São mesmo dois sentimentos desgostosos em conflito. Por um lado, estranho a conversa que parece querer estancar uma hemorragia imparável (jorrante de sangue falso): é meio descabido, isto de tentar resistir e contrariar a instituição de novas tradições, sobretudo se são típicas de outros países, sobretudo se são típicas do grande satã americano. Há tanta coisa que não nos é nativa, tanto precedente preceituador (não resisti à aliteração, nem ao abel-xavierismo) a que já nos rendemos, e há também tantas tradições nossas paras as quais nos marimbamos, que o coro concertado contra o Halloween se está a tornar num responso de resmunguice. Por outro lado, sempre que saio à rua por esta altura – e calhou andar pelo Cais do Sodré em plena noite das bruxas – é impossível conter a resmunguice que acabei de criticar. É uma relação de indumentária, na verdade: uma multidão adulta vestida de togas pretas, capirotes, chapéus de bruxa ou farrapos de zombie põe-me logo a calçar botas de elástico.

Se é um facto que o Halloween não tem raízes profundas em Portugal, a semana que passou parece consagrar o nosso país como terreno fértil para temáticas aterradoras. Nem foi preciso usar de muita imaginação para me aperceber que, imediatamente antes de se celebrar o Dia das Bruxas, passámos por uma Semana dos Fantasmas. Foram escritores-fantasma, bloguers-fantasma, licenciaturas fantasma, e até a suspeita de haver uma fantasma que não teve média para entrar em Medicina. Estranha-se a profusão de trajes negros - de bruxas e vampiros - que vi pelo Cais do Sodré; lençóis brancos com furos para os olhos seriam simultaneamente mais económicos e mais consentâneos com a actualidade.

Olhando para as recentes almas penadas, presumo que algumas se venham a esfumar muito em breve. Daqui a um par de semanas as licenciaturas falsas deixarão de assombrar seja quem for no Governo – a prova da efemeridade desses casos pode encontrar-se logo em Tiago Brandão Rodrigues, cuja excelente pronúncia já vai começar a ser mais solicitada para justificar o desinvestimento na Educação, e menos para falar de canudos de candonga. Também Maria Barros (a assombração que escreveu uma carta aberta ao Presidente da República queixando-se da falta de oportunidades para entrar no curso de Medicina) está condenada a ser rapidamente exorcizada, nem que seja por esse conceito tão em voga chamado “noção”. Pelos vistos a jovem Maria até existe (não é o suspeito fantasma jornalístico), mas nem isso a impedirá de continuar a ter pouca sorte no mundo dos vivos. É que, sendo dado adquirido que Marcelo Rebelo de Sousa leu todos os livros alguma vez publicados, ninguém nos garante que ele sequer olha para cartas abertas.

O fantasma que sobra vem engrossar redobradamente a temática do terror, até porque faz lembrar um cliché dos filmes desse género: aquele em que um personagem atemorizado e em fuga decide enfiar-se nos sítios onde está mais propenso a perigos. Com os escritores fantasma e os bloguers fantasma chegamos a José Sócrates, e falar desse ex Primeiro-Ministro é abrir portas à sensação de que nos vamos meter num sítio onde não devemos. Talvez por isso eu esteja decidido a fazer aqui a reflexão mais curta de entre todas as que escrevi no SAPO 24. Não é por falta de matéria que encurto a reflexão, muito pelo contrário. Com Sócrates, até as coisas de aparência corriqueira me dariam pano para mangas. Por exemplo: e se vos disser que o vasto público geriátrico que assistiu ao lançamento do livro “O Dom Profano” (o último cuja autoria Sócrates atribui a si mesmo) corresponde à imagem escarrapachada que eu imagino quando penso em pessoas que ligam para tele-tarólogas, ou compram máquinas de barbear da TV-Shop? Não é piada, é uma verdade subjectiva que objectiva uma opinião.

Para Sócrates reservo a reflexão mais curta porque já não me sinto com idade, saúde ou paciência para ter de me precaver no evidente e acautelar no óbvio. Não domino aquela disciplina na língua portuguesa que obriga a escrever “alegadamente” no final de cada frase, não vá o diabo tecê-las. Há uma lista infindável de indícios e intervenções que tornam o ex-Primeiro Ministro no catalisador perfeito de muitas coisas, nomeadamente a minha faceta justiceira. Mesmo assim, mantenho o objectivo de brevidade, até porque o que mais me mói se resume a uma pergunta muito específica.  Sou defensor das virtudes legais da presunção de inocência, mas também sei distinguir um punhado de areia nos olhos duma virtude legal. Por isso questiono: como presumir a inocência de alguém, quando isso implica darmos a presumir a nossa própria estupidez?

Há uma canção do Allen Halloween (o único Halloween português que aprecio) sobre um “dread de 16 anos”, em que ele equipara certo delinquente a certo Primeiro-Ministro. Mas não tem nada que ver com o que acabámos de falar. Alegadamente.

Sítios certos, lugares certos e o resto

Aqui na casa (pelos vistos assombrada pelos mesmos fantasmas), o Pedro Rolo Duarte liga a “ventoinha da memória mesmo em frente à lama”.

O Rui Miguel Tovar, que recente e valorosamente se demarcou de revisionismos desportivos, está a escrever no Observador o que pode vir a ser um clássico inviolável do jornalismo futebolístico.

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