Cantavam os Simian, no ido ano de 2002, muito antes dos Justice os terem remisturado e transformado num dos grandes temas da pop electrónica do novo milénio: we are your friends. É de amizade que se fala, também, quando o NOS Alive se enche para assistir, de perto, ao regresso dos Foo Fighters a um local onde já foram muito felizes – e onde também deixaram muito felizes muitos milhares de pessoas, tantos milhares quantos aqueles que esta noite se deslocaram, uma vez mais, ao Passeio Marítimo de Algés.

 

Uma amizade que parte sobretudo de Dave Grohl, de quem se escreveu já por diversas vezes, várias delas roçando o cliché, ser o homem mais simpático do rock n' roll. É como se a agrura de ter perdido um grande amigo demasiado cedo (Kurt Cobain) o tivesse levado a encarar a vida com uma atitude positiva ao ponto da peçonha. É ele a máquina por detrás dos riffs dos Foo Fighters, é ele quem estimula o público, é por ele que gerações atrás de gerações se juntaram numa noite ameaçando chuva forte só para ouvir temas como “Learn To Fly” ou “Best Of You” - que se arrastou durante sete gloriosos minutos em toada épica, braços e sorrisos elevados, pernas pairando sobre a poeira e desafiando a gravidade.

E é também ele quem se apresenta: «o meu nome é Dave Grohl, e estes são os meus amigos», refere, sobretudo para aqueles que nunca haviam visto os Foo Fighters ao vivo, e que aqui encontraram um daqueles espetáculos que os marcará para uma vida – mesmo que dentro de alguns anos cresçam, se assimilem na rotina diária, deixem de ouvir os norte-americanos após a descoberta de outras paragens musicais assaz mais gostosas. Os seus amigos, que é como quem diz: o lendário Pat Smear (que o acompanhou nos Nirvana e que, antes, havia entrado para a história do punk rock enquanto membro dos The Germs), o bonacheirão Taylor Hawkins, e os menos efusivos Nate Mendel, Chris Shiflett e Rami Jaffee, este último recém-entrado na grande família “oficial” que são os Foo Fighters.

 

Ao longo de pouco mais que duas horas e meia, os norte-americanos aproveitaram para tocar alguns dos temas que comporão "Concrete and Gold", o seu próximo álbum de estúdio, mas não esqueceram os clássicos. Para além dos temas supracitados, houve ainda “Everlong”, a fechar, “The Pretender” e “My Hero”, antes disso. Houve uma corda partida durante uma breve incursão por “Blitzkrieg Bop”, dos Ramones. Houve Alison Mossheart, dos The Kills, como convidada especial durante a interpretação de “La Dee Da”. E houve Grohl junto do público, mares de luzes a pedido como faróis no nevoeiro, e singles por vir na forma de cânticos de futebol e do hino nacional. Houve rock; de estádio, de rádio, de uma década (a de 90) aparentemente perdida para o tempo. Mas rock, ainda assim.

Convidada especial aqui, estrela rock de pleno direito quando pouco passava das dez da noite. Alison Mossheart passeou-se pelo palco principal na companhia do seu principal camarada de armas nos The Kills, Jamie Hince, impelindo aquele rock dançável e gostoso, de raiz bluesy com um forte travo a punk, com a sua voz meio sussurro, meio grito, elétrica a 100%. Foi "Ash & Ice", o seu último álbum, o mote principal de um concerto que foi o nono em Portugal e possivelmente o primeiro para quem só se aventurou no NOS Alive para apanhar os Foo Fighters. Talvez por isso o público não tenha correspondido ao seu rock como este o mereceria. Mas correspondeu q.b. aos The Cult, onde a redundância não impede a sua definição enquanto banda de culto, em especial para uma certa fatia da população que viveu os anos 80 e 90 onde a decadência, a droga e a destreza na guitarra dominava todos os aspetos da cultura pop. Muito provavelmente pela figura que é Ian Astbury, que impecavelmente vestido de escuro e com óculos a condizer foi provando que, no que toca a uma boa garganta, velhos são os trapos. «Long live rock n' roll», avisa...

 

Quem começou por avisar os festivaleiros foram os barcelenses Killimanjaro, que tiveram honras de abertura no palco Heineken – curado pelo radialista Pedro Ramos –, e que mostraram porque motivo são uma das bandas portuguesas da nova vaga com maior probabilidade de singrar “lá fora”. Está tudo nos riffs, inspirados pelos Black Sabbath mas contendo toda a energia do Minho inóspito, ou no fantástico entendimento entre guitarrista, baixista e baterista. Juraríamos que poderiam ter tocado de olhos fechados que soaria ao mesmo. Assim como houve quem tivesse fechado os olhos e abanado fortemente a cabeça em “December”, que para muitos é a grande canção dos Killimanjaro e para outros é “a música do anúncio”.

Das Savages, que já por diversas vezes atuaram em Portugal e sempre perante números consideráveis de melómanos, pouco se consegue dizer. É verdade que há ali qualquer coisa que impele dezenas de miúdos e graúdos a abençoar o que é expelido das colunas. Só não conseguimos é entender, apesar das mais diversas tentativas, o que será – se a postura endiabrada de Jehnny Beth, vocalista para dar e vender, se a toada negra com duas pitadas de ritmo que é fabricada pelas britânicas. É um pouco como assistir ao remake no feminino do mítico "Os Caça-Fantasmas": uma boa ideia no papel, uma execução lamentável e alicerçada no pós-punk abrasivo de bandas como os Birthday Party. Não havia necessidade.