O trono nunca assentou tão bem a Elza Soares. A cantora brasileira voltou a apresentar no Porto o manifesto feminista que dá pelo nome de “A Mulher do Fim do Mundo”, álbum realizado em parceria com jovens músicos de vanguarda da cidade de São Paulo – e outro do Rio de Janeiro – e que tanto tem feito para que, em pleno 2017, Elza volte a gozar de uma popularidade invejável, a mesma que tantas vezes lhe foi negada ao longo da carreira.

 

Elza já não é a jovem saída do “planeta fome”, conforme contou na sua primeira aparição de sempre na televisão brasileira, aos 14 anos. É mulher feita e orgulhosa, tanto com o ser mulher quanto com o ser negra, refletindo-o nas letras das canções que canta. A voz continua tão imaculada como se fora a primeira vez que se apresenta perante o mundo, e o tema-título do espetáculo que aqui mostrou age como um manifesto e, ao mesmo tempo, uma palavra de ordem contra a ordem vigente: eu quero cantar até ao fim, até que tal lhe seja permitido pelos grandes senhores e senhoras do poder, até que a morte isso permita.

Enquanto Elza Soares canta, uma multidão vasta absorve cada centímetro das suas palavras, não arredando pé do palco Super Bock numa das grandes enchentes deste terceiro dia do NOS Primavera Sound. Ela é a Mulher do Fim do Mundo, a figura bíblica que se ergue em oposição a todo o patriarcado, a garganta que representa todas as mulheres do mundo. A mulher que geme em orgasmo e não em dor, e que se recusa a corar sequer com essa ideia: chega de sofrer, gemer só de prazer. A mulher que dedica um tema a uma outra mulher, transexual, morta de forma cobarde há 11 anos na cidade do Porto: Gisberta. A mulher que, outrora vítima de violência doméstica (lembremos o casamento atribulado com o futebolista Garrincha), hoje impele todas as mulheres a denunciarem quaisquer maus tratos de que seja alvo: denuncia!. A mulher que do alto das suas oito décadas de vida ainda tem a capacidade de cantar como se só agora o tivesse começado a fazer. O trono cai-lhe bem, e o papel de súbditos só tem que ser aceite por nós.

Antes de Elza, depois da Mulher do Fim do Mundo

 

Antes de Elza, foi outra mulher, Núria Graham, a mostrar um indie rock coeso neste mesmo palco – com direito a uma versão ruidosa de “Toxic”, de Britney Spears –, seguindo-se os portugueses Evols, que apresentaram aquilo que têm vindo a criar em estúdio nos últimos anos, aliando o rasgar das guitarras à pop segundo os R.E.M. da década de 80. Óptimos, mas “rasgar” é a profissão dos Shellac, banda “residente” do Primavera Sound formada por um dos grandes nomes (especialmente pelo seu trabalho de produção) da música da década de 90 e inícios do novo milénio: Steve Albini. Novamente em registo best of, ainda que tenham faltado as tradicionais “Prayer To God”, “The End Of Radio” e mesmo a sessão de perguntas e respostas que os Shellac costumam manter com o público a meio dos seus concertos, a banda foi uma bela escolha para quem quis encontrar uma certa familiaridade no festival.

Shellac
Rita Sousa Vieira | MadreMedia

Fora do familiar, foi da novidade que se fez o resto da noite. Primeiro com o hip-hop em regime noise dos Death Grips, que após vários cancelamentos se estrearam finalmente em Portugal trazendo consigo a bateria endiabrada de Zach Hill, bem como o flow cortante de MC Ride, que ao longo de uma hora mal parou para respirar. Ele e o público: poucas vezes se viu tanto moshing no NOS Primavera Sound como no concerto dos Death Grips, que levaram milhares ao Palco Ponto para uma verdadeira sessão de pancadaria. Pelo meio, canções que já atingiram um certo estatuto de “clássicos” dos norte-americanos como “Get Got”, “I’ve Seen Footage” e “Giving Bad People Good Ideas”. Em segundo, com a eletrónica abstrata de Aphex Twin, que fez dançar uma maioria mas alienou muitos outros, num set que não contou com temas de maior envergadura como “Windowlicker” ou “Come To Daddy”, marcos do género no final da década de 90.

Death Grips
Rita Sousa Vieira | MadreMedia

Pelo meio, a lição rock dada pelos Japandroids, que levaram várias gerações de fãs até às filas da frente, no palco Super Bock, desde raparigas de treze anos até aos seus pais. A dupla canadiana baseou o seu alinhamento nos três discos que marcam, para já, uma carreira ainda curta, numa fusão do “rock de raízes” tal como definido por Bruce Springsteen, com a energia máxima do punk rock, levando o público a entoar os versos e coros de “Wet Hair” ou “The House That Heaven Built”. Como que para provar que, apesar das más línguas, o rock continua bem vivo.

Japandroids
Rita Sousa Vieira | MadreMedia

O NOS Primavera Sound regressará ao Parque da Cidade do Porto a 7, 8 e 9 de junho de 2018, para aquela que será a sua sétima edição. Este sábado, em conferência de imprensa, a organização garantiu que esta, a sexta, teve a maior enchente de sempre.

(Este artigo contou com a colaboração de Paulo André Cecílio)