Antes de deixar o futebol austríaco no verão, Naby Keïta era praticamente um desconhecido para o restante futebol europeu. Há quatro anos, o médio centro dinâmico, aquele área-a-área que ocupa amplamente o miolo e distribui a bola como uma classe muito própria, fazia parte dos quadros do Horoya FC, na sua nativa Guiné. 

Keïta tem quase tudo aquilo a que se pede a um médio de top: bons pés, "toque de bola" irreprensível e uma temporização tremenda que lhe permite estar no sítio certo nos momentos de transição da equipa. Adicionalmente, ainda faz galopadas impressionantes com a redondinha no pé antes de a soltar para o colega.

Portanto, não admira que seja comparado a Deco, antigo internacional português (nascido no Brasil) que encantou o futebol europeu quando passeou a sua classe nas equipas do FC Porto e FC Barcelona (essencialmente).

O próprio jogador alterou o seu nome nas redes sociais para “nabydecokeita”. E tal como o luso-brasileiro que brilhou com as quinas ao peito, e que tem no seu palmares duas Liga dos Campeões, parece ter herdado uma capacidade para marcar a diferença no miolo do terreno. Quem está atento aos jogos do jovem médio, sabe é um jogador que não tem medo de arriscar passes longos e que tenta abrir espaços com passes em rutura, parecendo ter uma aptidão natural para encontrar com precisão as desmarcações dos seus colegas mais adiantados.

Atualmente, Naby "Deco" Keïta é uma das peças basilares no esquema táctico de alta pressão imposto por Ralph Hasenhüttl no RB Leipzig, a equipa surpresa — a par do Hoffenheim de Julian Nagelsmann — do campeonato alemão. Apesar da estatura (1,72cm), o jogador guineense é ágil, resistente e demonstra bom equilíbrio, para além de possuir capacidade física e técnica suficiente para conseguir iniciar uma jogada ainda na sua área defensiva e chegar facilmente ao último terço do campo e finalizá-la.

Bundesliga a seus pés

O assalto à liga germânica começou logo na sua estreia frente ao Borussia Dortmund, em setembro, na primeira jornada da Bundesliga. A faltar apenas seis minutos para o final do encontro, o Deco de Leipzig saltou do banco para marcar o único golo da partida e oferecer a primeira vitória ao clube principal liga de futebol alemã. Se à data era um desconhecido, o jogador não se retraiu na altura de oferecer um belo cartão de visita.

E se Keïta foi uma surpresa para a maioria, não o foi para a direção do RB Leipzig, bem ciente das capacidades do jogador, ou o mesmo não tivesse militado na equipa-gémea austríaca da Red Bull durante dois anos. Ralf Rangnick (o homem que levou o modesto Hoffenheim da terceira à primeira divisão alemãs em apenas dois anos, com duas subidas consecutivas), é a mente por detrás do fenómeno e responsável pela sua contratação em 2014, já que acumula funções de diretor desportivo em ambos os clubes.

Keïta foi tímido na hora de chegada à Alemanha durante a troca de clubes da famosa marca de bebidas energéticas no mercado do verão. Nem tampouco lhe faltava ambição. “Quero evoluir na Bundesliga como o Pierre-Emerick Aubmeyang [avançado gabonês do Borussia Dortmund e melhor marcador do campeonato alemão]”.

Foi uma declaração arrojada para alguém que tinha acabado de aterrar num campeonato bem mais exigente do que o austríaco e onde, por norma, se joga um futebol fisicamente intenso, com grande parte dos treinadores a querer que as suas equipas apresente um futebol assente no gegenpressing (assim que a equipa perde a bola, esta pressiona como uma unidade organizada a oposição no momento de transição defensiva) presente, por exemplo, nas equipas de Jürgen Klopp, ex-treinador do Borussia Dortmund e atual técnico do Liverpool.

