Quando saio de Lisboa e me deparo com o resto de Portugal, ganho espanto contínuo por tudo isso que acontece fora da capital. Espanta-me a beleza humana que aparece, remota, no meio de quilómetros de arvoredo; como é que as pessoas chegaram a este sítio isolado e construíram aquela casa e aqueloutra? Como é que esta gente, longe do mundo, tem conversas e sorrisos? Como é que há jardins arranjados que não estão a compensar arranha-céus? Como é que tão primorosa pacatez pode ser tão pouco selvagem? Como é que há tanta vida em Marte, nestes satélites tão distantes do planeta urbe?

O grande problema desta minha sensação é que eu próprio cresci fora de Lisboa. Eu próprio já me senti fruto e raiz da ruralidade que agora tanto estranho. E não me descrevo como o rapaz que nasceu na província e se fez homem na grande cidade: fiz-me tudo na província, homem e pirralho, sabe-se lá por que ordem mais correcta.

O grande problema foi que chamei “resto de Portugal” a todo o país que não é Lisboa. Um sintoma alimentado pelos media, que tratam os sítios fora da capital com desprezo alienígena, com um desconhecimento profundo da cultura e uma total falta de senso geográfico. Já mil vezes ouvi chamar “lá no Norte” a terras como Leiria ou Coimbra... Céus (!), já ouvi jornalistas chamarem “Norte” a Castelo-Branco, essa altaneira terra duma Beira Baixa. Também já ouvi chamarem Norte ao Porto e derivados, como se as gentes do Minho e Douro vivessem num ponto cardeal em vez de casas, aldeias, vilas e cidades.

O grande problema, que antes atribuía à sobranceria dos alfacinhas de gema, pode bem ser uma lavagem cerebral que em mim descubro. É novo-riquismo com trejeitos cosmopolitas que excedem as suas competências. Não me entendam mal: eu amo esta Lisboa que adoptei e me adoptou. Mas também não me entendam bem, que (abram o champanhe – hoje é o dia em que quase cito Luís Filipe Menezes) a maquinação sulista e elitista está a desfavorecer Portugal. A centralização mediática reside na capital, e usa termos como “país real” para descrever o território extra-lisboeta, exactamente a parte do país que consideram irreal - espécie de anexo pitoresco, saloio ou macabro dum Portugal a quem bastam sete colinas.

É o grande problema do pequeno país.

Já fui conhecedor e manipulador do jugo que agora parece dominar-me. As primeiras entrevistas que me fizeram em jornais nacionais exploravam muito a minha proveniência tondelense. O berço numa desconhecida Tondela da Beira Alta conferia-me notas exóticas. Acima de tudo, dava-me uma narrativa de superação rural que bem aproveitei. Era a história do rapaz da cidade remota do interior a conseguir comunicar com os normais “homo sapiens sapiens olisiponenses”. Aparentava ser um grande feito, algo que não tardei a dilatar: exagerei no carácter remoto e provinciano da minha proveniência para que a superação parecesse ainda maior. Foi como se forjasse a história dum miúdo das distritais, e dos campos pelados, a marcar golos de belo efeito na 1ª Liga. E parece ser essa a cultura: Lisboa é 1ª divisão, praticamente isolada, o resto são caricatos campeonatos da INATEL. Pegando nesta última analogia, denoto a curiosidade da minha terra só se ter tornado conhecida quando o CDT , Clube Desportivo de Tondela, ascendeu ao 1º escalão do futebol nacional.

Não é absolutamente casual esta minha última comparação. Queria terminar a falar do CDT porque, sendo neste momento o estandarte mais visível da minha terra, é ele também um exemplo desse país que não é bem real: é bom demais para ser real. O Clube Desportivo de Tondela está no último lugar da classificação da 1ª Liga, com hipóteses muito reduzidas de alcançar a manutenção. Ainda assim, temos adeptos notáveis, pacíficos e apaixonados, muitos deles que conheço desde que me conheço. Na última jornada, desesperados por pontos, fomos perder a Guimarães, a casa do Vitória. No rescaldo, lia-se no Twitter oficial do meu clube “Parabéns pela vitória @VitoriaSC1922 Além do Rei, têm convosco a jóia da coroa do futebol português, a paixão dos vossos adeptos é única!”. Saudámos adversários que nos afastaram mais dos objectivos; celebrámos a História da terra deles e louvámos os admiráveis adeptos vimaranenses. Eu, que quase não durmo, adormeci orgulhoso.

Cantava o músico João Coração que “Perder com nobreza é empatar”, já eu acho que a nobreza abundante nada perde nem empata, tudo celebra, tudo goleia. Tinha de ser o fairplay beirão a abrir-me os olhos e enchê-los de saudade. Onde muitos podem ver lamechice, eu encontro as melhores qualidades dos meus, encontro as minhas melhores qualidades. Enquanto tivermos os exemplos mais bonitos como remotos, como rústicos, como provincianos, nunca conseguiremos centralizar a nossa riqueza.

A conta de Twitter do Vitória de Guimarães  respondeu com agradecimentos ao Tondela e chamou-nos de “melhores do mundo”. Em tempos de cartilhas, queixinhas, socos e ameaças, fica muito claro que o CDT não merece estar na 1ª divisão. No futebol e no país, somos claramente de um campeonato diferente. Citando o hino de outro clube: isso me envaidece.

Sítios certos, lugares certos e o resto

Os sapatos de um adepto do Tondela são, seguramente, sítio certo para se estar. Não precisa trocar de calçado, só de abrir a paleta do seu coração ao auriverde tondelense. Visitar o Twitter do clube é um bom primeiro passo para esses pés.

Largando o futebol, e provando que a minha Tondela é mais do que um clube na primeira divisão, ponho-vos a par da insuperável mesa beirã nos 3 Pipos. Face à infalibilidade do cardápio, ainda assim arrisco uma frase tão estranha que pode acordar agentes adormecidos: o arroz de costelas é uma obra-prima.

Outro sinónimo da minha terra, e da sua pequena grandeza, é a Associação Cultural e Recreativa de Tondela: a ACERT. Surge como breve nota de rodapé nestas minhas recomendações pois, se quisesse descrever-lhe a essência, precisaria de várias e sentidas crónicas.