“Confiança”. É esta a palavra que mais salta à vista ao lermos as últimas entrevistas dos Alt-J, banda que lançou este ano o seu terceiro álbum de estúdio, "Relaxer" – já depois de se terem tornado numa banda com estatuto de culto e que teve em "An Awesome Wave", o seu primeiro álbum, um daqueles momentos que podemos apelidar de “clássico instantâneo”.

Que se aprende ao longo dos anos quando se está numa banda como os Alt-J? “A confiar no nosso instinto”, comenta Gus Unger-Hamilton, teclista do grupo, à conversa com o SAPO 24. “Temos uma grande equipa à nossa volta, que não se intromete no nosso caminho. É assim que trabalhamos melhor”. A posta deu, inegavelmente, resultado: três discos depois, os Alt-J são um valor seguro da pop actual, algo que é facilmente percetível não só pela quantidade de países onde já actuaram como pelo facto de serem praticamente “perseguidos” por uma legião de fãs que conhece as suas letras de fio a pavio.

Pouco antes de subirem ao palco principal do NOS Alive, Gus Unger-Hamilton e Joe Newman falaram com o SAPO24

Letras essas onde a literatura dita as suas regras. "Relaxer" teve, como candeeiro, "How Green Was My Valley", romance de Richard Llewellyn sobre a comunidade mineira de Gales. Hoje em dia, o vocalista e guitarrista Joe Newman voltou atenções para um verdadeiro clássico da literatura: "Pela Estrada For"a, de Jack Kerouac. Mas não é a palavra dita e escrita quem dita as regras do jogo em "Relaxer", e sim a sua aura misteriosa, música pop tornada experimental – ou vice-versa, e talvez assim faça mais sentido.

“Preferimos que pensem [na nossa música] como música experimental travestida de música pop”, concorda Gus. Entre as influências de "Relaxer" contam-se, por exemplo, o compositor norte-americano Philip Glass, figura de proa do minimalismo do século XX. “Uma vez mencionado [Philip Glass] não há volta a dar-lhe”, remata.

Há dois momentos-chave, no entanto, neste novo álbum – e soam muito distintos daquilo que os britânicos têm vindo a fazer. Se uma versão de “The House Of The Rising Sun”, tema folk tradicional popularizado nos anos 60 pelos The Animals, faz corar de estranheza o mais incauto dos ouvintes, “Hit Me Like That Snare” e sua aura Crampsiana leva-nos a pensar que há mais rock dentro dos Alt-J do que aquele que é percetível.

“Acho que somos menos estrelas rock do que a maioria [das estrelas rock], mas mais do que as pessoas pensam”, parece confirmar Gus. Esse lado “escondido” levou, por exemplo, a que uma figura como Iggy Pop marcasse presença no vídeo para “In Cold Blood”, narrando o seu início. Ou talvez não: talvez tenha sido só o dinheiro... “O realizador disse-nos que conseguia ter o Iggy Pop no vídeo, e nós não acreditámos... E depois ouvimo-lo, soava fantástico, e pensámos 'uau, ele conseguiu mesmo'”, explica Joe.

Os Alt-J parecem ocupar, hoje em dia, uma determinada área cinzenta: não são indie na verdadeira aceção do termo, mas também (ainda) não se tornaram em grandiosas estrelas pop. O impacto do Brexit, que impedirá bandas britânicas como eles – e as mais pequenas – de mostrarem a sua música pelo continente poderá afetar o seu crescimento futuro. “Isso é algo que falta confirmar, mas não vai algo de positivo”, anui Gus. “É desencorajador para os jovens artistas: já não sentem que são parte de uma grande comunidade europeia...” Uma opinião partilhada por Joe Newman: “Sentias que fazias parte de uma família, que tinhas um irmão”, afirma, sobre a União Europeia.

Futurologia à parte, os Alt-J navegam um presente assinalável onde o cariz mais avant-garde das suas canções anda de mãos dadas com a música pop mais disseminada. Como aquela que é feita por Miley Cyrus, de quem se ouve um sample em “Hunger Of The Pine”, presente no álbum anterior dos britânicos, "This Is All Yours". Mas o fascínio pela cantora termina aí – os Alt-J ainda não a viram e ouviram mudar de pele, tornar-se mais “senhora”. “Gostava mais dela quando era travessa...”, comenta o teclista. Travessuras às quais não são alheios os Alt-J; basta ouvir a forma ritmada, quase infantil, com a qual criam uma canção como “Fitzpleasure” - que esconde dentro de si uma história macabra sobre sexo. Não se pode julgar um livro pela capa.

Recorde aqui o primeiro dia do NOS Alive.