A Impresa e a Microsoft lançaram a primeira aceleradora de startups para os media em Portugal em Julho de 2016, no âmbito do programa Ativar Portugal, da Microsoft. O SIM - Startups na Impresa para Media pretende desenvolver "ideias inovadoras (ou inovações sobre ideias existentes) na área dos media ou aplicável aos media" e estruturar "modelos de negócio sustentáveis no médio e no longo prazo". "Estou certo que surgirão projectos interessantes e rentáveis para o grupo", afirmou na altura Francisco Pedro Balsemão, CEO do grupo Impresa.

O SIM começou a receber candidaturas em novembro passado. Raul Carvalho das Neves, responsável técnico (CTO) da Impresa, dizia então que "o nosso intuito é pegar em empresas que já tenham algum caminho feito, que queiram melhorar ou fortalecer algum produto, queremos algo com resultados no máximo a dois anos".

Questionado no início de julho pelo SAPO 24, Raul das Neves confirma que o programa "surgiu na sequência de relações que temos vindo a estabelecer com startups ao longo do tempo. É uma forma de aumentar e formalizar esse tipo de relação e apoio". O mesmo obteve "cerca de três dezenas de candidaturas, para além de mais cerca de duas dezenas de empresas que contactámos directamente" e, "depois de uma análise mútua cuidada", acabaram por chegar a cerca de meia dúzia de projectos.

"Era o número máximo que queríamos ter numa primeira fase de forma a garantir que conseguíamos dar o acompanhamento devido aos projectos", diz, acrescentando que "neste momento temos quatro com planos de trabalho definidos em curso. Entretanto, temos outras três com as quais estamos a ajustar acções e planos".

O programa fornece um semestre "desde o desenvolvimento do produto e do negócio, ao aconselhamento tecnológico, lançamento no mercado e apoio ao crescimento". Pode "prolongar-se por novos períodos de seis meses, até ao máximo de dois anos" mas, ainda segundo o regulamento do SIM, "os participantes, embora mantendo o direito a explorar comercialmente os produtos ou serviços que forem por si desenvolvidos, conferem à Impresa e aos seu(s) parceiro(s) o direito de utilizar, de forma não exclusiva, mas gratuita, esses produtos ou serviços".

No mesmo sentido, os criadores não podem "vender os produtos/soluções desenvolvidas a outras empresas da área dos média em Portugal" durante três anos "após ter terminado a participação da equipa no programa", sob pena de terem de indemnizar a Impresa. Em síntese, quem aderir ao SIM não pode montar um negócio para a comercialização nacional do seu desenvolvimento até um máximo potencial de cinco anos.

Para Raul das Neves, a explicação para este cenário é simples: "se há alguma startup de tecnologia para media que considere determinante vender apenas em Portugal, o melhor é não perder mais tempo: no mercado global somos insignificantes e não é o mercado português que determinará o seu sucesso futuro". Assim, o SIM quer "apoiar startups que tenham como objetivo vender para empresas de media no mundo e dominar o mercado global nas soluções que desenvolvam".

Por outro lado, afirma o mesmo responsável, "procuramos ter algum benefício pelo esforço que fazemos ao longo de meses de apoio ao desenvolvimento da oferta dessas startups. Não seria justo nós colaborarmos na criação de uma oferta durante meses e no dia seguinte esta estar disponível em condições iguais para os nossos concorrentes directos nacionais. No entanto, somos flexíveis e as regras específicas a aplicar a cada startup depende do seu ponto de partida connosco e qual o nosso nível de envolvimento. Avaliamos caso a caso o que faz sentido para ambos".

Calendários não são fechados, propostas podem ser diversas

O CTO da Impresa considera que, apesar do calendário nos processos de candidatura, "estamos sempre disponíveis para que nos lancem desafios. Estamos sempre atentos e à procura de soluções inovadoras. E todas as startups que considerem que podemos ter uma parceria mutuamente interessante, estamos sempre disponíveis para conversar e encontrar oportunidades".

