Foi o sonho de publicar um livro que levou um ex-toxicodependente, uma professora de secundário, uma governanta e uma higienista oral até à Chiado Editora. Aí dava-se voz aos “novos autores”, anunciava a chancela. Ninguém lhes exigiu qualidade literária, um bom enredo ou curriculum. Bastou-lhes pagar para terem o manuscrito impresso com o seu nome na capa. Hoje consideram ter sido ludibriados. “Há má-fé”, acusa um dos autores com quem o SAPO24 falou. “Eles abrem a porta a toda a gente mas depois fecham-na logo”, acrescenta outro.

Cada um destes novos autores paga, “à cabeça”, cerca de 2.000 euros, recebendo em troca 200 exemplares impressos do seu próprio livro. Cabe depois à editora publicitar e comercializar a obra. “Sentimo-nos enganados, porque prometem comercializar o livro, mas não conseguem. Provavelmente nem tentam.” Outro autor defraudado sintetiza as críticas: “A Chiado Editora é uma máquina de fazer dinheiro em cadeia”. Na Internet, queixas semelhantes não faltam.

“Uma máquina de fazer dinheiro”

“São uma fábrica de livros”, acusa Vicente Delmar, que tem dinamizado um grupo de autores indignados. Quando achou que o seu livro estava pronto, Vicente foi à procura de editoras que aceitassem novos talentos. Não teve de procurar muito. Basta pesquisar no Google por “editoras portuguesas”. Um dos primeiros resultados que aparece no écran remete para o site da Chiado Editora. O mesmo acontece se pesquisar por “editoras”, “publicar um livro” ou “novos autores portugueses”.

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O texto de apresentação da editora não podia ser mais apelativo para pessoas como Vicente, que sempre ambicionou escrever um livro mas nunca teve a oportunidade de pôr o pé na porta do mundo editorial: “Todos os autores famosos começaram por ser desconhecidos.” A Chiado Editora orgulha-se de democratizar o mercado literário, dando espaço para novas vozes. Tornou-se aliás tão conhecida que tem mais de 2 milhões de likes no seu Facebook. “Envie-nos agora o seu original”, convida a editora na sua página de Facebook.

A comunicação foi rápida e toda conduzida através de e-mail. Vicente insistiu em entregar pessoalmente o manuscrito; a editora disse que lhe daria uma resposta em dez dias; ao fim de 36 horas, o editor respondeu afirmativamente e o contrato foi assinado à distância, através de e-mail, como passaria a ser, a partir daí, a comunicação entre autor e editor. Vicente

teve de comprar, à partida, 200 exemplares do seu próprio livro, ao preço de 10€ cada, o que perfez 2.000€. “Como uma pessoa não tem experiência, pensa que o contrato é normal. Por isso pensei que era assim que se faziam as coisas e até agradeci a oportunidade.” Nesse mesmo dia passou um cheque de 1.000€. O restante pagou com cheques pré-datados.

"Eles fazem a sabotagem da venda do livro, porque não lhes interessa vender livros.”

Os contratos que os autores assinam são praticamente iguais. Alguns estão até disponíveis na Internet. Ao contrário da generalidade das editoras, que têm de investir, pagando até adiantamentos ao escritor, a Chiado é considerada uma editora de autor, ou seja, é o escritor que paga todos os custos associados à publicação da sua obra. Desta forma, a editora não corre riscos com a impressão do livro.

Assim que o contrato é assinado, o escritor paga o número de exemplares que irão ser impressos; depois os livros são entregues ao autor, comprometendo-se a editora a divulgar a obra e a colocá-la à venda em livrarias... caso as livrarias façam alguma encomenda, o que, na generalidade dos casos, não acontece. Depois de venderem meia dúzia de exemplares a familiares e amigos, os escritores acabam por ficar com centenas de exemplares amontoados no sótão ou na garagem.

Livros com erros de ortografia

É simples: se tem um manuscrito na gaveta, basta entregá-lo à Chiado para avaliação e, se este for aceite, recebe o livro impresso em troca de um pagamento. A partir da assinatura do contrato tudo acontece rapidamente. A paginação é feita e a capa é escolhida. Ao contrário do que sucede na generalidade das editoras, a Chiado Editora não revê os textos - se o autor quiser revisão, terá de contratar alguém externo à empresa e pagar esse serviço à parte. A maioria dos “novos autores” prescinde da revisão e o resultado são livros com muitos erros grosseiros de ortografia e de sintaxe.

