Alguns britânicos recordam com orgulho que a última vez que foram invadidos foi em 1066. A resistência aos nazis durante a Segunda Guerra Mundial também marcou a identidade do país, especialmente entre os eleitores mais velhos.

"O Reino Unido nunca assumiu realmente o projeto europeu, porque tem uma história muito diferente ao longo do século XX, e menos medo das consequências de uma ruptura", explica à AFP Robert Tombs, professor de história da Universidade de Cambridge.

Vários políticos britânicos protagonizaram uma política de jogo duplo com a UE, o que não ajudou a facilitar o relacionamento. "Uma dessas faces é hostil, cética e muito britânica, e foi essa que ajudou a alimentar o euroceticismo no Reino Unido", afirma Tim Oliver da London School of Economics. "A outra face, a vista em Bruxelas, é construtiva, comprometida, e ajudou a configurar a UE de muitas maneiras".

A adesão, uma decisão pragmática

Seguindo a sua tradição imperial, o Reino Unido preferiu ficar de fora da integração europeia após a Segunda Guerra Mundial. Os líderes pensavam que as posses ultramarinas do país eram mais importantes. Mas, com o desaparecimento do império e a prosperidade do comércio no continente, Londres acabou por se render e pedir a entrada na Comunidade Económica Europeia (CEE) em 1961, quatro anos depois da sua criação.

O presidente francês Charles de Gaulle vetou duas vezes esta adesão, mas o Reino Unido acabou por entrar no bloco europeu em 1973. O primeiro-ministro trabalhista Harold Wilson convocou um referendo sobre a adesão em 1975, para tentar apaziguar os eurocéticos e protecionistas do seu partido. No final, obteve 67% dos votos na consulta.

A líder conservadora Margaret Thatcher era uma apoiante declarada da CEE, um bloco comercial sem tarifas. Mas quando tomou posse como primeira-ministra, em 1979, passou a ser conhecida e até mesmo odiada pela sua insistência para que o bloco europeu devolvesse parte da contribuição britânica ao país, o que conseguiu em 1984.

Thatcher também se opôs fortemente à crescente integração política, temendo a criação de um "super-Estado europeu". O seu famoso "Não! Não! Não!" durante um discurso na Câmara dos Comuns foi a razão da sua queda em 1990. A líder do Partido Conservador evidenciou, também, as claras fraturas dentro do partido sobre a União Europeia. Estas divisões foram levadas em frente pelo governo do primeiro-ministro John Major (1990-1997).

Em 1992, a crise monetária tirou a libra esterlina do mecanismo de câmbio europeu, que ligava as várias moedas europeias ao marco alemão. Uma revolta conservadora entre 1992 e 1993 esteve prestes a acabar com o governo Major, devido ao tratado de Masstricht, que transformou a CEE na União Europeia.

As frustrações da adesão

Em 1997, o novo primeiro-ministro trabalhista, Tony Blair, chegou ao poder com a ideia de que o país iria juntar-se à moeda única, mas a oposição interna foi enorme. A memória do fracasso do sistema de câmbio europeu era muito presente.

A partir dessa decisão, a relação política com o bloco europeu, marcada pela aventura de uma moeda única, começou a complicar-se consideravelmente. O Reino Unido também optou por permanecer fora do espaço Schengen, espaço de livre circulação de pessoas.

Perante a oposição interna, o primeiro-ministro conservador David Cameron prometeu um referendo em 2013 para resolver de uma vez por todas os problemas. Cameron fez campanha pela permanência na UE, ao afirmar que se tratava de um casamento por conveniência. Mas o povo britânico preferiu o divórcio, seja qual for o preço.

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