Porém, ainda (por enquanto?) que não goze do mesmo estatuto de Aubameyang, feita a análise aos números e à “nota” média do médio atribuída pela revista Kicker, nos 22 jogos distribuídos pelos 1655 minutos (de acordo com o zerozero.pt) de Keïta no campeonato no decorrer desta temporada, ficamos a perceber que o médio não está longe de concretizar aquilo que desejou: com média 2,66 (sendo 1 a nota mais alta, 6 a mais baixa) é atualmente o 5º melhor jogador do campeonato. O primeiro lugar, esse, pertence a outro jovem talento da liga: o avançado da Dembele, companheiro de Aubameyang em Dortmund.

E a sua contribuição vai para lá dos 4 golos e 7 assistências: ele está em todo o lado dentro de campo. Quer seja no ataque ou a defender, Keïta é um verdadeiro todo-terreno. Prova disso são as estatísticas do campeonato, que o revelam como um dos jogadores com mais desarmes, intercepções e dribles da Bundesliga alemã.

A caminhada

Keïta nasceu na capital da Guiné-Conacri (Conacri, precisamente) em 1995, numa casa bastante humilde e onde o equipamento de futebol não era - nem podia ser - uma prioridade para a família. Aos 9 anos, ingressa no clube da cidade, o Horoya AC e apenas aos 16 anos fez uma viagem de 6.000 quilómetros até França e tentou a sorte num país onde o futebol tem outro expressão para jovens talentos africanos. Estávamos em 2011, e o talento guineense faz a sua primeira tentativa de ser profissional de futebol na Europa, primeiro no FC Lorient (clube onde despontou o internacional português e campeão da Europa, Raphael Guerreiro) e depois no Le Mans UC (onde começou um tal de... Didier Drogba, um dos melhores jogadores de sempre da história da Costa do Marfim).

Porém, o seu potencial não é reconhecido no imediato e é forçado a regressar à Guiné e ao clube que o viu nascer para o futebol. Ainda assim, mostrou ser determinado e não desistiu. Em 2013, volvidos dois anos da primeira "tentativa europeia", o seu compatriota Bobo Baldé (defesa nascido na Guiné-Conacri que jogou oito épocas no Celtic de Glasgow) consegue-lhe uma vaga num torneio para "caçar talentos" em Marselha. Keïta regressa a solo gaulês e impressiona os olheiros do FC Istres, da Ligue 2, o segundo escalão do futebol francês.

Contratado pelo Istres, Keïta estreia-se com um golo na vitória caseira por 4-2 contra o Nimes. Ao todo, o médio fez 23 jogos na sua primeira época em solo europeu, marcando 4 golos e fazendo 7 assistências.

Os números

Uma época na segunda liga francesa foi o suficiente para chamar a atenção Ralf Rangnick, que pagou 1,5 milhões de euros pelo passe do jogador que viria a criar um impacto imediato no Red Bull Salzburg, ajudando o conjunto austríaco a chegar aos 32-avos da Liga Europa e a conquistar dois títulos nacionais consecutivos, bem como duas taças da Áustria.

Em 2014/2015, e ainda que a jogar numa posição recuada no terreno, o guineense marcou 5 golos e fez 2 assistências em 30 jogos na Bundesliga austríaca. Na temporada seguinte, Keïta faz 30 jogos, marca 12 golos e distribui 10 assistências (em todas as competições disputadas pelo Red Bull Salzburg). 

O espanhol Jonathan Soriano, melhor marcador da equipa de Salzburgo, admitiu que Keïta era "o jogador mais importante" do conjunto.

Essa importância valeu a Keïta, dois anos depois da chegada à Áustria, uma transferência para o clube-irmão alemão também detido pela Red Bull, avaliada em 15 milhões de euros.

Esta época, apoiado pelo incrível temporada do RB Leipzig (chegado este ano à Bundesliga, o clube é 2.º classificado, sendo apenas superado pelo colosso Bayern Munique) os seus números totalizam já 21 jogos (19 como titular), 4 golos e 7 assistências. E a percentagem de passes acertados do médio revela bem a sua capacidade de discernimento e compostura na hora de entregar a bola aos companheiros de equipa: quase 80% de passes certos, em 861 tentativas.

Com estes números não é, por isso, de estranhar, que Liverpool e Arsenal (entre outros) estejam dispostos a abrir os cordões à bolsa para contar com Naby Keïta, o Deco de Conacri.

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