Sobre esta questão, a Chiado Editora respondeu o seguinte por e-mail: “Relativamente à Revisão, à semelhança de qualquer outro aspecto da composição de cada obra, cada caso é um caso em termos contratuais. Existem obras relativamente às quais se acorda que a Revisão é um ónus do Editor, outros em que se acorda que esta é da responsabilidade do Autor.”

Com mais ou menos erros ou gralhas, Vicente tinha finalmente nas mãos o almejado romance. Acreditava que iria fazer furor. No entanto, os problemas não demoraram a chegar, começando pela promoção da obra que, segundo o contrato, estaria a cargo da editora. No caso de Vicente, resumiu-se a um único spot publicitário de 15 segundos na TVI24 no dia anterior ao lançamento do livro e à publicação de um vídeo promocional na página de Facebook da editora. No próprio dia do lançamento foi carregado na página de Facebook da editora um outro vídeo anunciando que a obra estava “já à venda em todo o país e em chiadoeditora.com”.

"Eles são sempre muito bem-educados e respondem aos e-mails, mas estão sempre a empatar com desculpas."

Vicente estranhou não conseguir encontrar o seu livro à venda em nenhuma das livrarias onde foi. Nas grandes cadeias, como a Bertrand, a Bulhosa, ou a FNAC, diziam-lhe que o livro não existia. Dez dias depois do lançamento, o livro finalmente aparece no sistema informático das livrarias, mas apenas por encomenda: “Para eles, vender é apenas ter disponível para encomenda. Logo a seguir ao lançamento e ao spot publicitário, quando poderá existir algum interesse, não há hipótese de alguém o comprar. Eles fazem a sabotagem da venda do livro, porque não lhes interessa vender livros.”

Em relação a esta crítica, a editora responde da seguinte forma: “A editora não decide livremente que títulos e em que quantidades obriga esta ou aquela livraria a revender nas suas prateleiras.” A Chiado acrescenta que tem, no seu catálogo “obras que suscitam interesse comercial e encomendas na ordem dos milhares de unidades” e outras que, apesar de não suscitarem “o interesse das maiores redes em termos de encomendas de stocks físicos de loja”, podem ser encomendadas.

Vicente foi-se apercebendo que provavelmente fora demasiado ingénuo. A editora tinha lucrado com a venda de 200 exemplares do livro a si próprio e, provavelmente, não iria imprimir mais nenhum exemplar para ser colocado à venda. Embora o contrato estipulasse que a editora teria de comercializar a sua obra, não dizia quantos exemplares teria de colocar no mercado. Foi então que o escritor começou a tentar obter respostas da editora, que se esquivava a reuniões presenciais. Respondiam-lhe, sempre por e-mail, com evasivas que nunca chegavam para lhe dissipar a ansiedade: “Após a assinatura do contrato, do pagamento, do depósito e do envio dos cheques, a postura dele [do editor] mudou radicalmente e começou a afastar-se cordialmente.” O que inicialmente parecia ser uma porta de entrada no exclusivo mundo editorial, rapidamente revelou tratar-se de um logro. “Eles são sempre muito bem-educados e respondem aos e-mails, mas estão sempre a empatar com desculpas. Fazem as pessoas desistir pela exaustão e os autores que se revoltam acabam por ter medo da exposição pública e pelo facto de a editora estar protegida por advogados e pelo contrato.”

“Paguei 200 livros e vendi apenas cinco”

Para Vicente, a questão central prende-se com o facto de a Chiado Editora não conseguir colocar os seus livros nas livrarias. Quando contactada, em outubro, a Chiado Editora respondeu por e-mail com a seguinte informação: “A Chiado publicou nos últimos meses mais de 1.500 novos títulos, no conjunto das suas chancelas nacionais e internacionais.” Dado que não existem dados oficiais e independentes que englobem todas as editoras, não há como confirmar estes números, mas as questões mantêm-se: será possível uma editora comprometer-se a divulgar e distribuir 1.500 títulos (ou seja, 150 lançamentos por mês) num país onde, só em 2016, foram lançadas mais de 10.000 novidades literárias? Haverá espaço para todos? Será possível deixar todos os autores satisfeitos? A Chiado responde que “naturalmente não temos a expectativa de que a totalidade destes Autores manifestem o mesmo grau de satisfação com os nossos serviços; trabalhamos para garantir que o número de Autores satisfeitos representem uma vasta e esmagadora maioria e, acima de tudo, para que eventuais casos de menor satisfação não decorram de qualquer falha ou menor empenho no trabalho que desenvolvemos.”

