A correspondência entre 1927 e 1945, além das referências familiares, menciona a passagem pelos locais onde se encontravam unidades SS envolvidas nas execuções em massa de judeus.

“Nos próximos dias estarei em Lublin, Zamosch, Auschwitz e Lemberg”, escreve Himmler em 1942.

As cartas transcritas no livro “Correspondência/Heinrich Himmler”, além de anotações em agendas pessoais, foram saqueadas por militares norte-americanos no final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), tendo sido detetadas na década de 1950 e constituem atualmente o arquivo da documentarista israelita Vanessa Lapa, realizadora do filme “O Homem Decente” que revelou o conteúdo dos textos.

A correspondência incluída no livro encontra-se organizada cronologicamente e enquadrada pelo historiador alemão Michael Wildt e Katrin Himmler, politóloga e sobrinha-neta do próprio dirigente nazi.

Himmler, agrónomo, nasceu em 1900 em Munique, casou com Margarete Boden (Marga) em 1928 e após aderir ao partido nacional socialista foi apontado chefe das SS (esquadrões de proteção do partido) em 1929, função que acumulava com a liderança da polícia secreta (Gestapo) e, a partir de 1943, com o cargo de ministro do Interior.

As SS controlavam a segurança e os campos de concentração, sendo Himmler um dos arquitetos da “Solução Final” que visou o extermínio do povo judeu.

Do ponto de vista familiar são inúmeras as referências à filha assim como ao filho adotivo que acabou prisioneiro de guerra das forças soviéticas.

Os textos mostram também que a vida do casal não se alterou quando Himmler, em 1938, retomou o caso amoroso com a secretária pessoal que lhe deu dois filhos, pondo em prática o conceito de dupla família que advogava para as SS como uma das normas para fomentar "a procriação”.

As cartas permitem também concluir que Margarete não era “apolítica” e que os Himmler mantinham principalmente amizade com nacional-socialistas convictos.

A última carta, de 17 de abril de 1945, altura em que Himmler, consciente da derrota, procurava contactar as forças britânicas - usando reféns - para negociar a rendição da família.

“Os tempos para nós estão monstruosamente difíceis e, no entanto, estou firmemente convencido disso, tudo acabará por recompor-se a nosso favor”, escreve Himmler numa mensagem dirigida à mulher à filha, “com traços de despedida e terminando pela primeira e única vez com a saudação “Heill Hitler”.

Himmler foi capturado a 20 de maio de 1945 por soldados russos e suicidou-se três dias depois, com uma cápsula de veneno.

O livro relata ainda o percurso da mulher e da filha, consideradas pelo processo de desnazificação como “comprometidas” com o regime nacional-socialista.

Marga, como era tratada, morreu em 1967, na companhia da filha, Gudrun, que vive ainda em Munique e que integrou a organização de ajuda aos prisioneiros alemães e participou nos encontros de SS e do grupo Juventude Viquingue, proibido desde 1994 na Alemanha.

Os complexos de extermínio dos judeus, parte da “Solução Final” delineada por Himmler, fizeram mais de sete milhões de mortos, além de um número muito superior de judeus assassinados em territórios da ex-União Soviética.

O livro “Correspondência” (Bertrand Editora, 383 páginas) foi lançado em Portugal no passado fim de semana.

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