e 1972/73), os tempos áureos em que militava na equipa um jovem génio holandês chamado Johan Cruijff. No mesmo ano, os pupilos de Van Gaal conquistaram o campeonato holandês e a supertaça holandesa.

As semelhanças estão lá todas. Um treinador jovem, sobretudo nos grandes palcos, elogiado pelo mundo, que conjuga, em perfeita sintonia, uma armada de jovens cheios talento - Lemar, Mbappé ou Bernardo Silva são os Kluivert, Seedofr, Edgar David, Overmars, Jari Litmanen e os irmãos de Boer de 1995 -, com a sabedoria dos mais velhos - onde neste capítulo Raggi, João Moutinho ou Falcao são Frank Rijkaard e Danny Blind daquela geração de ouro do Ajax.

A isto junta-se o estilo de jogo, elétrico, movido pela força da juventude e pela garra, num futebol dinâmico e hiperativo onde a noção de sacrifício está sempre presente na cabeça de cada atleta. Foi no Ajax de Cruijff que nasceu a expressão “futebol total”, um estilo de jogo onde atacantes e defesas se misturavam em funções e em trocas de posição. Este Ajax foi o renascer dos tempos do lendário jogador holandês, e este Mónaco, não sendo uma ressurreição, é uma homenagem exímia a uma equipa jovem, de talento desmedido, guiada por um treinador que a passo e passo tem subido na carreira.

Depois do Dortmund, quem?

Sexta-feira a tômbola vai rodar e só há três adversários possíveis, cada um mais temível que o outro. São eles: Atlético Madrid, Juventus ou Real Madrid. Em teoria, qualquer um deste ‘tubarões’ seria favorito diante da equipa de Leonardo Jardim, mas este Mónaco fintou todas as teorias depois de ter eliminado o Manchester City de Pep Guardiola mesmo após ter perdido por 5-2 no Ethiad Stadium, casa do citizens.

Nas meias-finais desta competição os favoritismos começam a esbater-se e este Mónaco já mostrou que pode bater-se de igual para igual com qualquer ‘tubarão’. Regressamos à analogia anterior e aquele Ajax de há mais de uma década que encontrou na final da Liga dos Campeões, em Viena, um AC Milan composto por algumas das maiores estrelas mundiais. Falamos dos rossoneri liderados por Fabio Capello e onde atuavam jogadores como Baresi, Van Basten, Gullit, Sebastiano Rossi, Costacurta ou Paolo Maldini.

Um dia, quando este Mónaco começou a estar nas bocas do Mundo - com um ponta-de-lança de excelência recuperado, um equipa goleadora, um treinador ambicioso, um poço de talento jovem e na frente de todas as competições em que tinha iniciado a época - escreveu-se no SAPO 24 que talvez o destino de Leonardo Jardim fosse ser campeão. Agora, e em coerência com a analogia com o Ajax de 95 reformula-se o último parágrafo do artigo, "O fabuloso destino de Leonardo Jardim": O destino de Leonardo Jardim, pela forma como conseguiu comandar e manter os resultados com a alteração do projeto, como conseguiu ‘lapidar’ e exponenciar jovens talentos, só pode ser um: ser campeão europeu e devolver ao Mónaco a glória do passado.