Isso foi visível nos resultados finais da recente terceira ronda da Digital News Initiative (DNI), um programa da Google para financiar projectos de media que, em Portugal, vai apoiar cinco projectos entre os quais dar 425 mil euros à Impresa para, com a startup GetSocial, "desenvolverem uma inovadora solução de Business Analytics para apoiar o modelo de negócio do [semanário] Expresso - centrado no cliente - cuja receita é proveniente, maioritariamente, do conteúdo pago e das assinaturas, explorando o forte património da marca em notícias e nos respectivos conteúdos com valor acrescentado".

Em termos de ligação entre o sector dos media e startups, a DNI confirmou também o financiamento de quase 390 mil euros ao +Perto, uma "aplicação móvel focada em jornalismo hiperlocal", inicialmente para Lisboa e Porto, que vai usar "tecnologias de geolocalização e de escrita automática para apresentar informações tais como o trânsito, meteorologia, desporto, cinemas e restaurantes em locais próximos, em paralelo com a respectiva cobertura jornalística". O projecto envolve o Público e as tecnológicas Priberam e Bright Pixel, uma startup dinamizada por Celso Martinho, ex-director do SAPO, lançada em 2016 com a Sonae Investment Management (Sonae IM).

Avançar para a IA ou a IoT

No final de Junho, a Microsoft lançou um novo concurso de ideias para startups, o Innovation Challenge, apostando em cinco indústrias, uma das quais os media, numa competição internacional que encerra a 30 de Julho próximo. No caso da comunicação social, o desafio é ter projectos em inteligência artificial, aprendizagem por máquina ou na Internet das Coisas (IoT), para melhor informar e entreter os utilizadores. A Impresa é novamente a entidade associada ao programa.

A aposta é, segundo Raul das Neves, "em áreas de desenvolvimento tecnológico que estão ainda em fases de pouca maturidade de aplicação", pelo que esperam "captar o interesse e lançar a semente que possa criar ofertas inovadoras e atractivas no mercado global de media", acreditando poder ajudar "uma ou mais startups portuguesas no seu sucesso internacional. O processo de candidaturas abriu agora".

Para o CTO da Impresa, actualmente "nota-se uma grande evolução" nas startups nacionais, com um "maior foco na oferta de valor, na capacidade técnica, em estar no mercado mais depressa e com maior objectividade. No setor específico de tecnologia para os media havia poucas iniciativas. Hoje existem mais e com maior nível de sofisticação: utilização das novas tecnologias disponíveis (por exemplo, 'machine learning', inteligência artificial), e das novas tendências de utilização multiplataforma e relação com as redes sociais".

Há também alguma confusão entre processos de incubação e de aceleração de startups. As duas iniciativas da Impresa e da Microsoft juntam características de ambos e isso não é estranho.

No recente relatório sobre "O Panorama das Aceleradoras de Startups no Brasil" explica-se que "existem algumas características semelhantes ou atividades realizadas pelas aceleradoras que também são fornecidas pelas incubadoras ou investidores anjo [capital de risco]. Esta semelhança se deve ao fato delas ajudarem a desenvolver novos empreendimentos".

"As aceleradoras diferem em vários aspectos", sendo que a maior possa ser "a duração limitada dos programas de aceleração em comparação à natureza contínua dos programas oferecidos por incubadoras ou investidores anjo".

Segundo o estudo, "enquanto as incubadoras tendem a nutrir novos empreendimentos dentro de um ambiente para dar-lhes espaço para crescer, as aceleradoras otimizam as interações no mercado, com a finalidade de auxiliar os empreendimentos a se adaptarem rapidamente".

A análise brasileira nota igualmente algo a que aceleradoras ou incubadoras têm em atenção, como o que acaba por pesar na eliminação de candidaturas. Por exemplo, entre os principais factores para uma startup não ser seleccionada, conta principalmente ter uma "equipa inadequada" para o desenvolvimento do negócio, seguindo-se à distância a "procura ineficaz" e a “falta de escalabilidade". Com menor preponderância, incluem-se ainda a pequenez do mercado ao qual o projecto da startup se dirige, porque a sua proposta "não resolve um problema relevante" ou por não se antecipar a obtenção de receitas significativas.