“Qualquer livro que me chegue às mãos com o ‘carimbo’ da Chiado Editora está morto à partida – estar associado à Chiado mata logo o autor”.

Apesar de autores como Vicente se queixarem pelo facto de os seus livros não estarem expostos em livrarias, a verdade é que é possível ver livros da Chiado Editora em quase todas as grandes livrarias do país. Nesse ranking, Pedro Chagas Freitas é talvez quem forjou caminho para a Chiado se tornar a editora de sonho para os novos talentos, mas uma rápida pesquisa no site da editora revela que o seu nome já não consta na base de dados (os últimos dois livros do autor foram publicados pela editora Desrotina). Outra via foi a dos “livros de famosos”, com nomes sonantes como Pinto da Costa e Paulo Futre, ambos com obras publicadas com a chancela da Chiado Editora. “Duvido que esses autores paguem pela sua edição. Funcionam como ‘cabeças de cartaz’ para pôr na montra”, refere um editor e tradutor freelancer que trabalhou durante quase uma década numa grande editora. Um grande livreiro, que também não se quis identificar, acrescenta: “Qualquer livro que me chegue às mãos com o ‘carimbo’ da Chiado Editora está morto à partida – estar associado à Chiado mata logo o autor”.

Foi na Feira do Livro de Lisboa que a situação atingiu o ponto de rutura para Vicente. Ao fim de uma semana e meia de feira, o escritor alega não ter sido capaz de encontrar o seu livro exposto. Quando confrontou o funcionário que estava ao balcão do stand da editora prometeram-lhe que seria tudo resolvido, mas quando lá voltou, para a sua sessão de autógrafos de meia hora, tudo continuava igual. Nesse mesmo dia, Vicente vendeu cinco livros. São os únicos exemplares que conseguiu escoar até hoje.

“25 euros de direitos de autor”

A passar por uma situação idêntica estão três outras autoras. Para Maria, uma professora do ensino secundário reformada, o processo para publicar o seu romance desenrolou-se rapidamente - demorou apenas 4 meses até ao lançamento. Entregou o seu manuscrito pessoalmente e, passados poucos dias, recebeu a resposta que desejava – a Chiado concordava publicar o seu livro. Voltou à editora para assinar o contrato, segundo o qual tinha de comprar 110 livros, o que equivale a 1.350€ e, a partir daí, nunca mais voltou à Chiado Editora, uma vez que insistiam que tudo fosse tratado por e-mail. “Era uma canseira não se poder ter uma conversa por telefone, mas até compreendo porque com 150 lançamentos por mês não deve dar para atender telefones a toda a gente.”

Quando começou a tentar entender como era feita a distribuição da obra, Maria diz que rapidamente se apercebeu de que “a coisa não ia dar certo”. A editora tinha-lhe dito que havia mandado exemplares para algumas distribuidoras, como a FNAC, mas sem deixar de frisar que dependia da livraria aceitar ou não vender o livro. Maria visitou algumas livrarias e o seu livro não existia fisicamente em nenhuma delas, sendo que, no caso do El Corte Inglés, nem na base de dados se encontrava. No caso da Bertrand do Cascais Shopping, o livro constava na base de dados, mas quando Maria perguntou quanto tempo demoraria a encomenda, a resposta que lhe deram foi “com a Chiado nunca se sabe”. Quando uma amiga de Maria encomendou o seu livro numa Bertrand em Setúbal e o exemplar só lhe chegou às mãos um mês depois, Maria queixou-se à sua editora. “Eles têm cassetes da qual não se desviam e uma delas é que se nós, os escritores, não ajudarmos, eles não podem fazer o trabalho todo.”

“Não é uma empresa séria. Não podem considerar-se uma editora. É uma fábrica de fazer livros."

Segundo estes autores, a Chiado refugia-se no argumento de que, nos dias de hoje, o papel do autor é crucial para promover a obra. Isto é, os exemplares que o escritor comprou aquando a assinatura do contrato serão mais facilmente vendidos se este tiver uma presença online, contactar a imprensa e cultivar uma relação com o público leitor. É esperado que o autor faça este trabalho em conjunto com o editor que, contratualmente, tem a obrigação de fazer o seu próprio trabalho de divulgação.

