Não se consegue precisar com exatidão o momento em que o hip-hop e o rock n' roll voltaram costas um a outro. Lembremo-nos dos primórdios: do momento em que do disco nasce um movimento capaz de entusiasmar até os punks da altura (Clash ou Blondie são dois dos nomes que beberam daquela água quando só umas gotas saíam da fonte), passando para o cruzamento feliz entre os Aerosmith e os Run-D.M.C. já a meio dos anos 80, desaguando na imensa popularidade dos N.W.A. no final da década – quando até os Guns N' Roses os queriam numa digressão conjunta. De lá para cá, tudo parecia ter mudado; o hip-hop fechou-se sobre a soul e o r&b, sobre o bling e as bitches, e o rock foi definhando lentamente pela sua própria ortodoxia e conservadorismo (uma figura maior, nisto de não perceber nada de onde vem o mundo, é Gene Simmons, que tanto bradou contra a inclusão de artistas hip-hop no “corredor da fama” do rock).

Esse mesmo conservadorismo foi perceptível nas caixas de comentários desse Facebook fora, aquando da confirmação de Future como cabeça de cartaz no festival Super Bock Super Rock. Os argumentos eram os mesmos dos do líder dos Kiss: “o festival chama-se 'Super Rock'”, “isso não é música”, “vou revender o meu passe”, et cætera, et cætera. Ponto prévio: o hip-hop tem as mesmas raízes na música negra que o rock n' roll, podendo nós até apelidá-los de filhos de mães diferentes. Isto em termos sonoros. Se quisermos falar de sentimento, do rock n' roll como espírito de juventude e rebeldia, há mais rock no hip-hop de hoje que nas bandas que não deixam a sua carreira morrer ou nos indies que se limitam a copiar tudo o que vem de trás. Em poucas palavras: é isto o futuro.

 

É por isso que um nome como Future fazia, e faz, sentido enquanto cabeça de cartaz de um festival como este. Porque no panorama hip-hop atual, poucos têm um público tão vasto quanto o norte-americano, poucos lançam discos com a mesma facilidade (só este ano foram dois, no espaço de uma semana, e ambos chegaram a número um dos topes de vendas), poucos são capazes de dar aos jovens aquilo que eles querem: música com a qual se identifiquem. Desde os anos 50 que são os mais novos a ditar as tendências dentro da música pop. Colocar Future, ou qualquer outro rapper, de parte por uma questão de género seria apenas remar contra uma maré que irá varrer tudo à sua volta – até que uma maré maior apareça.

Dito isto, e mesmo com as suas virtudes, não se pode dizer que o espetáculo Future no SBSR tenha sido uma vitória. O número de cadeiras vazias na MEO Arena, assim como o pouco público que se juntou no chão do pavilhão, não nos deixarão mentir. Mas isso prender-se-á mais com questões de mediatismo do que outra coisa; Future não é tão conhecido por cá como o é, por exemplo, Kendrick Lamar – que esgotou esta mesma sala e este mesmo festival há um ano. Num concerto esforçado, o rapper foi levando água ao seu moinho, vislumbrando-se aqui e ali algumas mochilas a voar, inúmeros braços no ar e movimentos de dança que desafiavam a gravidade, ele que mais que cantar limitou-se a apresentar alguns trechos de temas enquanto um DJ invisível pedia muito barulho. A serpentina foi-se desenrolando o mais que pôde mas este não era, de facto, um dia para o Carnaval.

 

Foi-o do hip-hop, contudo. Foi-o a partir do momento em que Pusha T – o outro grande nome do hip-hop norte-americano presente no cartaz – aparece em cena a meio da tarde para um concerto curto, que confundiu dezenas de fãs devido à escolha de horários e de palco (spoiler: horas mais tarde, Pusha T estava na Bélgica, para um concerto no festival Dour). Perante um pantanal de erva e já depois de ter aberto as hostilidades através do seu DJ, que criteriosamente escolheu temas de Migos, Desiigner ou Kanye West para aquecer o público, Pusha T apresentou-se como «o presidente da boa música» e deu um concerto coeso onde deu a parecer, de facto, que ali estava para celebrar essa nobre arte. Assim como , canadiana com linguagem latina que começou por enveredar por um r&b narcótico, de quarto, antes de pegar na guitarra para algumas versões bem conseguidas de conhecidíssimos temas do hip-hop.

Do outro lado, Keso (com quem o SAPO 24 falou pouco antes) mostrava por que motivo “rebentou” no panorama actual do hip-hop em Portugal, ele que começa com citações em off de Agostinho da Silva (para quem pediu uma salva de palmas) e que surge sentado, à mesa de mistura, com o bass posterior a ditar as regras do jogo. Isto antes de se erguer perante um público já conhecedor e desaguar num rap/spoken word de uma virtude lírica extraordinária, sempre em nome de uma revolução que há de vir, ao mesmo tempo intelectual e das ruas, e que poderia ter dado no melhor momento de todo o festival caso tivesse parado logo aí com um mic drop. Mas continuou, claro – os festivaleiros também precisam de canções.

Slow J, nome que tem gozado de um invejável estatuto mediático ao longo deste ano, apresentou-se também no Super Bock Super Rock um ano após um aclamado espetáculo no palco Antena 3 (agora LG) - e assim a continuar, para o ano encontramo-lo na MEO Arena? - desta feita com o seu disco de estreia, "The Art of Slowing Down", perante um vasto público que não deixou de entoar os seus temas - ou até “Não Me Mintas”, de Rui Veloso, e “Menina Estás À Janela”, mais conhecida pelas mãos dos UHF.

Tal como muitos o fizeram com os dos London Grammar, um nome estranho no meio de uma celebração hip-hop, e que atuaram quase à mesma hora que o projeto Língua Franca, com quem o SAPO 24 também conversou. Uma pop eletrónica, semelhante a James Blake (mas no feminino) fez o que pôde perante um grupo que só esperava por Future, mas não se saiu mal naquela que foi a sua estreia em terras lusas. “Bonito”, apenas e só.