Ambiente mais favorável, com reconhecimento internacional

O mercado português tem sido considerado um bom ambiente para o desenvolvimento de startups. Numa recente lista, posicionou-se em quarto lugar (atrás de Vancouver, Berlim e Manchester mas à frente de Estocolmo), enquanto no mais alargado European Digital City Index 2016 se fixou na 24ª posição.

As limitações financeiras e os incentivos também diminuíram, nomeadamente com o Orçamento de Estado (OE) para 2017. Entre outros factores, apoia a "criação de empresas que desenvolvam atividades em setores com fortes dinâmicas de crescimento, incluindo as integradas em indústrias criativas e culturais, e ou setores com maior intensidade de tecnologia e conhecimento", onde se podem integrar os media. No entanto, como notam os autores do artigo, "a principal falha deste sistema, prende-se com o facto de não comparticipar custos com pessoal, tipicamente muito relevantes na fase de criação das empresas, em especial no sector de serviços" - embora existam benefícios fiscais para a contratação de jovens até aos 35 anos.

Uma história recente, com alguns falhanços à mistura

Ao olhar para as alianças entre grupos de media e empresas tecnológicas em Portugal, pode-se deduzir que são raras essas alianças. Mas convém saber que também não há um longo historial internacional, e que alguns dos maiores projectos até acabaram em falhanços.

2012 foi um ano de charneira. Surgiram iniciativas como os BBC Labs para startups tecnológicas, a competição Digital Challenge do Irish Times ou a aceleradora Matter Ventures. Também a Turner Broadcasting (responsável pela Time Warner e CNN) anunciou a incubadora Media Camp, "especificamente para startups no espaço dos media", que resultou em 27 empresas financiadas até encerrar em 2014.

O fundador do projecto, Balaji Gopinath, explicou então à TechCrunch ter enfrentado "desafios tanto internos como externos", apesar do "impacto na indústria dos media". "Não encontrámos a clareza e a direcção de que necessitávamos para prosseguir", declarou.

Direcção foi igualmente o que faltou, no início de 2013, quando o New York Times lançou a timeSpace, uma incubadora que apenas aguentou duas rondas de investimento e curadoria e apoiou apenas seis empresas.

O mesmo falhanço ocorreu à auto-denominada "primeira aceleradora mundial" para os media, a Media Factory, lançada também em 2013 por Mariano Blejman, um bolseiro do Knight International Fellowship. A Media Factory, com investimento de capital de risco, procurava não a associação aos media tradicionais mas criar "meios de comunicação a partir do zero", disse Blejman, considerando recrutar "cinco equipes de três jornalistas na América Latina interessados em começar novos meios focados em política e negócios" e com uma forte componente digital.

A empresa pretendia investir 75 mil dólares por proposta aprovada e ficar com 17% de acções das mesmas, tendo estas uma vocação forte para o empreendedorismo. Segundo Blejman, "no jornalismo na América Latina não se ensina muito sobre o empreendedorismo; te ensinam o ofício e o ensinam como era na época de prosperidade, quando os meios tradicionais funcionavam muito bem e o jornalista só se dedicava a escrever".

O objectivo do projecto não era "desenvolver tecnologia, nem plataformas, mas construir uma nova geração de empresas de media", focadas nos conteúdos. O projecto está parado e ele lançou um novo, HacksLabs, como programa acelerador de jornalismo de dados, que também não está disponível.

Apesar destes falhanços, a indústria dos media procura soluções diferenciadas para crescer até porque, como aponta um recente estudo sobre inovação nos media, realizado pelo instituto francês de sondagens Ifop junto de 246 profissionais com interesses comerciais no sector, é a Internet (por larga margem), a televisão e a publicidade exterior que ganham em termos de inovação, algo que a imprensa tradicional continua a não acompanhar.