Maria preferiu organizar o seu próprio lançamento, o qual contou com mais de 100 pessoas, conseguiu pôr o seu livro em duas livrarias, enviou-o para duas outras e criou uma página de Facebook para o seu livro. Apesar de tudo isto, ao fim de um ano, tinha a receber apenas 25€ euros, uma vez que a maior parte dos livros que conseguiu vender faziam parte do lote do contrato. Na Chiado Editora, os autores ganham entre 10% a 30% do preço de venda (o primeiro valor refere-se a exemplares vendidos em livrarias, o segundo a vendas no site da Chiado Editora), mas só recebem esses direitos de autor quando chegam aos 250€ de exemplares vendidos, tanto nas livrarias como no site da Chiado Editora. “Como não há livros à venda fisicamente, nós só conseguimos vendas online. Mas como é que se vende um livro sem pegar nele, folheá-lo, ver a contracapa? Os livros vendem-se assim. Sei que hoje em dia há os ebooks mas mesmo nesses casos é preciso fazer uma distribuição e publicidade à medida, para as coisas terem sucesso.”

Na opinião de Maria, a única maneira de alguém conseguir chegar ao seu livro é apenas se já o conhecer e o comprar através do site da Chiado Editora. “Não há trabalho de editora e de distribuidora sem ser para aqueles poucos autores que vão ter saída, como é o caso, por exemplo, do livro do Pinto da Costa”, diz Maria. “Não é uma empresa séria. Não podem considerar-se uma editora. É uma fábrica de fazer livros. Hoje em dia quem é que consegue publicar seja o que for por uma editora de renome? Só os autores consagrados ou os que têm ‘amigos’ ou os que têm um golpe de sorte. De resto, ninguém consegue editar hoje. Para além do mais, qual é a livraria, grande ou pequena, que pode pôr à venda 150 livros por mês? Nós, os autores que caímos neste engodo, somos levados ao engano. Isto não é fraude, porque é legal mas é um sistema enganador porque promete algo que depois não consegue fazer.”

E volta tudo à Feira do Livro de Lisboa. Três semanas antes do evento, Maria inquiriu a editora sobre a possibilidade de o seu livro ser exposto na banca. Quando foi visitar a Feira, para além de não ter visto exposto nenhum exemplar do seu livro, a autora ficou espantada por assistir a sessões de autógrafos, de que não havia sido informada. Protestou, disseram-lhe que escolhesse um dia para ir assinar livros, mas nunca mais recebeu nenhuma chamada de confirmação.

Maria conseguiu, por fim, uma reunião com o diretor comercial da Chiado Editora mas diz que, mais uma vez, não ficou esclarecida. “Eles têm esta cassete, um certo discurso e dali não saem. Querem implicar-nos [autores] por não fazermos nada e não se sai dali; eles criaram um círculo vicioso de argumentação que não vai a lado nenhum.” Depois disto Maria decidiu rescindir contrato, também ele feito por e-mail. “O interesse deles nessa altura já não existe, depois de eu ter assinado o contrato e pago a minha parte. Quando sugeri a rescisão, eles aceitaram-na rapidamente.” Antes disso, Maria pediu à editora mais 20 livros, sendo que nunca a informaram quantos exemplares compunham a primeira edição, isto é, se para além dos 110 livros que ela pagou, não sabe se existirão mais exemplares.

Falta de transparência

Em Portugal é impossível saber-se, ao certo, quantos livros se vendem. A GfK, empresa responsável por medir as vendas de livros não-escolares da maioria do mercado português, realiza estudos de mercado para os seus clientes, neste caso, editoras. Dado que é preciso comprar estes estudos, a amostra da GfK não é uma análise global do mercado livreiro português. Por outro lado, esses dados não estão disponíveis para o público - apenas os clientes da empresa podem aceder a essa informação -, ao contrário de países como a Holanda, Inglaterra ou Estados Unidos, que têm análises estatísticas transparentes. Além disso, é difícil controlar dados tão importantes quanto a tiragem de cada livro – a Sociedade Portuguesa de Autores, por exemplo, faz esse controlo mas apenas para os seus clientes. Os autores ficam, assim, dependentes da boa fé dos seus editores quanto ao número de exemplares que efetivamente colocam no mercado.

“Eles não fazem trabalho nenhum no livro, não existe trabalho de paginação, de edição..."

