“Eu costumo brincar a dizer que os autocarros em Setúbal são só para desempregados e reformados, porque, para quem tem de cumprir horários, o melhor é não contar com o transporte de autocarro”, diz à agência Lusa António Romão, de 79 anos, enquanto aguarda pelo autocarro na paragem do Mercado do Livramento.

“Quando tentaram mudar os transportes, deviam ter tudo organizado. Mas foi tudo feito em cima do joelho”, acrescenta, convicto de que a “responsabilidade maior não é da transportadora Alsa Todi, mas da Câmara de Setúbal, porque é a Câmara Municipal que tem a responsabilidade dos transportes públicos na cidade”.

O autocarro que leva Maria Gertrudes Félix e a filha para Lisboa chega à hora marcada ao terminal rodoferroviário da Praça do Brasil, mas nem sempre tem sido assim, principalmente com as carreiras urbanas na cidade de Setúbal, que também são asseguradas pela Alsa Todi.

A empresa ganhou o concurso para o transporte público no lote 4 da Carris Metropolitana (com operação iniciada em junho), nos concelhos de Alcochete, Barreiro (neste caso não gere a rede local, apenas opera no âmbito intermunicipal), Moita, Montijo, Palmela e Setúbal, mas tem-se deparado com dificuldades no cumprimento de horários e na realização das carreiras previstas, alegadamente devido a dificuldades na contratação de motoristas.

“No domingo tentei apanhar um autocarro que não apareceu. Costumo utilizar os autocarros 420, 422 e 426. Também utilizo muito os autocarros da Quinta Alves da Silva para o bairro Camolas e tem havido muitos atrasos. Na passada quarta-feira precisei de fazer um exame ao Hospital de São Bernardo, tentei apanhar o autocarro das 07:40, mas o autocarro não apareceu. Tive de chamar um táxi e paguei 6,25 euros. Com a reforma mínima que tenho, esse dinheiro faz-me falta”, diz Maria Gertrudes Félix.

Na sua opinião, “a situação tem melhorado um bocadinho, mas não a 98%”, como ouviu da vereadora dos Transportes numa sessão pública da Câmara de Setúbal.

“Ela não pode acreditar na Alsa Todi, porque tem uma administração péssima. Eu já tenho saudade dos autocarros dos TST [Transportes Sul do Tejo], que eram velhinhos, mas cumpriam os horários”, comenta a utente, já a entrar no autocarro para Lisboa, a circular dentro do horário previsto.

À espera do autocarro para a zona do Montebelo numa paragem da Avenida Luísa Todi, no centro da cidade, António Manuel Pita, de 72 anos, garante que também tem sido ‘vítima’ dos muitos atrasos da Alsa Todi.

“Estou à espera do autocarro para o Montebelo, que devia ter passado às 10:30. Mas já são 10:50 e ainda não chegou. Andam sempre atrasados”, diz, para acrescentar, resignado, que “é preciso ter paciência, porque não há mais nada”.

Sem alternativas às carreiras da Alsa Todi, aos utentes não resta hipótese senão esperar por uma melhoria no cumprimento de horários das carreiras previstas, que a empresa garante já estar a acontecer, apesar dos testemunhos dos utentes que a contradizem.

“A Alsa Todi tem vindo, ao longo do tempo, com a incorporação de novos motoristas, ampliando a execução dos serviços até à sua totalidade. Neste momento, o que subsiste fica a dever-se às contingências habituais do trânsito na região da Grande Lisboa (engarrafamentos e acidentes nas pontes, sempre que existem acidentes, as horas de ponta, etc.)”, indica à Lusa fonte oficial da empresa.

Na resposta por escrito, a Alsa Todi adianta também que, no decorrer da próxima semana, já terá ao serviço muitos dos motoristas recentemente contratados, que já cumpriram o período de formação e adaptação, o que deverá proporcionar “maior capacidade de resolução de eventuais problemas”.

A empresa salienta ainda que, nestes primeiros cinco meses e meio de atividade na península de Setúbal, “cerca de 55% dos percursos tiveram algum tipo de alteração, seja de percursos, horários, incremento da oferta e outras”, acrescentando que “estas alterações, naturalmente, originaram a necessidade de contratação de mais motoristas em relação aos previstos para o plano de oferta original”.

Quanto aos motoristas contratados em Cabo Verde (pelo menos 60 até agora), a Alsa Todi - sem especificar ou quantificar os apoios dados a esses trabalhadores cabo-verdianos - afirma que está a ajudá-los a encontrarem soluções de alojamento sustentáveis, que lhes permitam inserir-se totalmente na sociedade e que lhes garantam condições de poderem, inclusive, trazer as suas famílias para Portugal.

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