Rita Matos trabalhou dez anos em Inglaterra, sendo que grande parte desse tempo foi passado na famosa editora Penguin; quando regressou a Portugal foi trabalhar para a editora Tinta-da-China, e agora é tradutora e editora freelancer. A comparação que faz entre os dois mercados é clara: “Inglaterra é mais transparente. Os números de vendas são públicos e usam-se até para vender livros, do género ‘livro x já vendeu 10.000 cópias’”. Mas há coisas que não mudam, mesmo lá fora. “Os autores não percebem a maneira como é feita a distribuição, acham sempre que os seus livros vão vender mais, mas perceber o que vai ter sucesso é sempre difícil de acertar. A tiragem, por exemplo, é difícil de acertar, tanto lá como cá – é um jogo constante decidir entre imprimir menos exemplares que serão logo vendidos ou imprimir mil livros a mais que depois não são vendidos.”

O tempo de vida de um livro em loja é muito curto, devido à quantidade de novidades que estão sempre a ser lançadas: “As distribuidoras, como a Bertrand e a Leya, fazem a distribuição de quase tudo e estão interessados em colocar o máximo à venda, mas há muitas devoluções. Para elas também é um exercício de estimativa, porque baseia-se em fatores muito instáveis - se da última vez este autor vendeu bastante, desta vez...”

Em relação à Chiado Editora, a freelancer é clara na sua opinião: “Para mim não são uma editora.” Rita até já teve uma experiência próxima com a referida editora: “Chegou-me às mãos um manuscrito para editar e corrigir. A autora já tinha levado o texto à Chiado e, quando lhes perguntou sobre a revisão, disseram-lhe que o texto estava ótimo. A senhora teve o discernimento de pedir uma revisão externa e ainda bem, porque o texto estava mal escrito e pejado de erros ortográficos.” A Chiado Editora é um veículo de auto-publicação, diz. “Eles não fazem trabalho nenhum no livro, não existe trabalho de paginação, de edição... é como o serviço da Amazon [CreateSpace], de auto-publicação.”

Em Portugal, os dois maiores grupos editoriais são a Leya e a Porto Editora, sendo que esta última detém uma série de chancelas e é dona de uma das maiores livrarias, a Bertrand – ou seja, é uma das maiores editoras portuguesas e tem a maior livraria portuguesa. A Bertrand disponibilizou ao SAPO24 os seguintes números: são publicadas mais de 10 mil novidades por ano e no site estão disponíveis para encomenda perto de 8 milhões de livros; em 2017 foram vendidos nas suas lojas, até ao mês de outubro, 400 exemplares de livros editados pela Chiado Editora. A Tinta-da- China, que é uma empresa muito mais pequena, publica à volta de 60 novos títulos por ano. “Um livro trabalhado, que leva duas revisões, implica vários dias a discutir emendas, já para não falar de traduções e do design da capa... é um trabalho de meses. Esta é uma editora pequena, em termos de equipa, e mesmo assim 60 livros é muito”, explica Rita Matos. Para comparação, numa newsletter da Chiado Editora que dava conta das novidades editoriais das primeiras duas semanas do mês de outubro de 2017, são apresentados 35 novos livros.

"O contrato não afirma, mas também não nega, ou seja, é tão ambíguo que uma pessoa não consegue argumentar.”

Contratos ambíguos

Raquel, uma outra autora que optou por não ser identificada, também é clara nas acusações à editora: “Eu queixo-me da falta de publicidade e da falta de ajuda na distribuição, pois os livros não estão fisicamente disponíveis nas lojas, conforme prevê o contrato.” Os seus problemas com a editora começaram logo no lançamento - como os cartazes e os convites chegaram dois dias antes do lançamento, a escritora já não conseguiu fazer publicidade.

Depois do lançamento, a autora e vários amigos procuraram o livro em livrarias por toda a área de Lisboa e em todos os sítios havia apenas uma solução: encomendar. “Exceto os exemplares que comprei, nunca cheguei a ver outros.” Raquel tentou pedir esclarecimentos à editora, mas “arranjaram sempre uma desculpa” para não se reunirem com a escritora, deixando toda a comunicação para os e-mails. “Eles mandavam sempre o e-mail standard, em que usam meia dúzia de desculpas com uma escrita semelhante à do contrato, ou seja, diz muito mas não diz nada. O contrato não afirma, mas também não nega, ou seja, é tão ambíguo que uma pessoa não consegue argumentar.”

Neste momento, Raquel prepara-se para iniciar um processo judiciário contra a editora, se esta não lhe devolver os cheques pré-datados com que se comprometeu a pagar a segunda parcela do contrato. Desde que comunicou esta decisão, Raquel deixou de receber respostas da editora: “Se tiver de ser, prefiro estar a gastar dinheiro para ter o meu livro de volta do que estar a pagar por um livro que não está nas bancas. Nós não estamos só a pagar pelos livros, estamos a pagar pelo serviço completo.”

Para Aurélia, mais uma autora revoltada, a relação com a editora correu bem apenas até à assinatura do contrato, onde ficou acordado que a primeira edição teria 500 livros, 200 dos quais a autora compraria. “A partir daí, começaram a empatar e começam todos os problemas.” Aurélia viu os seus livros expostos numa única livraria (FNAC Guia), onde fez o seu lançamento e depois a história repete-se: perguntas que não eram respondidas senão por e-mail, ausência de exemplares nas livrarias, falhas na divulgação, reuniões que não aconteciam.

A Chiado dissera-lhe que pretendia publicar o segundo livro da trilogia que Aurélia planeara, mas antes disso a autora pretendia ver resolvidos os problemas que tivera com a primeira obra. A autora conseguira vender os 200 livros que comprara. Como a FNAC de Faro e da Guia já não tinham os seus livros em stock e existiam vários pedidos de encomenda, a autora perguntou à Chiado Editora se teriam mais exemplares, dado que lhe tinham sempre dado a entender que teriam 300 cópias em armazém. A editora respondeu-lhe então que, uma vez que o contrato havia sido revogado em julho, consideravam cessados todos os direitos da Chiado sobre a obra, incluindo a sua comercialização e que, portanto, todas as cópias tinham sido destruídas. Para Aurélia, esta era a prova de que a editora nunca imprimiu mais livros para além daqueles que ela comprara, apesar da cláusula contratual estabelecer que o editor se compromete a ter sempre exemplares disponíveis. Neste momento Aurélia está com a sua trilogia em standby, visto que ainda nenhuma outra editora quis dar continuidade a um projeto já iniciado.

Escritórios fantasma?

Indo ao site da empresa verifica-se que a editora possui uma vertente internacional - a “Chiado Global” - com escritórios em diversas capitais, mas a maioria das moradas indicadas não têm números de telefone, não têm qualquer indicação em relação ao andar e mais parecem ir dar a locais fantasma. Como o SAPO24 verificou, em Berlim, Londres e Barcelona, parecem locais fechados. Em Barcelona, verificou-se que na campainha não havia qualquer referência à Chiado Editora e o prédio não tinha porteiro, o que, segundo uma moradora, é habitual em todos os escritórios da cidade. Em Londres, a morada referida no site da editora situa-se numa das zonas mais posh da capital inglesa mas a placa na entrada do edifício de escritórios não tem qualquer referência à Chiado Editora. Em Berlim, num prédio de 15 andares, idem.

Em Lisboa, o escritório da Chiado Editora, que fica no mesmo local do café literário onde se dão grande parte dos lançamentos dos livros, situa-se na Avenida da Liberdade. Esta localização numa das zonas mais caras e conceituadas da capital portuguesa parece sugerir que as moradas nos Champs-Élysées ou no Paseo de la Castellana também são verdadeiras. Quando confrontada com esta questão, a Chiado respondeu que todos os seus contactos “são públicos, tanto os que dizem respeito à Chiado Editora (chancela para a Língua Portuguesa), como os das chancelas internacionais, dedicadas à publicação de Autores noutros territórios.”

Diz-se que todos os Homens têm o sonho de, durante a sua vida, “plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro”. Há, com certeza, muitas pessoas satisfeitas por ver o seu livro editado, para depois poder oferecê-lo aos seus familiares e amigos, mas há também alguns, como é o caso do Vicente, da Maria, da Raquel e da Aurélia, que esperavam que a Chiado Editora fosse mais que uma tipografia.

Nota: Por ainda estarem contratualmente vinculados à Chiado Editora ou por medo de represálias, três dos autores mencionados não quiseram que se publicasse o seu verdadeiro nome. O contrato proíbe que qualquer uma das partes fale sobre as cláusulas.

[Artigo atualizado às 10:50 do dia 9 de janeiro de 2018. A pedido do próprio autor, o nome “Luís” foi substituído por Vicente Delmar, o nome com que assina o seu livro.]

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